[NOTÍCIAS DA IGREJA]

 

As obrigações da nossa Crisma

 

 

A recepção do Crisma “impõe a obrigação de vivermos à altura do selo” impresso em nossa alma e da consagração operada por este sacramento.

Sábado da Oitava de Pentecostes

As obrigações da nossa Crisma

Considerai primeiro que a Confirmação é um dos sacramentos que imprimem na alma um selo espiritual chamado “caráter”, que é de natureza tal, que a alma em que ele é impresso é consagrada, de certo modo, ao serviço de Deus na qualidade de soldado, assim como o caráter do Batismo, por um lado, é o sinal de nossa pertença ao Povo de Deus e o da Ordem, por outro, nos constitui ministros de Cristo. Por isso, nenhum desses sacramentos pode ser repetido, uma vez ministrados, pois o caráter que eles deixam na alma, sinal de sua consagração a Deus, não pode ser apagado e, por conseguinte, tampouco repetido. Ora, a recepção desses três sacramentos impõe também a obrigação de vivermos à altura do selo por eles impresso na alma e da consagração que eles operam; nesse sentido, o sacramento da Confirmação obriga-nos em particular à observância de toda a disciplina dos soldados de Jesus Cristo e a manter-nos fiéis à bandeira cristã; manda-nos, além disso, combater bravamente ao lado de Nosso Senhor e preferir a morte a desertar ou aliar-se aos inimigos por algum pecado voluntário. Esta é a fidelidade que, como soldados seus, devemos a Cristo; é a isto, pois, que nos obrigamos quando recebemos o caráter da Confirmação.

Considerai, em segundo lugar, que os soldados deste mundo juram observar rigorosamente todas as exigências de sua vocação e as ordens de seus superiores. Eles se expõem a todo tipo de perigo e trabalho, quer em marcha, quer durante um assédio, quer em pleno campo de batalha. Eles suportam frio, calor e todas as inclemências do tempo e das estações; padecem fome, sede, vigílias e todas as outras dificuldades em que o seu estado de vida os põe; e tudo isso por um soldo insignificante. Que lições daqui podem tirar os cristãos, que, pelo sacramento da Crisma, se alistaram como soldados nas fileiras de Cristo! Como devem eles esforçar-se ainda mais por aguentar corajosamente todos os trabalhos e fadigas a que se expõem nesta guerra espiritual, ainda mais porque lutam na presença e sob o estandarte de um tão grande Rei, que lhes tem prometida uma grande recompensa. Mas, oh! os soldados deste mundo — temo — hão de levantar-se um dia em julgamento e condenar-nos por termos feito e sofrido tão pouco na guerra de Cristo, em comparação com o que eles mesmos fizeram e sofreram na guerra do mundo.

Considerai, em terceiro lugar, que tudo o que uma vez por todas foi dedicado e consagrado a Deus permanecerá para sempre dedicado e consagrado ao seu divino serviço; e profanar qualquer coisa a Ele consagrada não é menor crime que um sacrilégio. Portanto, a alma que pela Confirmação foi santificada, dedicada e consagrada a Deus, levando sempre consigo a marca dessa consagração, encontra-se por isso mesmo estritamente obrigada a pertencer-lhe, sendo-lhe sempre fiel e santa — como convém ao que foi consagrado ao seu divino serviço —, na condição de soldado e templo seu.

Lembrai-vos, ó cristãos, que é indelével, tanto nesse quanto no outro mundo, o caráter com que a alma é selada neste sacramento; lembrai-vos que, se vivermos à altura dessa marca, ela irá brilhar, resplandecente, em nossas almas por toda a eternidade, e será um não pequeno acréscimo à nossa glória e felicidade eternas. Mas se nos atrevermos a desonrar e profanar este selo sagrado de Cristo por meio duma vida indigna, e, depois de nos termos comprometido com Ele pela consagração de nossas almas, nos tornarmos rebeldes e desertores, este mesmo selo será causa de condenação para nós no dia do Juízo; ele permanecerá conosco para sempre como sinal da justiça divina, como marca de desgraça, como perpétua acusação contra os réprobos, e um motivo a mais para que a alma um dia consagrada a Deus sofra e seja ainda mais atormentada, por ter-se feito tão má, tão miserável, tão traiçoeira a ponto de O abandonar.

Tenhais, pois, sempre em mente o caráter sagrado de vossa Confirmação, bem como o do Batismo, de sorte que possais honrar as obrigações que neles contraístes. Não temais ante o panorama das batalhas em que vos tereis de envolver, ou das cruzes e asperezas que haveis de suportar nesta refrega, pois a graça e “a paz de Deus, que supera todo entendimento, vos guardará” ( Fil 4, 7) e “não permitirá que sejais provados acima de vossas forças” (1Cor 10, 13); antes, há de conduzir-vos com força à vitória. Em sinal disto, o Bispo deu-vos ao confirmar-vos um golpe no rosto, como manifestação das adversidades que enfrentareis; mas, ao mesmo tempo, transmitiu-vos a paz de Deus, a fim de que compreendais que Ele está convosco sempre, e nunca vos abandonará.

 

 

Disponível em padrepauloricardo <https://padrepauloricardo.org/blog/as-obrigacoes-da-nossa-crisma> acessdo em 11 de julho de 2017.