[NOTÍCIAS DA IGREJA]

Como entender que a Igreja é santa?

I. O problema. — A Igreja é santa? São Paulo escreveu aos fiéis de Éfeso as seguintes palavras: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito seme­lhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 25ss). Ora, esta afirmação do Apóstolo se cumprirá apenas na etapa escatológica da história da Igreja ou é uma realidade já existente aqui na terra? Eis o problema que muitos se propõem hoje em dia.
Pois bem, dado que a Igreja de Cristo não é um ser abstrato, senão que se compõem de cristãos concretos, podemos dizer em verdade que estes são santos? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pusillus grex, este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja? Árduo problema, que devemos estudar no presente artigo. Antes de tudo, porém, é necessário investigar nas fontes primárias da Revelação o conceito de santidade.
“Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la”.
1. O adjetivo “santo” na Sagrada Escritura. — a) Aplicado a Deus. — O adjetivo “santo”, que por sua etimologia indica a ideia de pureza, isenção de toda falta e pecado, se aplica no Antigo Testamento principalmente a Deus. Isaías é, quiçá, o autor inspirado que mais vezes chama assim a Deus, sobretudo com o nome “o Santo de Israel” (cf. Is 1, 4; 5, 19.24; 10, 17.20; 12, 6; 17, 7; 29, 13.23; 30, 11.12.15; 41, 14.16.22; 43, 3.14; 45, 11), ou chamando-o também três vezes santo: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo” (Is 6, 3). Mas também em muitos outros livros do Antigo Testamento se dá com muita frequência este título a Deus.
No Novo Testamento, ao manifestar-se Deus no mistério da SS. Trindade, se dá o nome de santo em primeiro lugar ao Pai: “Pai santo, guarda-os em teu nome” (Jo 17, 11). E, como derivação de sua santidade, os cristãos, filhos seus, se santificam ou purificam à semelhança dele, como nos diz São João em sua primeira epístola: “Caríssimos, desde agora somos fi­lhos de Deus […]. Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. E todo aquele que nele tem essa esperança torna-se puro, como ele é puro” (1Jo 3, 2s).
Também ao Filho encarnado, Jesus Cristo, se dá o epíteto de “santo”. O anjo Gabriel anuncia a Maria que o fruto de suas entranhas se chamará “o Santo, Filho de Deus” (Lc 1, 35). Os próprios demônios o reconhecem como o “Santo de Deus” (Lc 4, 34). Pedro o chama assim em seu segundo discurso aos judeus depois da vinda do Espírito Santo: “Vós renegastes o Santo e o Justo” (At 3, 14). Na epístola aos Hebreus se chama Jesus de “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hb 7, 26).
Na epístola aos Hebreus se chama Jesus de “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores”.
À terceira pessoa da SS. Trindade se dá também este nome de santo, e isso de tal maneira que ele chega a ser um dos componentes do seu nome próprio: Espírito Santo. Assim aparece tanto nos evangelhos (cf. Mt 1, 18ss; Lc 1, 35; 4, 1; Jo 14, 26; 20, 22 etc.) como nos Atos dos Apóstolos (cf. At 1, 2.5.16; 2, 38; 5, 3; 10, 38.44 etc.) e em várias passagens de São Paulo (cf., por exemplo, Rm 5, 5; 2Cor 13, 13; Ef 1, 13 etc.).
b) Aplicado às criaturas. — Não somente a Deus se aplica na Sagrada Escritura o epíteto “santo”, mas também às pessoas e inclusive às coisas, enquanto pertencem ou estão consagradas a Deus. Tudo o que está mais estreitamente vinculado ao culto divino se chama santo. Assim, chama-se “o santo” à parte do tabernáculo ou do Templo que continha o altar dos perfumes e o candelabro de sete braços (cf. Ex 26, 33; 28, 29; 43, 20; e Hb 9, 2 etc.). E à parte onde estava a Arca da Aliança se chamava “o santo dos santos” (cf. Ex 26, 34; 3Rs 6, 16; Hb 9, 3). Santos eram chamados os ornamentos do Sumo sacerdote (cf. Ex 28, 36), os vasos sagrados (1Rs 21, 5) etc. Jerusalém é a “cidade santa” (cf. Mt 24, 25; Mc 13, 14; Lc 21, 20), e São Pedro chama “santo” ao monte da transfiguração, onde se manifestou a divindade de Jesus Cristo (cf. 2Pd 1, 18).
Mas com muito maior razão que as coisas, chamam-se santas as pessoas consagradas a Deus. No Levítico se repete muitas vezes esta frase: “Vós sereis santos, porque eu sou santo” (cf. Lv 11, 44s; 19, 2; 20, 26; 21, 8). E São Pedro recorda este texto do Antigo Testamento aos cristãos, exortando-os à santidade (cf. 1Pd 1, 15s). Também São Paulo chama com este nome a todos os cristãos, por estarem consagrados a Deus por meio do Batismo, como se pode ver o início de quase todas as suas epístolas (cf. Rm 1, 17; 1Cor 1, 2; 2Cor 1, 1; Ef 1, 1; Fl 1, 1; Col 1, 2), e a tudo aquilo que Deus pôs na Igreja para santificar os cristãos, como os livros da Sagrada Escritura (cf. Rm 1, 2; v. também 2Pd 1, 21) e os Mandamentos de sua Lei (cf. 2Pd 2, 21).
2. Em que consiste essencialmente esta santidade. — O Novo Testamento, muito mais que o Antigo, nos ensina que a santidade das criaturas racionais radica não tanto em uma dedicação exterior a Deus quanto em uma renovação interior. Assim, São Paulo diz aos seus fiéis que eles hão-de ser “santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos [de Deus]” (Ef 1, 4), e em suas epístolas identifica praticamente santidade com renovação interior, que essencialmente consiste em afastar-se das criaturas, na medida em que o amor desordenado a elas nos leva ao pecado, e unir-se com o Criador, fim último de todas as coisas, pela graça e o exercício das virtudes. Assim expressa o Apóstolo estas ideias: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 22ss).
A santidade das criaturas racionais radica não tanto em uma dedicação exterior a Deus quanto em uma renovação interior.
De toda esta doutrina essencialmente bíblica sobre a santidade, que aqui não podemos mais do que esboçar, se deduz que a santidade do homem pode ser considerada sob dois aspectos: a) como santidade ontológica, ou consagração a Deus pela graça santificante; e b) como santidade moral, ou reta ordenação a Deus, fim último de todas as coisas, mediante a prática de atos moralmente bons. Em concreto, como a Igreja está constituída pelos cristãos, ao falarmos da santidade da Igreja devemos levar em consideração: 1.º) uma santidade ontológica, que há-de consistir nos elementos sobrenaturais (graça, sacramentos etc.) que unam os membros da Igreja com Deus; 2.º) uma santidade moral, que há-de consistir nos atos de virtude praticados pelos fiéis sob o impulso do Espírito Santo. Nesse sentido, a santidade vem a identificar-se, ao menos em parte, com a virtude da religião, como explica Santo Tomás de Aquino:
Chama-se santidade a aplicação que o homem faz de sua mente e de seus atos a Deus. Sua diferença, portanto, com a religião não é essencial, mas apenas de razão. A religião, com efeito, proporciona o serviço devido a Deus, no que de modo especial se refere ao culto divino, como o sacrifício, a oblação e coisas semelhantes. A santidade, além disso, ordena a Deus os atos das outras virtudes ou faz com que o homem se disponha, por meio de certos atos, ao culto divino (STh II-II 81, 8 c.).
3. Três graus de santidade. — Logicamente, conforme a realização mais ou menos perfeita deste separar-se do pecado e unir-se a Deus, podemos distinguir, em escala ascendente, três graus de santidade:
Uma santidade ordinária, que se confunde com o estado habitual de graça possuído pelos membros da Igreja que não estão em pecado mortal. Exige, por um lado, uma tendência habitual a fugir do pecado (eis o seu elemento negativo) e, por outro, a observância habitual dos preceitos que obrigam sob pecado grave (eis o seu elemento positivo).
