[NOTÍCIAS DA IGREJA]

A Sagrada Face e as faces de máscara

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A notícia atravessou meu computador como um choque. Em pleno lockdown, através da Missa diária da minha paróquia transmitida pelo YouTube, anunciou-se que o pai de um ex-aluno estava entre os enfermos que precisavam de oração. Alguns dias depois, soube pelo mesmo meio que Joe Senior havia falecido. Eu procurava em vão por notícias; não havia velório, funeral ou necrológio público, e meu questionamento à paróquia não obteve resposta. Eu conhecia Joe Senior da época em que, por quatro anos, fora professor de seu filho; os dois, aliás, dividiram os “despojos” de uma viagem de caça com minha família, há muitos anos. Meu coração doeu pelos dois e pela esposa de Joe, a quem também conheci.   

Algumas semanas mais tarde, enquanto assistia à Missa dominical (com 25% da capacidade da igreja), Joe Jr. apareceu com a mãe. Meus olhos se encontraram com os dela, e reagi com uma expressão de simpatia. Mas não fui correspondido (ao menos foi essa a minha impressão). Uma máscara escondia o meu rosto do dela e vice-versa. Não podíamos nos abraçar. Tentei expressar-lhe minha tristeza e entender o que havia acontecido, mas era impossível com uma máscara abafando-nos a voz. A tira de pano que nos protegia a saúde estava, ao mesmo tempo, adoecendo nossas almas. As máscaras criavam uma situação desconfortável e dolorosa.

Não é um argumento contra o uso de máscaras para prevenir a disseminação do coronavírus. Temos de cumprir o nosso dever. Trata-se, em primeiro lugar, de um lembrete (a pandemia foi fecunda nesse sentido) de algo precioso que não valorizamosexpressões faciais, que são a quintessência dos gestos humanos. Assim como os sacramentos, elas tornam visíveis os anseios invisíveis do coração, muitas vezes antes mesmo de uma palavra nos vir aos lábios. Seja num momento de tristeza, de triunfo ou de alegria, o semblante é uma janela aberta para a alma.

Esperamos que as máscaras se tornem relíquias de um ano inesquecível, tão-logo acabe a epidemia de COVID-19. Por ora, no entanto, as máscaras nos alienam, involuntariamente, uns dos outros no sentido verdadeiro da palavra: fazem-nos estranhosestrangeiros até mesmo para os nossos amigos íntimos. As máscaras transformaram até o sorriso casual a um estranho (gesto simples, gentil e quase espontâneo) num estranho “olhar fixo”. Rostos cobertos escondem nossa verdadeira personalidade e criam uma barreira para o cumprimento de nossa vocação de homens e mulheres chamados à comunhão em Jesus Cristo.

Meu “encontro mascarado” me fez pensar num rosto que permaneceu descoberto, mesmo em meio a perigos ameaçadores: a Sagrada Face de Nosso Senhor, desprotegida dos cuspes e socos de seus algozes. Existe uma piedosa devoção à Sagrada Face de Jesus (não tão conhecida como deveria ser), da qual eu me havia esquecido. Percebi de imediato que a pandemia e a crise civilizacional atuais são o estímulo perfeito para começar a praticá-la.

Uma imagem da Sagrada Face de Nosso Senhor está milagrosamente preservada no véu de Verônica, hoje guardado na Basílica de São Pedro. Na década de 1840, durante a revolução política que varria a Europa, Nosso Senhor revelou à Ir. Marie de Saint-Pierre, carmelita francesa, que a blasfêmia e a profanação dos domingos feriam seu Sagrado Coração como uma “flecha envenenada”. A blasfêmia equivalia a xingá-lo em sua presença. 

Ele pediu que oferecêssemos sua Sagrada Face a Deus Pai na oração, em reparação e pela conversão dos pecadores. Como antídoto, apresentou a oração da Flecha de Ouro, a ser recitada todos os dias e, com ela, a seguinte oração: “Pai eterno, eu vos ofereço a adorável Face do vosso amado Filho, para honra e glória do vosso nome, pela conversão dos pecadores e salvação dos moribundos”.

“Santa Verônica com o véu”, de Mattia Preti.

O Venerável Leo Dupont, amigo da Ir. Marie, difundiu a devoção à Sagrada Face de Jesus pela França, onde começaram a ocorrer curas milagrosas atribuídas a ela. O Papa Leão XIII aprovou a devoção, criando a Arquiconfraria da Reparação à Sagrada Face de Jesus, a fim de que os católicos de todo o mundo pudessem participar dela. Entre os mais entusiastas, estava a família francesa Martin, uma de cujas filhas, ao entrar para o Carmelo, adotou o nome de Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face.  

A jovem santa compôs sua própria e bela oração à Sagrada Face de Jesus, cujo início é particularmente apropriado para a nossa época: “Ó Jesus […], eu venero a Sagrada Face em que, outrora, brilhou a beleza e a doçura da divindade, mas que, hoje, se transformou como que no rosto de um leproso! Contudo, sob aqueles traços desfigurados, eu reconheço vosso infinito amor”.

A Sagrada Face de Jesus é o lugar perfeito de meditação para uma nação cujas vidas médicas e civis se encontram numa encruzilhada. Neste exato momento, a nossa oração universal, embora venha do fundo de nossos corações, é simples: Livrai-nos do mal. O Único que pode fazê-lo está irreconhecível, oculto para um número cada vez maior de pessoas por causa de todo tipo de pecado. Só seremos restaurados por Ele se obedecermos à sua ordem de reparar nossos pecados e os das pessoas que o desonram. E para que a nossa vida civil tenha qualquer chance de ser restaurada, nós precisamos ser restaurados primeiro.  

Verônica não possuía cargos nem poder; mas o seu gesto de compaixão, aparentemente pequeno, para com a Sagrada Face de Nosso Senhor até hoje causa impacto, ao contrário de quaisquer ações políticas de sua época. Enquanto olhamos fixamente para a Sagrada Face, lembremo-nos de que o único caminho para superar nossa atual alienação é um amor mais profundo a Deus.

Fonte: https://padrepauloricardo.org/blog/os-rostos-mascarados-e-a-sagrada-face-de-cristo