[NOTÍCIAS DA IGREJA]

Porque que é incoerente ser católico e ser comunista?

 

“Porque dizem que o católico não pode ser comu­nista?”

1. O comunismo hoje muito apregoado, ou seja, o mar­xismo (doutrina de Karl Marx, 1818-1883), vem a ser o sis­tema que propugna tornar comuns de maneira radical e mais ou menos violenta, não somente os fundos produtivos (o capital e as terras), mas também os bens produzidos; pre­coniza assim a abolição da propriedade particular e a rigo­rosa igualdade social entre os homens.

O marxismo econômico e sociológico se enquadra dentro de uma concepção geral da vida ou dentro de uma filosofia, da qual é inseparável. Esta filosofia, porém, é muitas vezes ignorada por aqueles a quem certos aspectos laterais do co­munismo conseguem atrair. Percorramos, portanto, rapida­mente os traços dessa ideologia.

Primeiramente, o marxismo professa o materialismo, e materialismo dialético; o que quer dizer: a única realidade existente é a matéria, e a matéria posta em contínua evolu­ção, devida ao choque de forças antagônicas. Em conseqüên­cia, toda a história se tece de conflitos entre os elementos contrários da matéria. Tão longo processo, porém, tende ao equilíbrio e à harmonia finais. Vê-se desde já que o marxis­mo incute uma visão dinâmica (que os seus mentores cha­mam de “dialética”), em oposição a qualquer concepção es­tática (ou “metafísica”, diriam os marxistas) do mundo.

A matéria é eterna; está em movimento desde todo o sempre, nem pode ser concebida sem movimento. Na ideo­logia marxista, portanto, não há necessidade de um Motor Imóvel, Causa última de todas as causas (segundo a filosofia de Aristóteles), nem de um Criador ou Deus. A fé em um Ser todo-poderoso proviria da incapacidade de explicar os fenô­menos naturais ressentida pelo homem primitivo.

Aplicados mais próximamente à sociologia, estes princí­pios significam que o gênero humano até a época contem­porânea viveu em constante luta de classes: o capitalista é o explorador e opressor; o operário, o oprimido: “A história da humanidade registrada até hoje é história da luta de clas­ses”, reza o manifesto de Karl Marx publicado em 1848. O fa­tor que condiciona a luta e explica todas as atividades hu­manas, vem a ser a economia: “A economia e a produtivida­de da vida material condicionam os fenômenos sociais, polí­ticos e espirituais da vida em geral. Não é a consciência do homem que determina o modo de ser da sociedade, mas, ao contrário, é a vida dos homens na sociedade que determina a consciência dos mesmos” (Marx, Zur Kritik der politischen Oekonomie, Vorrede 1859).

Em outros termos: Direito, Filosofia, Moral, Arte, Reli­gião são considerados “ideologias” ou “super-estruturas” da produção material; a classe dominante na sociedade costu­ma impor às demais as suas concepções filosóficas e religio­sas. O feudalismo medieval e o capitalismo falavam de prin­cípios éticos absolutos; o marxismo, ao contrário, nega a existência de normas morais imutáveis: “A nossa moral é, em tudo e por tudo, subordinada aos interesses da luta de classe do proletariado” (Lenin, Obras, 3a. edição XXV. Mos­cou 1933, 391). A primeira lei da ética marxista é a luta pela instauração universal da ordem de coisas comunista; não há pois, direitos absolutos, mas a força e a violência em vista do objetivo proposto vêm a ser os ditames supremos da vida so­cial.

As artes e as ciências no marxismo devem igualmente exprimir o pensamento da classe operária, isto é, hão de ser cultivadas em função do Partido Comunista; aliás, toda a cultura comunista vem a ser “cultura do Partido”, portadora de caráter popular socialista, patriotismo soviético, oti­mismo, etc.

