[NOTÍCIAS DA IGREJA]

A farsa do “Estado laico”

Há muito tempo nós ouvimos falar que a solução para os problemas sociais, inclusive os problemas que vivem os católicos nas democracias ocidentais modernas, é que todo o mundo deveria “viver e deixar viver” — que todos deveríamos defender o Estado laico e ficar satisfeitos por viver em uma terra onde as pessoas são livres para levar a vida como quiser, desde que elas permitam às outras viverem do mesmo modo e contanto que ninguém machuque ninguém. Não há razão alguma para conflitos se nós simplesmente seguirmos esse senso comum de tolerância.

Isso soa bem na teoria, mas como funciona na prática?

A realidade é que a prática da religião (e, mutatis mutandis, a oposição violenta a ela, que é o ateísmo moderno) é necessariamente uma coisa pública e política.

Por exemplo, se todos os católicos devem adorar em um determinado dia, eles precisam se abster do trabalho por todo o dia ou durante uma parte dele; se deve haver uma procissão, uma avenida principal precisa ser interditada durante o ato. O primeiro exemplo tornará as empresas menos eficientes ou menos lucrativas, ou as duas coisas; o segundo afetará o tráfego, talvez o comércio, e certamente parecerá como uma imposição aos descrentes ou aos indiferentes.

O ateísmo moderno, por sua vez, não é menos público nem menos político: ele procura se livrar de todos os símbolos religiosos, como crucifixos e presépios de Natal, e, se pudesse, aboliria também os domingos e dias santos (coisa que, de fato, já está acontecendo em vários lugares). Se os descrentes pudessem fazer o que quisessem, não haveria lugar nem respeito algum para o cristianismo no espaço público.

Neste sentido, o laicista não é alguém que pensa que todas as visões de mundo devem poder florescer; ao contrário, ele acredita que a única visão passível de ser tolerada é aquela que diz que nenhuma visão é suficientemente conhecida como verdadeira para ter qualquer precedência ou prerrogativa sobre as outras. Por essa “lógica”, o ateísmo torna-se, de facto, o público padrão e o credo político.

É possível ilustrarmos o problema com um exemplo cristalino. Quando alguém escuta música no próprio carro (especialmente com alto-falantes e vidros abertos, dirigindo pela avenida principal) ou no volume máximo em seus fones de ouvido, ele obriga todo o mundo ao seu redor a escutar o que ele está escutando. A sua “livre escolha” de escutar impõe aos outros uma situação que estes não escolheram livremente. Essa pessoa está forçando as outras a se submeterem à sua liberdade. Assim, “dar liberdade a todo o mundo” é algo ilusório; o exercício da liberdade de um homem pode e muito provavelmente irá afetar os direitos dos outros.

Nós vemos isso acontecer de modo dramático com o agressivo lobby homossexual. Quando o “casamento gay” é legalizado em um país, o que acontece com a liberdade de confeiteiros, decoradores, comerciantes de tecidos, músicos e igrejas que, seguindo sua consciência cristã (e baseada na lei natural), escolhem trabalhar apenas com casamentos heterossexuais? “Sinto muito, amigo, você não tem mais liberdade; o ‘Estado laico’ a tomou de você. Você deve fazer agora apenas o que o Estado lhe disser para fazer — nada mais, nada menos.”

O exemplo mais sério, obviamente, é a negação do direito do nascituro ao cuidado de uma mãe e de um pai e à proteção da lei. Por causa do intolerante credo laicista, a liberdade da mulher significa tudo, enquanto a vida da criança, bem como seus direitos e sua eventual liberdade, não significam nada. Mas só uma paródia demoníaca da liberdade procura abolir e aniquilar a liberdade de outra pessoa a fim de assegurar a sua própria.

Se o ambiente social não é católico, ele será preenchido, ao longo do tempo, por elementos pagãos e anticatólicos. A sociedade, assim como a natureza, abomina o vácuo. Nós temos visto mais confirmações do que nunca desta verdade que os grandes Papas do século XIX ensinaram: não existe isso de um espaço público religiosamente neutro, uma sociedade que não privilegie um credo. O espaço público será ou religioso ou irreligioso, ou cristão ou anticristão. O laicismo sempre se autodestrói em ideologia intolerante.

Notas

Como a finalidade do texto era condenar o pensamento de que a religião não deve ter influência alguma sobre as instituições da sociedade civil, os termos liberal e liberalism, presentes no original, foram substituídos ao longo dessa tradução pelas expressões “Estado laico”, “laicismo” e equivalentes. Não fizemos uma tradução literal da palavra — liberalismo — para evitar a confusão com a doutrina econômica de mesmo nome.

Fonte: padrepauloricardo