Voto de castidade: viver o céu na terra

 

 

Ser casto, diante de Deus, é um dever que concerne a todos as pessoas de boa vontade, dispostas a amar verdadeiramente a Deus e ao próximo, sem egoísmos e interesses escusos. Mas é também um chamado feito pelo Senhor no momento da Criação do homem, quando se dignou gerar esta criatura à “sua imagem e semelhança” (Gn 1, 27). Tal dom não pode que ser considerado objetivamente inestimável, pois acarreta ao ser humano uma dignidade que a nenhuma outra criatura foi concedida. Contemporaneamente, implica também uma grande responsabilidade, aquela de viver conforme ao estado e dignidade sublimes concedidos e garantidos pela sabedoria e bondade divina. Tudo isso torna claro o dever de cada pessoa a atuar na própria vida aquela pureza que resplandece no ser divino e que se deixa irradiar na sua excelsa manifestação, que é a vida do homem, uma vida de autêntico amor e doação, qual a vida de Deus. Assim o homem se torna, de fato, manifestação da glória de Deus, como dirá Santo Irineu de Lion (cfr. Tratado contra as heresias, Lib. 4, 20, 7).

Além deste chamado universal à pureza que está inscrito na alma de cada pessoa humana, em sua infinita sabedoria, Deus chama homens e mulheres para acolherem um chamado específico de pureza e castidade, por amor ao Reino dos céus, com o fim de realizar, já aqui nesta vida, aquilo que todos os bem-aventurados no Paraíso eterno experimentam e experimentarão. Isso se realiza através do voto de castidade: “O que nós havemos de ser todos, já vós o começastes a ser. Possuis já neste mundo a glória da ressurreição; vós passais através do mundo sem as manchas do mundo. Enquanto perseverais castas e virgens, sois iguais aos anjos de Deus” (São Cipriano, De habitu virginum, 22). Tal chamado específico se realiza no amor a Deus que preenche inteiramente a existência daquele que por ele é convidado, qual uma torrente a preencher um jarro de água, de tal forma que o jarro não a pode conter, não resiste a imensidade das ondas e transborda. “Em tanta variedade de dons, todos aqueles que são chamados por Deus à prática dos conselhos evangélicos e fielmente os professam, consagram-se de modo particular ao Senhor, seguindo Cristo, que, sendo virgem e pobre [cfr. Mt 8, 20; Lc 9, 58], remiu a santificou todos os homens pela obediência até à morte da cruz [Fil 2, 8]. Movidos assim pela caridade, que o Espírito Santo derrama nos seus corações [cfr. Rom 5, 5], mais e mais vivem para Cristo e para o seu corpo, que é a Igreja [cfr. Col 1, 24]” (Concílio Vaticano II, Perfectae caritatis, 1).

Assim sendo, o voto de castidade se torna, na dinâmica do Reino, uma manifestação da misericórdia de Deus para com a humanidade, pois além de conter um caráter espiritual e místico, isto é, a união com o Cristo Cabeça através de uma dedicação total por um amor apaixonado e infindável, também assume um caráter escatológico, pois indica o sentido último de toda a história – Cristo – e a finalidade excelsa de toda a existência humana, que é a união plena com o Senhor na eternidade, vida perfeita que nos é reservada e prometida, graças à salvação operada em Jesus Cristo, nosso Senhor. Neste sentido, podemos também falar de um caráter “pedagógico” da vida consagrada, pois também serve à recordar ao homem de todos os tempos sua dignidade sublime e vocação primária à santidade, o que nunca deixou de ser extremamente necessário, mas que se mostra imprescindível nestes tempos modernos, em que a pureza é vista como doença e o amor sem interesse como fantasiosa mentira reservada aos contos de tempos remotos. Vivemos sim uma época em que a castidade e a pureza são desprezadas, não por escolha das pessoas do nosso tempo, pois sabemos que toda a onda de hipersensualização à qual assistimos não é fruto do espontâneo suceder da história, mas artimanha de uma mente maligna coletiva que não se contenta em afundar no lamaçal pútrido do pecado, tentando atrair para a mesma desgraça tantas almas boas e simples, que, infelizmente, se deixam dominar pelos próprios instintos colocados à flor da pele pelas mídias sociais, pelos programas de televisão, pelas conversar indecentes e tantas outras armas de destruição em massa criadas pela maldade para extirpar a pureza do mundo. A vida consagrada, qual vida de amor entregue por amor a Deus na pureza e na castidade, se torna um farol que ilumina e brilha no meio do mundo, trazendo para a luz aqueles que se deixaram arrastar para as trevas. E isso é um serviço que não se pode deixar de realizar.

O salmista assim assevera: “De vós procede o meu louvor na grande assembléia, cumprirei meus votos na presença dos que vos temem” (Sl 21, 26). O salmo inicia com a declaração do salmista acerca de sua pobre condição, assaltado de males e de inimigos que lhe roubam a alegria de viver e até mesmo a própria vida, terminando com uma oração de confiança em Deus e louvor ao Senhor Poderoso que tudo pode mudar com a sua vontade, diante do qual, e em testemunho de reconhecimento, o pobre promete cumprir seus votos. Este salmo é muito conhecido, pois inicia com as palavras: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes” (v. 2), palavras pronunciadas por Jesus na Cruz (cfr. Mt 27, 46; Mc 15, 34), na hora em que entregava tudo para ser o tudo dos homens, em perfeita união com a vontade do Pai e em seu louvor, pela obra maravilhosa que se cumpria no Calvário. Aqueles que se consagram a Deus se comprometem também a cumprir os seus votos diante de Deus e diante dos homens, em gesto de entrega plena ao Senhor que nos amou até o fim, em louvor pela infinita misericórdia com que nos amou e escolheu, e para consolar o coração amoroso de Deus que sofre pelas maldades cometidas contra a pureza e contra o amor.

Eis o chamado dos que professam o voto da castidade! Uma vocação tão sublime e tão digna não poderia pertencer a outro lugar que não o céu, pois apenas lá tal vocação pode ser entendida com perfeição.

 

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva