[NOTÍCIAS DA IGREJA]

O filósofo que envenenou a teologia alemã

O que Bismarck não pôde fazer com armas e política, fizeram-no os teólogos alemães com uma teologia ruim e uma concepção distorcida da natureza de Deus. O pensamento de Hegel foi responsável, em boa medida, por esse declínio.

Otto von Bismarck, o primeiro Chanceler da Alemanha, fez o melhor que pôde, mas acabou fracassando em pôr a Igreja Católica de joelhos. No entanto, ele ficaria admirado ao ver o estado em que ela se encontra hoje. Com os bancos das paróquias se esvaziando rapidamente e cada vez menos vocações sacerdotais, o fato de a Igreja ser uma das instituições que mais empregam pessoas só prova que ela se tornou a “funcionária” do Estado tão sonhada por Bismarck. Ainda assim, talvez o Chanceler queira saber: como os outros conseguiram fazer o que eu fracassei em realizar? A resposta se encontra, ao menos em parte, na igreja alemã.

Do ponto de vista teológico, a Alemanha foi por séculos uma nação expoente. Basta pensar em Santo Alberto Magno, mestre de Santo Tomás de Aquino, ou na liderança dos jesuítas no contexto da Contrarreforma, que respondeu à dissidência cismática promovida por Lutero. A teologia alemã, contudo, não pôde recuperar-se do maior desafio com que já deparou: o racionalismo iluminista e as tentativas de superá-lo por meio da dialética hegeliana. O pensamento de Hegel, com efeito, exerce ainda hoje uma forte influência sobre a teologia alemã.

A concepção hegeliana de Deus como Espírito ( Geist) envolvido no desdobrar da história está enraizada numa heresia cristã, bastante afim ao espiritualismo do teólogo medieval Joaquim de Fiore. Para o pensador hegeliano, Deus sofre e se transforma através do pecado e do sofrimento de suas criaturas, difundindo dialeticamente ao longo do progresso histórico seu amor e sua misericórdia.

Citando um hino luterano, “Deus está morto”, Hegel argumenta que Deus une a morte à sua natureza. Por isso, quando passamos pela experiência do sofrimento e da morte, saboreamos um pouco das particularidades da “história” eterna e divina. Segundo ele, o sofrer “é um momento na natureza do próprio Deus; é parte dele”. Para Hegel, sofrer é um aspecto da natureza eterna de Deus. O nosso pecado e o nosso sofrimento são necessários para que Deus seja Deus.

Essa heresia teve ampla ressonância na concepção moderna, seja católica ou protestante, da natureza divina. Pregada do alto dos púlpitos, ela deixa nos fiéis a impressão de que Deus chora conosco. No entanto, tragicamente inconsciente do erro que nela se esconde, o pregador hegeliano acaba pregando um Deus incapaz de nos salvar; um Deus eternamente tão associado às nossas lágrimas que não é capaz de enxugá-las do nosso rosto.

Muitos teólogos alemães do século XX seguiram as pegadas de Hegel. Um princípio básico desta corrente é a noção hegeliana de dialética como processo revelador em si mesmo. O que esses teólogos fizeram, noutras palavras, foi introduzir em suas ideias sobre o “desenvolvimento do dogma” a noção hegeliana de que Deus se revela continuamente na história, uma vez que nele e, portanto, na Igreja há sempre algo “vindo-a-ser”. O precursor espiritual de Hegel, Joaquim de Fiore, previra uma “terceira idade do Espírito Santo”, na qual brotaria uma nova Igreja. E é chocante o fato de tantos teólogos alemães se terem deixado seduzir pela ideia de uma futura Igreja, muito diferente daquela Santa e Apostólica de outrora.

Isto não quer dizer que Hegel seja a resposta à hipotética indagação de Bismarck. Na verdade, há uma diferença enorme entre a ideia de que a religião não passa de uma projeção do espírito interior, defendida pelo hegeliano de esquerda Ludwig Feuerbach, e as teologias de um Karl Rahner ou um Walter Kasper. Como quer que seja, o fato é que existe algo de profundamente hegeliano em fazer do desenrolar da experiência humana na história uma norma do desenvolvimento teológico — norma à qual Deus e a Igreja, sempre submissos, devem conformar-se. Infelizmente, trata-se de uma péssima norma para futuras mudanças, já que conduz não só a uma falsa reforma, mas à apostasia e ao desespero.

A norma que deve presidir ao desenvolvimento doutrinal, como o teólogo alemão Matthias Shebeen muito bem compreendeu, assim como o Cardeal Newman, tem de ser as verdades divinamente reveladas, o depósito da fé, transmitido por Cristo aos Apóstolos. A renovação espiritual da Alemanha só terá início se os bispos e padres do país, bem como os leigos, reconhecerem que toda mudança e todo desenvolvimento deve estar ordenado às verdades eternas, e não às necessidades do Estado, ao “Espírito” da cultura ou ao “desenrolar” histórico da experiência humana interior. A Igreja tem de conformar-se, não às necessidades das nações, mas à Verdade, em sua plenitude, revelada por Deus feito carne, Jesus Cristo.

Fonte: Catholic Herald | Tradução e adaptação: Equipe CNP

Fonte: https://padrepauloricardo.org/blog/o-filosofo-que-envenenou-a-teologia-alema