Proposto ao mundo nos séc. XIX e XX, o marxismo apre­goa a revolução social, da qual devem resultar a total extin­ção de classes e até mesmo a supressão do Estado; é a pro­priedade particular que divide a sociedade em classes. Para conseguir a sua meta final, o marxismo visa, em primeiro lugar, instaurar a chamada “ditadura do proletariado”, me­diante a abolição do Estado burguês; os trabalhadores oprimidos procurarão aniquilar os seus opressores atuais, sendo-lhes lícito, para isto, o recurso a qualquer meio coibitivo ( em verdade, no Estado marxista, é um só homem, o ditador, quem aplica esses meios “em nome do proletariado” ou tam­bém contra o proletariado). Na fase definitiva do processo comunista, já não haverá autoridade de Estado, mas todos os homens, livres da escravidão capitalista e dos numerosos preconceitos que esta acarreta, viverão sem leis, movidos uni­camente pelo entusiasmo do trabalho desinteressado, traba­lho espontaneamente executado para o bem da coletividade; desaparecerão as injustiças e a miséria! — E’, pois, uma ver­dadeira Redenção, é um autêntico messianismo encaminhado para um paraíso terrestre, que o marxismo propõe ao mundo.

Neste quadro é claro que nenhuma das tradicionais for­mas de religião tem cabimento: “O marxismo é um materialismo. Como tal, é inimigo implacável da religião… Deve­mos combater a religião. Este é o abc de todo materialismo, por conseguinte também do marxismo” (Lenin, Obras XIV 70). “O Partido não pode ser neutro frente à religião… por­que êle é favorável à ciência, ao passo que os preconceitos religiosos são contrários a esta” (Stalin, Obras X 132). Não é menos verdade, porém, que a ideologia marxista com a sua mística, ou seja, com a sua fé entusiástica na consecução da felicidade integral, se torna uma religião exigindo para as instituições e os representantes do comunismo a adesão que sempre foi tributada a Deus.Já Oostoevskij (†l881) dizia mui­to bem, como que caracterizando antecipadamente os co­munistas contemporâneos: “Os nossos homens não se tornam ateus apenas, mas crêem no ateísmo como em uma religião”. Tem-se observado repetidas vezes que o marxismo se apre­senta como um catolicismo às avessas; muitos são os pontos de contato de ambos, trazendo apenas sinais inversos de va­lorização (positivo, negativo; à direita, à esquerda).

2. Qual o juízo a proferir sobre tais teorias?

Não se pode negar que a ideologia marxista encerra um núcleo de verdade: o mal-estar da sociedade provém não raro do predomínio injusto de uma classe sobre as outras ou da defeituosa distribuição dos bens produtivos. Desta verifica­ção, porém, não se segue que a solução consista em supri­mir a propriedade privada e as classes sociais. Com efeito:

a) não se podem reduzir todos os problemas humanos à questão econômica, como se o homem por sua natureza fosse destinado a ser mero produtor e consumidor de bens materiais, ficando as suas demais aspirações dependentes da satisfação desta primeira.Haja vista a família: não são as necessidades econômicas que dão origem à família, mas, ao contrário, é a família que funda a economia (o termo grego oikonomia o diz muito bem: oikos, casa; nomia, dispensação, legislação). E’ o desejo de se perpetuar e de certo modo imor­talizar que leva o homem a constituir um lar e a procurar conseqüentemente, mediante a sua indústria (caça, pesca, agricultura), os meios de subsistência para os seus familiares.

Também é vão dizer que a Filosofia, a Moral, a Religião são funções da produção material, embora possam sofrer a influência desta: existem, sem dúvida, verdades especulati­vas e normas éticas objetivas, imutáveis: que a soma dos ân­gulos de um triângulo seja igual a dois retos, é proposição que nenhum sistema econômico jamais poderá alterar. Em particular no tocante à religião, é absurdo apresentá-la co­mo expressão do homem covarde ou atrasado: o testemunho dos povos, os documentos da civilização aí estão a dizer o contrário. A religião sempre foi o fator que estimulou a civi­lização e a indústria dos diversos povos: a construção da ha­bitação humana, a fundação de cidades, a abertura de estra­das, a ereção de pontes, a domesticação de animais, o cul­tivo de plantas, a contabilidade bancária são realizações ins­piradas inicialmente por motivos religiosos; a religião, longe de coibir, sempre fomentou o exercício das faculdades supe­riores do homem (inteligência e vontade); a história da ciên­cia e a da civilização são, em grande parte, tributárias das aspirações religiosas que constantemente moveram os ho­mens a novos empreendimentos. Veja-se a propósito a abun­dante documentação citada por P. Deffontaines, Géographie et Religions. Paris 1948.