Uma santidade perfeita, que, além da ausência de pecado mortal, exige a inclinação habitual a evitar também o pecado venial (elemento negativo) e a guardar as regras de perfeição mais altas propostas por Cristo no Evangelho, e em particular as que recebem o nome de “conselhos evangélicos” (elemento positivo).
Uma santidade heroica, que implica fugir do pecado venial e seguir os caminhos de perfeição nos casos mais difíceis e árduos, até chegar ao ponto de dar a vida por Cristo e pelo próximo.
Os limites entre estes três graus não são nem podem ser linhas perfeitamente definidas. No entanto, existem casos claríssimos que podemos enquadrar em cada um deste graus, e isto basta para poder distingui-los. Seguir a Cristo em pobreza, castidade e obediência com toda fidelidade será, pois, um ato de santidade perfeita. E o ato mais claro de santidade heroica é entregar-se a Cristo até chegar a dar por Ele a própria vida, segundo aquelas palavras do Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seu amigo” (Jo 14, 13).
Por fim, não seguindo precisamente em progressão ascendente, mas como graça inteiramente extraordinária, concedida por Deus a quem e quando Ele quer, há a santidade chamada “carismática”, que é uma como que confirmação da santidade acompanhada de dons extraordinários, entre os quais se contam principalmente os milagres.
4. Precisão exata do problema. — Dizer que a Igreja é santa não implica que nela não haja pecadores; mais ainda: nem sequer que o número de santos supere o dos que não o são, desde que esses defeitos se davam à fragilidade humana, a que muitos não sigam os Mandamentos, os exemplos e os meios de santificação existentes na Igreja. Mas implica, sim, como teremos ocasião de ver mais adiante, quando explicarmos em que sentido há-de entender-se esta propriedade essencial da Igreja, que esta santidade deve aparecer de modo manifesto, conforme as palavras do Senhor: “Assim, brilhe vossa luz dian­te dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).
Dizer que a Igreja é santa não implica que nela não haja pecadores.
II. Orientação histórica. — 1. Doutrinas errôneas. — Diante do espetáculo que é a multidão de pecadores que há na Igreja, já nos primeiros séculos do cristianismo surgiu a tentação de selecionar e discriminar os bons dos maus, os justos dos pecadores; somente os justos, os puros, seriam membros verdadeiros da Igreja. Assim pensavam os montanistas e os donatistas dos sécs. IV e V da nossa era, assim pensavam os cátaros ou puritanos da Idade Média, bem como os primeiros “reformadores” do séc. XVI, sobretudo Lutero, para quem a Igreja era apenas a congregação dos justos. E como somente Deus pode conhecer com toda certeza quem são os justos, só Deus poderá conhecer a sua própria Igreja: daqui nasce a sua teoria da invisibilidade da Igreja.
Mas advirtamos que os luteranos, que, por um lado, caem em excesso de puritanismo ao excluir da Igreja todos os aqueles que não são justos, se encontram, por outro lado, muito aquém do verdadeiro conceito de santidade ao pôr a justificação somente na imputação dos méritos de Cristo, sem verdadeira transformação interior, o que está em clara oposição à doutrina de uma verdadeira reforma interior, que São Paulo pressupõe e explica continuamente em suas epístolas. Além disso, Lutero desprezava a observância dos conselhos evangélicos como uma clara manifestação de santidade. Escolhamos somente um trecho entre milhares: “Esta classe de vida [a religiosa] é contra o Evangelho […], e é coisa evidentíssima que os seus votos são nulos, ilícitos, ímpios e contrários ao Evangelho” (Obras, ed. Weimar, VIII 688).
Os dissidentes orientais se aproximam muito mais, no conceito que têm da santidade, do modo católico de a conceber; no entanto, não poucas vezes em seus escritos parece que somente dão importância à santidade ontológica e ativa, deixando de lado a santidade passiva ou dos membros da Igreja.
