Zelo? O perigo do escrúpulo na vida do cristão

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Sendo o primogênito de toda criatura (em vista dele todas as coisas fo-ram feitas e subsistem), e também o primogênito entre os mortos (pois pelo seu mistério pascal abriu as portas da prisão dos mortos e concedeu a vida eterna a quantos creem no seu nome e aderem a Deus na nova Aliança), Cristo se torna o modelo daquele que cumpre de forma plena e perfeita a vontade de Deus. Portanto, é ele o grande mestre da obediência e da conformidade ao bem su-premo ditado pela infinita sabedoria divina, com a qual o próprio Senhor é identificado. Tal cumprimento perfeito se dá através do amor com que as obras são realizadas.
Porque Cristo ama o Pai cumpre perfeitamente sua obra de salvação, re-alizando de forma plena a sua vontade. Sendo o amor o vínculo de perfeição na realização da vontade de Deus, podemos afirmar com segurança que o próprio mandamento do amor a Deus – que em seguida se desfralda nos demais man-damentos – é a medida de todas as obras e de todas as ações realizadas pelo ser humano criado e redimido no Verbo (“Tudo o que fazeis, fazei-o no amor” [1Cor 16,14]).
Neste sentido, é interessante vermos que existe uma diferença muito grande entre o zelo apostólico e o farisaísmo. O primeiro realiza a vontade de Deus para o bem dos homens, em atenção coerente com a Palavra e a inspira-ção divina. Este modo de viver se identifica com o amor de Deus, que não pos-sui uma infinidade de normas para regrar a sua infinidade de ações eternas e temporais, mas que é marcada pelo amor, essência divina na sua mais absoluta simplicidade.
O segundo é, na realidade, uma forma de vida contida e reprimida, on-de a liberdade é vista como perigo de desvio a ser evitado, tendo como forma principal para evitar este perigo a elevação da norma – que nada mais é que uma indicação periférica que gravita em torno do núcleo essencial da vida, que é a liberdade – ao grau de essência, fazendo com que a norma seja um pressu-posto para a liberdade, e não vice-versa. Esta forma de vida é caracterizada pe-lo escrúpulo.
Uma simples mas direta definição – e distinção – do escrúpulo em rela-ção com o autêntico zelo, nos é dada por Tanquerey: “A motivação não é a mesma: a consciência sensível ama a Deus fervorosamente e, para mais agradá-lo, quer evitar as menores faltas e as menores imperfeições voluntárias. O es-crupuloso, no entanto, é guiado por um certo egoísmo que faz com que queira saber com segurança e com ardor excessivo, se está em estado de graça” (Com-pêndio de Teologia Ascética e Mística, 939). Desta forma, se vê claramente que a realidade que envolve o escrúpulo é bem diferente daquela que sustenta o zelo. O primeiro é determinado pela paixão desordenada por si mesmo e sua incapacidade de admitir a possibilidade de errar. O segundo, se levanta como baluarte da caridade, cuidando do que é melhor e discernindo o que é bom.
“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. Já estais separados de Cristo, vós que procurais a justificação pela Lei” (Gl 5,1-2.4). O contexto destas palavra do apóstolo é aquele da disputa acerca da necessidade ou não da circuncisão por parte dos cristãos provindos do paganismo. Sabe-mos que a questão já havia sido resolvida pelo Concílio de Jerusalém, porém alguns se infiltravam no meio dos discípulos, com inveja da liberdade de que estes gozavam em Cristo (cfr. Gl 2,4), e procuravam fazer um forçado retorno ao espírito com o qual se pretendia alcançar a justiça diante de Deus vivida no judaísmo de então.
A lei que rege a vida cristã é o amor absoluto por Deus, vivido com todo o coração, com toda alma, com todas as forças e com todo o entendimento. Tal realidade de amor, ainda que experimentada de forma incompleta e imperfeita nesta vida terrena, dá lugar e espaço suficiente para que aquele que assim ama a Deus, ame também os irmãos, com um amor descendente – ou seja, que pro-vém – deste amor por Deus e por ele alimentado. Desta forma, o amor se torna a regra fundamental de toda a ação realizada pelo homem regenerado em Cris-to.
Se Deus é amor, como poderia o amor realizado em obras não ser de Deus? Se é próprio do amor fazer, isto é, produzir, gerar, fomentar, criar, como não ver nas obras autenticamente boas e portadoras de amor a presença do di-vino? De fato, as escolhas mais sábias são aquelas que maior bem geram.
Na busca pela perfeição do agir, o centro do alvo nunca poderá ser a au-tossatisfação de uma sensação de dever cumprido, mas a serena inquietação do coração amante que experimenta um constante “contentamento descontente” diante do amor dado, visto como insuficiente diante do amor que se deseja dar a quem se ama.
São Tomás de Aquino diz que o mais alto grau do amor que o ser hu-mano consegue dar a Deus, ele o atinge somente na bem-aventurança eterna do céu; enquanto isso, os que estamos na terra, somos capazes de um amor que se lhe assemelha, ainda que imperfeito, mesmo para a nossa condição humana, em virtude da limitação gerada pelo pecado (cfr. De perfectione vitae spiritua-lis, cap. 4-5). Ao mesmo tempo, não esqueçamos que o próprio Senhor quis deixar-nos grandes pistas de como ele deseja ser amado sobre esta terra. E uma delas é o amor pelo irmão: “Tudo o que fizestes aos meus irmãos pequeninos, foi a mim que fizestes” (Mt 25,40).
Nossas casas estão cheias destes pequeninos irmãos do Senhor. Amemos o Senhor, amemos os irmãos, e saberemos sempre o que fazer.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva