“Vai tomar o último lugar”

“O prêmio da humildade é o temor do Senhor, a riqueza, a honra e a vida” (Pr 22, 4). Santa virtude da humildade! Tão necessária aos homens, tão desejada pelos filhos de Deus e tão dificilmente conservada nos corações que buscam a conversão!

Sabemos que a raiz etimológica de humildade se encontra na palavra latina humus, isto é, terra umedecida, barro. Esse significado deixa muito claro o que se entende por humildade, além de permitir enxergar com precisão o que se espera de alguém que viva tal virtude.

Com frequência, ao falar-se de humildade, se pensa no modo de ser de uma pessoa intimidada diante das demais, com pouca ou nenhuma expressão, incapaz de ser firme nas próprias convicções ou de ir além de horizontes pré-moldados já existentes. Tal concepção da humildade é completamente desenraizada da sua essência e desprovida de autêntica força cristã, pois o próprio Senhor Jesus nos ensina o que é ser humildade de verdade.

No capítulo 14 do Evangelho de Lucas encontramos Jesus que é convidado para uma refeição na casa de um notável fariseu em dia de sábado. Nessa ocasião, o Senhor cura um enfermo, o que era tido como um desrespeito à lei mosaica da observância do repouso sabático. Vemos assim que Jesus não se deixa intimidar pelos olhares pretenciosos dos convivas, unicamente interessados em julgar e condenar seus atos, por melhores que fossem. Após denunciar esse modo hipócrita de viver, Jesus instrui os presentes à humildade sincera. E diz: “quando fores convidado, vai tomar o último lugar. […] Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado” (vv. 10-11). Ser humilde não significa ser submisso aos caprichos alheios, nem perder a própria identidade e consciência diante das situações e pessoas que surgem ao longo da vida. Humildade – Jesus deixa claro – significa tomar o último lugar, não guiado por um sentimento de vitimismo – como quando alguém se rebaixa a si mesmo com a esperança de ser elogiado e afagado pelos demais –, mas sim por um desejo de ver os outros ocuparem os primeiros lugares. E o ato de dar o primeiro lugar deve ser uma atitude decorrente da virtude, isto é, deve ser um hábito, um modo de ser e de se relacionar. Em outras palavras: ceder o primeiro lugar aos outros na hora de falar; servir os irmãos ao invés de se deixar servir; colocar-se à disposição do outro antes mesmo que lhe seja necessário pedir ajuda; preferir o bem alheio ao próprio; alegrar-se mais com a felicidade alheia que com a exclusivamente própria, etc.

Não devemos ocupar o último lugar para sermos alvo de pena, mas para que a heroicidade de uma vida humilde faça resplandecer a grandeza do Senhor que em nós opera o milagre da virtude e a promessa da glória. Não a glória humana e fugaz, mas eterna, junto aos convivas que sempre estarão no banquete eterno no céu. “Se desejamos sempre o primeiro lugar, a precedência e títulos, além de expormos as nossas qualidades ao exame e ao pesar de vê-las contestadas, fazemo-nos vis e desprezíveis; pois, assim como nada há de mais belo que o louvor espontâneo, também nada é mais feio que o que se exige, como um direito; é como uma linda flor, que não devemos tocar nem apanhar, se não queremos que murche. Diz-se que a mandrágora de longe exala um odor agradabilíssimo; mas quem a cheira de perto e por muito tempo respira uma essência maligna, que causa modorra mui perigosa. Dêste modo a honra faz uma grave impressão em quem a recebe, como se apresenta, sem cobiça ou afeição; mas quem a procura e se afeiçoa a ela exala um cheiro maligno, que sobe à cabeça e torna insensato e desprezível.” (São Francisco de Sales, Filotéia).

O que, então, se torna mais necessário para conquistarmos a virtude tão doce da humildade? Sem grandes pretensões, respondemos: esconder-se.

Se o Senhor nos mostrou, como meio para conquistar a humildade, a busca pelo último lugar, isso nos indica a necessidade de uma vida oculta, de tal forma que as luzes e refletores deste mundo não consigam brilhar sobre o tesouro da vida espiritual, fazendo resplandecer uma luz que não seja a de Cristo, mas da ilusão. “[…] a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória.” (Col 3, 3-4).

Por último, é importante dizer que a humildade, qual húmus da vida sobre esta terra, se torna base de toda a existência de um verdadeiro discípulo de Jesus, que procura viver a vida do Mestre, imitando suas virtudes e aprendendo a não colocar as esperanças no que os olhos veem – ainda que reluzente, com as glórias e louvores mundanos –, mas a elevar o olhar, desde o lugar baixo em que se encontra, através dos céus, para contemplar a bondade de Deus e sua misericórdia, que sempre se recorda dos pequenos, fazendo deles o sólido alicerce de sua construção. “Não queiras ser como aquele catavento dourado do grande edifício; por muito que brilhe e por mais alto que esteja, não conta para a solidez da obra. – Oxalá sejas como um velho silhar oculto nos alicerces, debaixo da terra, onde ninguém te veja; por ti não desabará a casa” (São Josemaria Escrivá, Caminho, 590).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva