[NOTÍCIAS DA IGREJA]

“Amoris Laetitia”: fatores objetivos e subjetivos presentes no pecado à luz da moral católica.

Entrevista com o filósofo Rocco Buttiglione, grande conhecedor do magistério de São João Paulo II: “A perspectiva de Francisco é perfeitamente tradicional. A novidade consiste em aplicar também ao pecado cometido pelos divorciados recasados as possíveis atenuantes previstas para todos os demais pecados assim como aparecem no Catecismode São Pio X”.
“A Amoris Laetitia implica riscos pastorais. Alguns poderão dizer que a consideram uma decisão pastoral equivocada, mas, por favor, deixemos de lado os tons apocalípticos e paremos de dizer que a doutrina sobre a indissolubilidade dos sacramentos está sendo questionada quando somos confrontados com uma escolha sobre a disciplina dos sacramentos, cujas bases foram lançadas pelo Papa João Paulo II”. O professor Rocco Buttiglione, filósofo, estudioso e grande conhecedor do magistério do Papa Wojtyla, ficou surpreso com algumas das críticas feitas à Exortação Pós-sinodal de Francisco.

O que pensa, em seu conjunto, da Exortação Amoris Laetitia?

Parece-me uma grande tentativa de dizer a palavra da fé no contexto do mundo de hoje. O que era também a grande preocupação de João Paulo II: o homem concreto, o homem existente, o homem da realidade, não aquele descrito nos livros ou que gostaríamos que fosse.

Que relação existe entre este documento de Francisco e o magistério do Papa Wojtyla?

No passado, a Igreja excomungava os divorciados recasados. Fazia-o por uma justa preocupação: não escandalizar ou não colocar em discussão a indissolubilidade do matrimônio. Mas então vivíamos em uma cristandade compacta. Podia-se supor que todos sabiam o que era o matrimônio, um sacramento no qual os esposos se tornam fiadores mútuos do amor de Deus, motivo pelo qual se te abandono, de alguma maneira, é como se Deus te abandonasse.

João Paulo II disse que os divorciados recasados não podem ser excomungados, recordando que existem fatores objetivos e subjetivos em qualquer pecado. Há pessoas que podem fazer alguma coisa errada, um mal, mas sem serem completamente responsáveis. E então o Papa Wojtyla abriu, convidando os divorciados a entrar na Igreja, acolhendo-os, batizando seus filhos, reintegrando-os na comunidade cristã.

Mas, sem readmiti-los à comunhão – é o n. 84 da Familiaris Consortio –, a menos que não voltassem ao cônjuge legítimo, que se separassem do novo cônjuge ou que vivessem a segunda união como irmão e irmã, ou seja, abstendo-se das relações sexuais.

E o que propõe agora a Amoris Laetitia?

Francisco dá um passo à frente nesta direção. Não diz que os divorciados recasados podem receber ou pretender a comunhão, Não! O divórcio é péssimo e não pode haver atos sexuais fora do matrimônio. Este ensinamento moral não mudou. O Papa diz que agora os divorciados recasados podem confessar-se, iniciar uma caminhada de discernimento com o sacerdote. E, como em qualquer confissão, com cada pecado, o sacerdote deve avaliar se existem todas as condições para que um pecado seja considerado pecado mortal.

Eu gostaria de recordar aos meus colegas que disseram palavras fortes contra a Amoris Laetitia, que São Pio X – que não era propriamente um Papa ‘modernista’ – em seu Catecismo dizia que o pecado mortal exige a matéria grave, mas também a plena advertência e o consenso deliberado, isto é, a plena liberdade para assumir completamente a responsabilidade do que fez.

Por que este aspecto é tão importante neste caso?

Porque hoje há muitos casos em que não existe essa plena advertência. Há massas enormes de batizados que não foram evangelizados. Alguém poderia dizer: “Mas, para estes casos existe o processo da nulidade matrimonial”. Sim, é verdade, embora fosse preciso recordar que em muitos lugares do mundo não é tão fácil ter acesso aos tribunais eclesiásticos, e depois nem sempre é tão fácil descobrir a verdade. Vivemos em um mundo de famílias feridas, de pessoas feridas, pessoas que podem encontrar-se em situações das quais não podem sair.

Devemos avaliar tudo e ajudá-las a sair da situação de pecado, iniciar uma caminhada, mas sem prejudicar os cônjuges que as acompanharam na segunda união e que, talvez, estiveram perto delas em um momento dramático de suas vidas: pensemos no caso de uma mãe com crianças pequenas abandonada pelo marido e que se uniu a um homem que se ocupou desses filhos. Estamos falando de questões que exigem um discernimento, delicadeza, grande humanidade, compaixão, acompanhar…

Com qual objetivo, professor?

A pergunta é: em qual momento desta caminhada o padre dará a comunhão? Quando considerar que existem as condições, sem automatismos ou atalhos, mas também sem fechar as portas na cara antes de ter avaliado seriamente as histórias pessoais. Esta é a ideia da Igreja hospital de campanha, que é tão importante para o Papa Francisco. Se estivéssemos no Hospital Naval Bethesda, onde tratam o Presidente dos Estados Unidos, o paciente sairia perfeitamente curado, após terem sido feitas todas as operações necessárias. No hospital de campanha começa-se a fechar as feridas.