Nos sécs. XVII e XVIII, alguns católicos de diversos matizes jansenistas, como os que se congregaram no Sínodo de Pistóia, também caíram no erro de querer formar uma Igreja santa expulsando os pecadores. Foram condenados pelo Papa Pio VI (cf. DH 2615).
2. Doutrina da Igreja. — A santidade da Igreja é a primeira das propriedades que aparecem nos símbolos, ao fazermos nossa profissão de fé na Igreja. A fórmula mais primitiva que nos foi conservada de tais símbolos, fórmula brevíssima, provavelmente da metade do séc. II, diz assim: “Creio no Pai dominador do universo, e em Jesus Cristo, nosso Salvador, e no Santo Espírito Paráclito, e na Santa Igreja, e na remissão dos pecados” (DH 1). Nos documentos do Magistério eclesiástico, tanto dos Sumos Pontífices como dos Concílios ecumênicos, dá-se continuamente à Igreja o título de “santa”. Em especial, fala o Concílio Vaticano I da “exímia santidade da Igreja” ou da “Santa Igreja que Cristo resolveu fundar”.
III. Valoração teológica. — É de fé divina e católica que a Igreja de Cristo é verdadeiramente santa. Por outro lado, consta que os pecadores, desde que não abandonem a fé ou obediência à hierarquia da Igreja, continuam sendo membros da Igreja, já que foi condenada como herética a proposição contrária, defendida pelo Sínodo de Pistóia (cf. DH 2615). Daqui podemos deduzir que é teologicamente certo que a existência de pecadores na Igreja não está em conflito com a santidade mesma da Igreja.

IV. Ensinamento bíblico. — 1. A Igreja é santa com santidade ontológica. — Em primeiro lugar, porque Jesus Cristo, que é Cabeça da Igreja, é santo; todas as páginas do Evangelho dão testemunho desta santidade de Jesus Cristo tanto no sentido de ausência total de pecado como no sentido de exercício de todas as virtudes. Lembremo-nos ainda dos escritos dos Apóstolos, testemunhas imediatas de sua vida na terra, que o chamam continuamente de “o justo”, “o santo” (cf., por exemplo, São Pedro em At 3, 14; 1Pd 1, 18s; 2, 22ss; São Tiago em sua carta, 5, 6; São João em sua primeira epístola, 2, 1; 3, 5; São Paulo muitas vezes: 2Cor 5, 21; Hb 4, 15; 7, 26), e também de seus próprios inimigos, pois aquela pergunta de Jesus: “Quem de vós me acusará de pecado?” (Jo 8, 56) não recebeu contestação.
A doutrina que Cristo nos legou é santa com uns quilates tão sublimes de perfeição, que tem maravilhado até mesmo os pagãos que leem sem preconceitos o Evangelho; bastaria, para se convencer disso, ler os capítulos 5 a 7 de São Mateus, que se chamam comumente “o Sermão da Montanha”. Acrescente-se a isto os sacramentos, instituídos por Cristo para santificar as almas, pelos quais recebemos o Espírito Santo; o sacrifício de Jesus Cristo, que se renova continuamente de forma incruenta, mas realíssima, em todo o mundo; e, por fim, o influxo misterioso do Espírito Santo, alma da Igreja, que atua em todos aqueles que são templos dele pela graça santificante.