b) A tese da eternidade da matéria está em contradi­ção com a da evolução ascensional da mesma matéria; ca­rência de início e evolução são termos inconciliáveis entre si, pois toda evolução supõe necessariamente um ponto ini­cial e outro final. A hipótese da eternidade do mundo está também em desacordo com a ciência moderna, que não so­mente requer um ponto de partida para o processo evolutivo do universo, mas também fala de relativa “juventude” do cosmos (cerca de dez bilhões de anos).

c) Entre os homens existe, sim, igualdade básica de na­tureza (todos são animais racionais), diferenciada, porém, por características acidentais, pessoais; dotados de diversa capacidade intelectual e variada energia de vontade, os in­divíduos tendem pelas suas atividades a se dispor em hierar­quia, devida ao uso e ao abuso que cada um faz de suas qua­lidades. As desigualdades econômicas, portanto, provêm em grande parte das desigualdades naturais que intercedem en­tre os indivíduos; por isto é que não são condenáveis, desde que se mantenham dentro de certos limites e não impeçam a colaboração de todos para o bem comum. O nivelamento dos indivíduos mediante a extinção da propriedade particu­lar é contraditório à própria natureza humana, como o com­prova a experiência da Rússia mesma: a sociedade soviética conhece hoje de novo as suas classes, os seus indivíduos e grupos privilegiados, embora os nomes e títulos sejam dife­rentes dos que estavam em voga no regime imperial. Donde se vê que a igualdade entre os homens não poderá ser arit­mética, mas há de ser proporcional: todo indivíduo na socie­dade há de gozar de direitos particulares, correlativos às suas aptidões naturais e à contribuição que êle possa pres­tar ou haja prestado ao bem comum.

De resto, fraternidade entre os homens sem crença em Deus é impossível; se não se reconhece um Pai comum nos céus, com que direito se exigirá que os homens se reconhe­çam uns aos outros como irmãos sobre a terra? Cedo ou tar­de, mostra-nos a história que as tendências egoístas se atuam, corroendo a filantropia dos ateus. Muito menos se pode espe­rar que, sem Deus, os homens instaurem o paraíso sobre a terra, vivendo sem leis, em espontânea concórdia. Tal ex­pectativa ignora totalmente a realidade histórica: a nature­za humana e, com ela, o mundo visível estão sujeitos à de­sordem que o pecado inicial introduziu (pecado de que fa­lam as reminiscências mesmas dos povos primitivos); e so­mente pela reconciliação do homem com Deus é que se po­derão obter harmonia e bem-estar neste mundo. — A luz destas considerações, o marxismo aparece claramente co­mo uma religião desviada do seu verdadeiro objetivo. Aliás, já dizia muito a propósito Donoso Cortês, o famoso estadista (†l853): “Toda civilização é sempre o reflexo de uma Teolo­gia” (Ensayo sobre el catolicismo, el liberalismo y el socialis­mo 1851).

Vê-se, por fim, que não há compatibilidade entre cato­licismo e marxismo plenamente entendidos. Isto, não exclui que certas teses marxistas referentes à economia ou à administração pública possam ser incorporadas à ideologia cris­tã. Segundo as declarações dos próprios comunistas, o mar­xismo não pode nem quer ser concebido independentemente do quadro filosófico ou do materialísmo dialético que inspi­rou a Marx; qualquer tentativa, como a da II Internacional, de edificar o comunismo sobre outro fundamento filosófico é rejeitada pelo bloco marxista preponderante qual deviação ou heresia (sabe-se que a II Internacional, de 1880 ao fim da primeira guerra mundial, foi tida por Lenin, Trotzkij como Internacional dos social-patriotas e dos traidores). A prática do marxismo é indissolúvel da respectiva teoria; por isto também tudo que o marxista realiza na vida públi­ca, ele o realiza no espírito do partido. Diz Lenin: “O materialismo implica, por assim dizer, o espírito de partido, en­quanto nos obriga, em todo juízo que formulemos sobre um acontecimento, a colocar-nos direta e abertamente do ponto de vista de certo grupo social” (Obras I 380s).