Qual é a relação entre esta perspectiva e a tradição da Igreja?

Esta perspectiva é perfeitamente tradicional. A Amoris Laetitia diz: avaliemos as condições subjetivas também para o pecado daqueles que se divorciaram e vivem uma segunda união. É uma questão eminentemente pastoral. Recordo que dom Luigi Giussani dizia: “Deve-se julgar os atos, nunca as pessoas, porque isto cabe exclusivamente a Deus”. Somente a Deus, e um pouco ao confessor. Li análises dramáticas e inaceitáveis sobre o documento, e, em particular, sobre uma nota de rodapé.

Vai mudar alguma coisa com a Exortação Apostólica Amoris Laetitia?

Claro que muda! Mas não mudou nem a moral nem a doutrina sobre a indissolubilidade do matrimônio. Muda a disciplina pastoral da Igreja. Até ontem havia uma perseguição de absoluta culpabilidade sobre o pecado cometido pelos divorciados recasados. Agora, mesmo para este pecado avalia-se o aspecto subjetivo, assim como acontece com o homicídio, com a evasão fiscal, com a exploração dos operários, com todos os demais pecados que cometemos. O padre escuta e avalia inclusive as circunstâncias atenuantes. Estas circunstâncias podem mudar a natureza da situação? Não, o divórcio e a nova união seguem sendo um mal objetivamente. Estas circunstâncias mudam a responsabilidade do sujeito envolvido? Talvez sim. Devemos discernir.

A insistência no aspecto subjetivo poderia levar a uma forma de subjetivismo?

Não é subjetivismo. É a justa consideração da subjetividade humana. Quem ensinou isto foi Santo Tomás de Aquino: “fizeste uma coisa errada, mas nem sempre é possível atribuir a ti toda a responsabilidade”. No fundo, esta doutrina moral começa no Calvário, quando Jesus crucificado diz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”.

Há quem diga que readmitir estas pessoas à eucaristia, apenas sob certas circunstâncias e depois de um percurso de discernimento, equivaleria a mudar a doutrina da Igreja. O que lhe parece?

Não é uma questão de doutrina. A doutrina continua sendo a que é em relação à consideração do que está mal e do que não está. Em vez disso, estamos falando da responsabilidade subjetiva e das eventuais circunstâncias atenuantes. Ao anunciar o Evangelho temos que nos perguntar o que devemos dizer antes e o que devemos dizer depois. Jesus não disse a João e André: “Primeiro observem os mandamentos”, mas “Vem e segue-me”.

Quando São Paulo subiu ao Areópago de Atenas estava com o coração cheio de raiva por todos os altares dedicados às diferentes divindades. Mas quando tomou a palavra disse aos atenienses: “Admiro sua religiosidade…”, e depois valorizou o altar dedicado ao Deus desconhecido, anunciando Jesus Cristo. Começa por aí. Chegará o momento de dizer que os outros altares devem ser retirados.

O Papa Francisco anuncia que Jesus ama a cada homem e a cada mulher, na situação em que se encontram, e que quer que cada homem e cada mulher possam salvar-se encontrando o abraço de sua misericórdia. Depois virão os mandamentos, mas não podemos permitir que um erro cometido na vida possa excluir alguém deste abraço.

No entanto, São João Paulo II combateu a ética da situação, que se baseia no aspecto subjetivo…

O que eu vejo em alguns daqueles que se opõem ao Papa é a vontade de estar somente do lado da objetividade. É verdade, como você recorda, que o Papa Wojtyla combateu a ética da situação, segundo a qual não há objetividade, mas apenas intenção subjetiva. Obviamente, não é assim: existe a natureza objetiva em um ato. Mas João Paulo II nunca pensou, longe disso, em eliminar a subjetividade.

Há situações de pecado das quais é difícil se desvencilhar. Vivemos em uma sociedade pansexualista, na qual existe a falta de consciência de certas evidências éticas. Para que certas verdades sejam assimiladas por todos é preciso ter paciência e requer-se o esforço de uma caminhada.

Há riscos? Claro! Alguém poderia pensar que o divórcio e a nova união já não são um mal; alguém que permaneceu fiel mesmo depois de ter se separado de seu cônjuge poderia pensar que se equivocou; outro mais poderia temer o risco de que as consciências se debilitem.

Há riscos pastorais, sem dúvida. Por isso é preciso acompanhar e explicar. Mas, trata-se de uma decisão pastoral. Alguém poderia considerá-la equivocada, mas, por favor, deixemos de lado os tons apocalípticos quando nos encontramos diante de uma decisão pastoral que tem a ver com a disciplina dos sacramentos e que faz parte de uma trajetória cujas premissas foram estabelecidas por João Paulo II.
Entrevista de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider

Fonte: https://blog.comshalom.org/carmadelio/50607-amoris-laetitia-da-um-passo-na-direcao-indicada-por-wojtyla-entrevista-com-rocco-buttiglione