2. A Igreja é santa com santidade moral. — A esta santidade ontológica deve necessariamente corresponder a santidade moral nos membros da Igreja.
a) Em primeiro lugar, a santidade ordinária:
porque, se Cristo estabeleceu em sua Igreja os meios de santificação que acabamos de indicar, é necessário que eles produzam frutos de santidade nos membros da mesma Igreja, segundo as palavras do Senhor: “Toda árvore boa produz bons frutos” (Mt 7, 17ss).
porque se o fim da Igreja é, como vimos noutro artigo, a santificação dos homens, é impossível que tal fim, atribuído por Cristo à sua obra, não consiga, em um número bastante grande, o seu efeito, e para isto necessita ele chegar pelo menos ao primeiro grau de santidade ordinária;
porque a Palavra de Deus é como a semente que cai em terra boa e produz fruto, em uns de trinta, em outros de sessenta, em outros ainda de cem (cf. Mt 12, 13). Por fim, também São Paulo supõe esta santidade em seus cristãos, quando diz que eles devem estar “mortos para o pecado, vivos no Espírito” (Rm 8, 9s) e crucificar o homem velho, a fim de destruir o corpo de pecado (cf. Rm 6, 6), sem levar em conta aqui as exortações a fugir dos vícios e praticar as virtudes, as partes parenéticas de suas epístolas aos Romanos, Gálatas, Efésios etc.
b) Santidade moral perfeita. — Na Igreja de Jesus Cristo se dá também, como consequência necessária de tudo o que nos ensina o Novo Testamento, uma santidade moral perfeita. A razão é que o fim de toda a Lei nova, enquanto se contrapõe o Novo Testamento à Lei antiga, é precisamente a santidade perfeita, coisa que aparece sobretudo no capítulo 5 de São Mateus, já que ali Cristo exige de seus seguidores: o cumprimento de seus Mandamentos, inclusive dos menores (v. 19); dominar a ira até conseguir perdoar aos inimigos (v. 22ss); a pureza em grau sumo (v. 28); não só não resistir ao que nos faz mal, mas ainda oferecer a outra face ao que nos agride (v. 29ss); amar os inimigos (v. 43s); dar esmola em segredo e fugir dos louvores dos homens (6, 1ss); servir a Deus, desprezando o dinheiro e confiando unicamente em sua Providência (v. 24ss). E quem não é capaz de ver que tudo isso requer uma santidade não ordinária, mas em grau exímio?
Na Igreja se dá, como consequência necessária de tudo o que nos ensina o Novo Testamento, uma santidade moral perfeita.
Jesus Cristo convida a abraçarem a pobreza e a castidade perfeita os que aspiram a um grau maior de santidade. A tradição dos primeiros séculos da Igreja interpretou assim duas passagens de São Mateus (19, 12.16-25). Sempre haverá, pois, quem não olhe para trás, como aconteceu com o jovem rico, mas que siga os caminhos da perfeição em pobreza e castidade.
c) Santidade heroica. — Muito do que acabamos de dizer supõe, em circunstâncias especialmente difíceis, não só uma santidade exímia, mas heroica. Ademais, Jesus Cristo nos deixou o exemplo desta santidade heroica, sobretudo no amor aos homens até o sacrifício da própria vida e no sofrimento das perseguições do mundo contra Ele, e anuncia, como se vê claramente nos capítulos 13, 15 e 16 do evangelho de São João, que não faltarão pessoas que sigam esses exemplos. Era isto mesmo que supunham os Apóstolos como coisa evidente quando exortavam os fiéis cristãos à perfeita imitação de Cristo. Assim diz o Apóstolo São João: “Jesus deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3, 16); e São Pedro: “É para isso que fostes­ chamados. Também Cristo pa­deceu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais os seus passos” (1Pd 2, 21).
São Paulo, sobretudo, supõe uma santidade extraordinária nos cristãos. Recordem-se umas poucas passagens de suas cartas, que poderiam multiplicar-se sem problema. Aos romanos escrevia:
Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43, 23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8, 35-39).
E aos coríntios:
Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entre­gues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a vida (2Cor 4, 10ss) […] De muito boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós (2Cor 12, 15).
Estas últimas palavras, ainda que São Paulo as tenha dito referindo-se a si mesmo, são sem dúvida um ideal que ele propõe a seus fiéis discípulos.
d) Santidade “carismática”. — Jesus a anuncia como algo característico de sua Igreja: diz a seus discípulos que eles hão-de fazer as obras que Ele mesmo fez, e inclusive maiores do que as dele (cf. Jo 14, 12). E, em sua última aparição, ao enviá-los para pregar por todo o mundo, lhes dá o poder de fazer milagres (cf. Mc 16, 17).