À propósito:

Reinaldo Azevedo

As ofensas, como era previsível, chegaram. E não trazem também nenhuma novidade. Não tenho nada a acrescentar ao que escrevi há um ano e meio, quando critiquei Saramago e fui parar na boca do sapo. A síntese é a seguinte: Saramago não acreditava em Deus, e eu não acreditava em Saramago. Reproduzo:
*
“Saramago é Prêmio Nobel, e você é só um blogueiro”.
“Saramago não vai dormir à noite depois de sua crítica”.
“Você não tem vergonha de criticar Saramago?”
“Reinaldo, primeiro vá ser Prêmio Nobel’.
“Quem sabe escreve como Saramago; quem não sabe o critica”.
“Que vergonha! O blogueiro quer aparecer”.
“Basta que alguém seja unanimidade, e lá vai o Reinaldinho criticá-lo”.
“Saramago não tem o direito de ter a sua ideologia?”

Entendi tudo: Saramago – e outros idiotas não-laureados – podem atacar nada menos do que Deus. É isto mesmo: esses humildes analistas não vêem mal nenhum nisso e reivindicam o que consideram ser um direito e matéria de liberdade de expressão. Estão certos nesse particular. É evidente que, numa democracia, pode-se criticar qualquer um – e qualquer um inclui mesmo “o UM”.

Mas alto lá! Criticar Saramago já é demais! Aí já passa da conta. Quando se é Saramago, pode-se criticar Deus mesmo tendo, como tem o escritor português, uma reputação mais curta. Não que ele não opere alguns milagres: o maior deles é ter uma legião de fãs que estão convictos de que compreendem TUDO o que ele escreve. Duvido que seja mais difícil provar a lógica da Trindade do que entender certos períodos de Saramago. Religiões… Mas volto.

Quando se é Saramago, pode-se criticar Deus mesmo sem ser Deus. Já um crítico de Saramago, segundo entendi, precisa antes ganhar um Nobel de Literatura para ter o direito de censurar suas tolices – sim, ele piscou uma das orelhas para o extermínio dos humanos. A espécie não passou no crivo de seu “marxismo hormonal”. Ademais, a estarem certos estes que me escrevem, é preciso começar a conferir Nobel de crítica para que os “nobelados” possam ser criticados…

Ofende afirmar que ele é um cretino? Pois é um cretino. O mundo deixado ao seu escrutínio resultaria em quê? Na ditadura do que ele chama “razão” (a sua particularíssima noção de razão), a mesma aplicada por todos os facínoras comunistas, que são os seus heróis. Os nazistas acreditavam na eugenia propriamente dita, e Saramago e os comunistas sempre defenderam uma variante dela, que é a limpeza ideológica.

O autor mais lido também em Portugal é Paulo Coelho? Certamente se trata de uma literatura inferior à de Saramago – ou melhor, deve ser: nunca li nada de Coelho. Mas conheço um pouco das tentações totalitárias do outro.

Não duvidem: fôssemos obrigados a escolher entre alguém que quisesse realizar a utopia coelheana e alguém que pretendesse usar o norte moral do escritor português, quem vocês acham que colecionaria o maior número de cadáveres ao fim da jornada? Mas, claro, claro, o mago é um bobo que, suponho, nos convide a meditações transcendentais e algum incenso. Já o comuna tem a utopia do “novo homem” – que custa apenas a morte de alguns milhões de velhos homens.

Não contem comigo para este lixo ético. Nem com o meu silêncio. “Ah, e quem é você diante do grande escritor?” Eu? Não sou nada! Mas garanto que, fôssemos da mesma espécie moral, eu estaria mais próximo da estatura de Saramago do que Saramago da estatura de Deus!

Fonte: carmadelio