[NOTÍCIAS DA IGREJA]

Mistérios: um ato falho de Allan Kardec

Como o fundador do Espiritismo admitiu, sem querer, a noção católica de “mistério”.

Allan Kardec, apesar de ter escrito que “para o espiritismo não há mistérios”, reconheceu em inúmeras obras os limites da razão humana e a infinitude do poder divino. Será mesmo que os espíritas, ao defenderem que os mistérios não são mais do que “leis físicas ainda não descobertas”, estão realmente sendo fiéis à doutrina do “codificador” do Espiritismo?

É razoável não crer em alguma coisa só porque não se é capaz de penetrar a fundo o seu significado? Qual é, enfim, a razão por que os espíritas rejeitam a divindade de Cristo, a Santíssima Trindade, o inferno e outra longa série de verdades ensinadas por Cristo? Não é simplesmente porque “não compreendem” e lhes contradiz a maneira de ver?

É o que Frei Boaventura Kloppenburg procura responder neste texto, extraído de um importante livro apologético de sua autoria.


“Quando se nos quer impingir um princípio incompreensível ou uma tese que não convém esmiuçar, dá-se-lhe o nome de mistério e proíbem-se indagações. É a escuridão. Proscreve-se a análise, a elucidação, o livre exame, o estudo”.

Quantas vezes tivemos de ler frases como estas! Só porque defende o mistério, a Igreja é acusada de mil crimes contra a razão humana. E é, no entanto, precisamente a razão humana que nos diz que deve haver mistérios.

Queiram os espíritas acompanhar o seguinte raciocínio. Deus é infinito em todos os seus atributos, é a sabedoria infinita, que sabe tudo e tudo compreende; nós homens, por mais evoluídos que nos reputemos, somos sempre limitados e não vemos nem sabemos nem compreendemos tudo.

Estas duas afirmações são perfeitamente razoáveis. O próprio Allan Kardec haveria de subscrevê-las, como veremos logo mais. Mas daí segue que podem existir verdades conhecidas e perfeitamente compreendidas pela sabedoria incriada, Deus, e que a inteligência criada e limitada, o homem, não atinge em sua essência. Ainda isso é altamente razoável.

Continuemos, pois, o pensamento. É possível ainda que Deus revele aos homens a existência de certas verdades que, em si mesmas, só Ele conhece, sem revelar-nos a natureza íntima destas mesmas verdades.

Ora, suponhamos que Deus, em sua bondade e condescendência, de fato nos revele semelhantes verdades. Qual deveria ser então a atitude do homem perante tais revelações? Seria razoável pôr em dúvida a veracidade ou a sabedoria de Deus? Certamente não.

A própria razão humana, por conseguinte, nos manda tomar a seguinte atitude diante de Deus. O homem aceita, de joelhos e agradecido, o que Deus lhe revela, mesmo que não o consiga compreender perfeitamente. Até no mundo material há inúmeros fatos de cuja existência não se pode razoavelmente duvidar, mas cuja essência ou natureza íntima nos permanece oculta. É, por exemplo, verdade certa que existe a vida, mas até hoje ninguém conseguiu explicar satisfatoriamente sua essência ou natureza. Louco seria quem negasse a vida ou a eletricidade como fato só porque não lhe compreende a essência.

Semelhantemente há, no mundo material em que vivemos, um sem-número de fatos ainda inexplicáveis e não raras vezes até aparentemente contraditórios. Basta perguntar aos especialistas em biologia, em física, em química etc.

Ora, todo homem razoável, ainda mais o espiritualista que, como os espíritas, admite a existência dum mundo espiritual e duma vida do homem depois da morte, deve conceder que também neste mundo espiritual podem existir fatos semelhantes. E, pois, se Deus nos revela misericordiosamente a existência de tais fatos, sem nos falar claramente de sua essência, competirá a nós homens aceitá-las como fatos, muito embora sejam talvez de dificílima compreensão. Sumamente irrazoável seria rejeitá-los.

Pois bem, quando os católicos empregam a palavra mistério, eles entendem precisamente o seguinte: é uma verdade divinamente revelada (como fato), cuja compreensão ou natureza, em parte ou em todo, supera, transcende ou ultrapassa as capacidades naturais da razão humana.

Tais mistérios, porém, podem ser estudados, analisados e esmiuçados à vontade (e esse trabalho recebeu o nome de Teologia e nunca foi proibido pela Igreja, digam embora os espíritas mil vezes o contrário), mas sob uma condição fundamental: que não se negue o fato.

O mesmo acontece no mundo material. Estabelecido, por exemplo, que existe a eletricidade (fato), a razão humana começa o trabalho de investigação, análise e estudo para explicar a natureza deste fenômeno; mas também aí permanece a regra fundamental: que não se negue o fato.

Um exemplo de mistério teológico. Deus nos revelou, por Cristo Jesus, que os que morrerem impenitentes e maus “irão para o suplício eterno” (cf. Mt 25, 45), segundo uma expressão muitas vezes repetida por Cristo. Daí tiramos a conclusão: a existência de um estado e lugar de “suplício eterno”, chamado também por Jesus “inferno”, é um fato.

Por outro lado, sabemos também que Deus é infinitamente bom e misericordioso; é outro fato inegável. Deus revelou evidentemente estes dois fatos. Daí surge o problema teológico: como combinar os dois mencionados fatos? Todo o mundo, inclusive os teólogos católicos, concede que estamos diante dum problema de difícil solução.