A existência destes carismas na Igreja aparece já no epílogo do evangelho de São Marcos (cf. Mc 16, 17-20); nos Atos dos Apóstolos, com muita frequência (recordem-se, por exemplo At 3, 1-11; 5, 15ss; 10, 44-47; 16, 16ss), e em São Paulo, que dá normas acerca da maneira com que se devem portar na Igreja os fiéis com dons carismáticos (cf. 1Cor 12, 1-31).
Notas
Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 879-886, nn. 771-787.

meu último artigo, repassei algumas das grandes encíclicas sociais de Leão XIII, escritas com o fim de dar à Igreja uma orientação em sua delicada e difícil relação com os Estados modernos e as situações econômicas atuais. Leão XIII estava em luta contra a emergência de um estilo de vida e uma visão de mundo inteiramente secularizados, separados da herança cristã e obcecados com a busca de um progresso estritamente material. Ele foi um dos primeiros a destacar a magnitude das mudanças que estavam acontecendo, à medida que o mundo ocidental se despojava do jugo suave de seu Redentor para, no lugar, se deixar seduzir pelas ideologias da moda como o liberalismo, o materialismo, o consumismo, que prometiam expandir a liberdade, ao mesmo tempo que punham gradualmente abaixo as instituições naturais e sobrenaturais que sustentam e confortam o homem em sua peregrinação pela terra.
Neste artigo, eu gostaria de comentar a grande traços algumas encíclicas fantásticas de Leão XIII que merecem hoje o nosso estudo. Elas bem poderiam formar um excelente “syllabus” para um clube do livro ou para os grupos de leitura de nossas paróquias. A clareza delas, somada à sua força e relativa brevidade, é um dos melhores modelos em que se deviam inspirar os documentos do magistério papal.
Leão XIII estava em luta contra a emergência de um estilo de vida e uma visão de mundo secularizados e separados da herança cristã.
Em sua encíclica sobre o matrimônio cristão, Arcanum Divinae (1880), Leão XIII fala do projeto original do Criador para o casamento e a família, e desenvolve uma crítica contundente contra algumas teorias “inovadoras” e a legislação liberal que, à época, estavam apenas começando a comprometer a instituição familiar. Lida agora, com 150 anos de vantagem, esta encíclica nos permite ver a precisão incrível de todas as predições feitas pelo Papa sobre os efeitos deletérios de tais leis e ideias. No entanto, e isto é o mais importante, o Papa também aprofunda o lado positivo da matéria. Esta encíclica, por si só, constitui o marco inaugural do ensinamento católico moderno sobre matrimônio e família.
Um dos primeiros atos do pontificado de Leão XIII foi a promulgação do documento “Sobre a restauração da filosofia cristã”, mais conhecido como Aeterni Patris (1880). O trabalho inacabado do Concílio Vaticano I, suspenso em 1870 por causa da Guerra Franco-Prussiana, incluía uma revisão e reforma completas do plano de estudos católico em filosofia e teologia. Leão XIII tomou para si esta missão, apoiado em sua experiência pessoal do poder sistemático, do gênio sintético e da relevância atemporal de Santo Tomás de Aquino. Aeterni Patris foi e ainda é a Carta Magna do movimento de restauração ou, melhor dizendo, de refortalecimento do tomismo. É notável esta encíclica por sua visão conjunta da história da intelectualidade cristã e por sua ponderada, embora decidida, preferência por Santo Tomás de Aquino.