Os espíritas pensam resolver o problema negando o primeiro fato revelado (isto é: existe um inferno). Mas isso não é solução nenhuma. É absolutamente fundamental ater-se aos fatos.

O católico acabará talvez dizendo: “Não vejo solução clara; é um mistério”, mas continuará aceitando como certo ambos os fatos, pois ele vê que ambos foram revelados por Deus, que não se engana nem nos pode iludir. O católico não duvida dos fatos, mas pode ter mil dificuldades. Duvidar e ter dificuldades são coisas muito diferentes.

É irracional e indigna do homem a atitude dos católicos? Absolutamente não! Irracional é a posição dos espíritas que negam um fato evidente, porque, como tal, garantido pela autoridade divina. Irracional é a exigência dos espíritas, quando reclamam com Allan Kardec: “É preciso que a razão possa tudo analisar, tudo elucidar, antes de nada aceitar”. Com este princípio os espíritas não deveriam nem aceitar a eletricidade.

Aliás, Allan Kardec, apesar de ter escrito que “para o espiritismo não há mistérios” (Obras Póstumas, 10.ª ed., p. 201), escreveu também as seguintes palavras muito bem pensadas e muito racionais e cristãs:

O homem, cujas faculdades são restritas, não pode penetrar nem abarcar o conjunto dos desígnios do Criador; aprecia as coisas do ponto de vista da sua personalidade, dos interesses factícios e convencionais que criou para si mesmo e que não se compreendem na ordem da natureza. Por isso é que, muitas vezes, se lhe afigura mau e injusto aquilo que considera justo e admirável, se lhe conhecesse a causa, o objetivo, o resultado definitivo. Pesquisando a razão de ser e a utilidade de cada coisa, verificará que tudo traz o sinete da sabedoria infinita e se dobrará a essa sabedoria, mesmo com relação ao que não lhe seja compreensível (A Gênese, ed. de 1949, p. 67).

O grifo é nosso para mostrar que, mesmo segundo Allan Kardec, podem existir o que denominamos mistérios e que, por conseguinte, não é necessário nem mesmo possível que a “razão possa tudo analisar, tudo elucidar, antes de nada aceitar”. Ainda outras vezes fala Kardec do mesmo modo: “Há muitas coisas”,  escreve ele em O Livro dos Espíritos, 22.ª ed., p. 79, “que não compreendeis, porque tendes limitada a inteligência. Isso porém não é razão para que a repelais”. E outra vez: “Deus pode revelar o que à ciência não é dado apreender” (ib., p. 56).

Ele fala também do “orgulho dos homens, que julgam saber tudo e não admitem haja coisa alguma que lhes esteja acima do entendimento”(ib., p. 105). E mais: “Dos efeitos que observamos, podemos remontar a algumas causas. Há, porém, um limite que não nos é possível transpor. Querer ir além é, simultaneamente, perder tempo e cair no erro” (Obras Póstumas, 10.ª ed., p. 31).

E queremos citar mais este texto áureo:

Muita gente há, infelizmente, que toma suas próprias opiniões pessoais como paradigma exclusivo do bom e do mau, do verdadeiro e do falso; tudo o que lhes contradiga a maneira de ver, a suas idéias e ao sistema que conceberam, ou adotaram, lhes parece mau. A semelhante gente evidentemente falta a qualidade primacial para uma apreciação sã: a retidão do juízo. Disso, porém, nem suspeitam. É o defeito sobre que mais se iludem os homens (O Livro dos Médiuns, 20.ª ed., p. 280).

Não teriam sido ele, Kardec, e seus adeptos vítimas deste defeito? Qual é, no fundo, a razão por que rejeitam a divindade de Cristo, a Santíssima Trindade, o inferno e outra longa série de verdades ensinadas por Cristo? Não é simplesmente porque “não compreendem” e lhes contradiz a maneira de ver?

Mas diz ainda com muito acerto o mesmo Allan Kardec: “O primeiro indício da falta de bom-senso está em crer alguém infalível o seu juízo” (O Livro dos Espíritos, p. 44); e:

O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro. Mesmo aqueles, cujas idéias são as mais falsas, se apóiam na sua própria razão e é por isso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível (ib., p. 28).

Kardec condenou-se a si mesmo e aos espíritas em geral quando escreveu:

[…]  em geral, os homens apreciam a perfeição de Deus do ponto de vista humano; medindo-lhe a sabedoria pelo juízo que dela formam, pensam que Deus não poderia fazer coisa melhor do que eles próprios fariam (A Gênese, p. 77).

E mais:

Os homens de saber e de espírito, tomando a inteligência que possuem para medida da inteligência universal e julgando-se aptos a compreender tudo, não podem crer na possibilidade do que não compreendem. Consideram sem apelação as sentenças que proferem (O Evangelho segundo o Espiritismo, 39. ed., p. 109).

Aí temos, pois, Allan Kardec, o defensor do mistério… Repitamos com Kardec: “Procuremos em tudo a justiça e a sabedoria de Deus e curvemo-nos diante do que ultrapasse o nosso entendimento” (A Gênese, p. 78). É exatamente a noção católica de mistério.

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de Fr. Boaventura Kloppenburg, Resposta aos Espíritas. Rio de Janeiro: Vozes, 1954, pp. 5-9.
Fonte: https://padrepauloricardo.org/blog/misterios-um-ato-falho-de-allan-kardec