Uma vez mais, foi para dar continuidade aos esforços do Concílio Vaticano I por articular a harmonia entre fé e razão e responder ao espírito arrogante do reducionismo histórico-crítico que Leão XIII redigiu sua encíclica sobre o estudo da Sagrada Escritura: a Providentissimus Deus (1893). A encíclica proclama com firmeza a inspiração divina, a inerrância e a infalibilidade do Texto Sagrado, além de reafirmar e explicar a doutrina católica tradicional acerca da dupla autoria, divina e humana, dos livros da Escritura; a sua consequente imunidade de todo erro; o vínculo inquebrantável entre Bíblia, Tradição e Magistério; e os vários sentidos da Escritura identificados pelos Padres da Igreja.

Leão XIII retratado por Franz von Lenbach.
Em 1896, Leão XIII trouxe à luz a encíclica Satis Cognitum, sobre a unidade da Igreja, na qual se abordam tão bem os fundamentos da eclesiologia que o Papa Paulo VI, em sua encíclica inaugural Ecclesiam Suam (1964), deu-lhe especial atenção como fonte primária para as futuras discussões no Concílio Vaticano II. Esta encíclica de Leão XIII confronta-se diretamente com a pergunta: teve Jesus real intenção de fundar uma Igreja, visível e hierarquicamente estruturada como um corpo de fiéis na terra, encarregada de pregar o seu Evangelho e estender aos confins do mundo os efeitos de sua Redenção? O Papa ordena de forma sucinta evidências tiradas da Escritura, o testemunho da Tradição e argumentos racionais para chegar à conclusão de que sim, há uma única Igreja de Cristo, com sua estrutura episcopal. Ao longo de todos os meus anos de estudos em eclesiologia e apologética, nunca encontrei nenhuma exposição deste tema que seja tão direta, bem ordenada, elegante e inspiradora como a de Leão XIII.
Embora cada uma das quase cem encíclicas promulgadas por Leão XIII ofereça uma explicação penetrante da situação moderna, além de bons conselhos para os católicos, há pelo menos três delas, escritas na virada do século XIX para o XX, que me impressionaram durante anos como as mais representativas da profunda visão teológica do Papa, de seu fervor religioso tão animador e de sua ousada crítica cultural: trata-se de Annum Sacrum, sobre a consagração ao S. Coração (1899); Tametsi Futura, sobre Jesus Cristo, Redentor da humanidade (1900); e Mirae Caritatis, sobre a Santa Eucaristia (1902).
Todas elas nos falam do amor imenso que Deus manifestou por nós em Jesus Cristo, da misericórdia que Ele tem mostrado para conosco desde a queda de Adão, e da verdade divina, a única em que nossas inteligências podem encontrar paz em meio às tempestades de filosofias de vida cada vez mais confusas e contraditórias. O Papa não se contenta com afirmar que é esta a nossa terrível condição e qual é a nossa salvação; ele o expõe passo a passo, mostrando aonde nos podem, a nós homens modernos, levar as falsas filosofias de vida e como Deus nos pode resgatar do fosso de destruição que cresce cada vez mais com a nossa rejeição e desprezo de seu Evangelho. Sinto-me obrigado a dizer que teria sido de muito proveito que os Padres conciliares do Vaticano II houvessem estudado primeiro estes documentos antes de chegarem a Roma em 1962. Isto lhes teria dado a dose necessária de realismo, o refortalecimento do seu sensus catholicus, além de um modelo de brevidade e profundidade.
A verdade divina é a única em que nossas inteligências podem encontrar paz em meio às tempestades de filosofias de vida cada vez mais confusas e contraditórias.
Neste “trio” de encíclicas, Leão XIII fomenta uma luta apaixonada pela conversão, a começar pela própria Igreja, movendo-se a partir daí em círculos concêntricos até abarcar a humanidade inteira. E, como todos os Papas antes e depois dele, Leão XIII nos convida a estar reunidos em torno do mais sublime de todos os sagrados mistérios na terra: a Santíssima Eucaristia, o Corpo e Sangue de nosso Redentor, e a deixá-lo nos unir em uma só Igreja, em um só Corpo, repleto daquela força vital que cura a queda dos filhos de Adão.

Fonte: https://padrepauloricardo.org/blog/um-papa-forte-que-ainda-desafia-o-mundo-moderno