Uma sublime aliança de amor

 

A celebração do sacramento do matrimônio é cheia de elementos carregados de significado e que podem constituir uma catequese por si mesmos, que mostra a singularidade deste sacramento sublime e a grandeza da missão dos que assumem este empenho diante de Deus e da Igreja, para serem, no mundo, sinais do amor divino que não conhece limites. Ainda que nos nossos dias atuais estes elementos sejam obscurecidos por uma inconveniente criatividade permeada de senso estético mas pouco adornada de significado teológico e religioso, ainda podemos – não sem esforço, obviamente – colher estes elementos fundamentais da celebração matrimonial e entesourar as joias de espiritualidade nela contidas, buscando, assim, compreender melhor o sentido desta aliança perene.

Mesmo não podendo deter-nos sobre todos os aspectos da liturgia do matrimônio, convém meditar sobre um elemento central na celebração e que, de certa forma, sela as promessas feitas diante do altar: a entrega das alianças. Mas antes um pouco de história.

A tradição de selar o matrimônio com a entrega das alianças tem sua origem em uma crença e hábito dos egípcios da antiguidade, que colocavam a aliança matrimonial no quarto dedo da mão esquerda, por acreditarem que deste dedo corria uma veia ligada diretamente ao coração, o que se faz deste gesto um símbolo de união das próprias vidas dos cônjuges, através da comunhão dos corações envolvidos no mesmo compromisso vital.

Na cultura hebraica, a celebração do matrimônio – recheada de gestos e atos rituais – chega ao clímax no momento da entrega da aliança, de ouro, lisa, sem inscrições, e que é colocada pelo noivo na mão forte da noiva (direita ou esquerda), e simboliza a comunhão de vida que se cria entre os dois, além de recordar a aliança feita entre Deus e o seu povo, pacto este que se perpetua na vida do casal e na continuidade das famílias que eles carregam em si.

Para nós, cristãos, a entrega das alianças sela o compromisso assumido no sacramento, permitindo que um sinal exterior demonstre a alegria gerada interiormente pelo sim dado livremente. Desta forma, as alianças matrimoniais simbolizam a aliança feita por Deus com o seu povo desde a fundação do mundo; remetem à escolha de Abraão para pai do povo eleito e toda a história dessa aliança feita de amor, paciência e lutas; simboliza a plenitude dos tempos, quando o Verbo eterno de Deus assume nossa natureza humana para selar conosco a Nova e Eterna Aliança no seu sangue derramado na cruz; remete ainda ao sacrifício cruento de Cristo no monte Calvário, onde de seu lado aberto pela lança jorraram sangue e água e, com eles, o nascimento da Igreja, esposa e corpo místico de Cristo; por fim, as alianças matrimoniais carregam em si a esperança no cumprimento definitivo da obra da Trindade sobre o universo, quando o Cristo Senhor entregará o reino ao Pai e tiverem lugar o definitivo as núpcias do Cordeiro com a Nova Jerusalém, onde os homens e mulheres de boa vontade se sentarão à mesa de Deus no paraíso e gozarão de alegria e paz sem fim.

Ao contemplar a grandiosidade de apenas um dos símbolos do matrimônio podemos ver a beleza desta vocação sublime, que precisa ser vista como uma manifestação da infinita sabedoria e indizível bondade do Criador. A vida matrimonial, portanto, é uma vocação sublime na economia da salvação, trazendo em si um pedaço do céu e uma garantia de salvação na busca da vontade de Deus e na felicidade de quem se ama.

Neste sentido, o sim dado no matrimônio é uma resposta de grande valor e de imensa responsabilidade. Quando São Paulo, falando da realidade da vida matrimonial (cfr. Ef 5, 21-32), afirma: “Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação à Cristo e à Igreja” (v. 32), coloca em evidência algo que na vida cristã já se vivia e sabia, isto é, que a vida de um homem e de uma mulher que se casam constitui um espelho para a contemplação do amor de Cristo pela Igreja e vice-versa. “O Matrimônio cristão, por sua vez, torna-se sinal eficaz, sacramento da aliança de Cristo com a Igreja. E uma vez que significa e comunica a graça desta aliança, o Matrimônio entre batizados é um verdadeiro sacramento da Nova Aliança” (Catecismo da Igreja Católica § 1617). Eis a vocação matrimonial. Quanto ela é sublime!

Casar-se, significa doar-se. “Donde me será dado expor a felicidade do matrimônio unido pela Igreja, confirmado pela oblação eucarística, selado pela bênção, que os anjos anunciam e o Pai ratifica? … Qual jugo aquele de dois fiéis numa única esperança, numa única observância, numa única servidão! São irmãos e servem conjuntamente sem divisão quanto ao espírito, quanto à carne. Mais, são verdadeiramente dois numa só carne e donde a carne é única, único é o espírito” (Tertuliano, Ad uxorem, II, VIII, 6-8). O sim da celebração do matrimônio se torna um sim à uma vida de entrega e de doação de si totais. E aquele ou aquela que dá este sim, consciente e livre, experimenta a alegria de quem recebe de Deus uma graça sem limites, pois este sim não é dado a uma tela de um tablet ou escrito com emojis estranhos que não comunicam nada, mas é guardado dentro do coração da pessoa amada, aquela que o Senhor escolheu e preparou, e lhe é comunicado, sim pela boca que pronuncia as palavras, mas principalmente pelos olhos de quem fala, onde se pode ver a verdade de um amor que deseja ser para sempre.

Claro que alguém dirá que tudo isso não passa de uma utopia nos dia de hoje, tão marcados pelo individualismo e pelo materialismo, que transformam as relações em algo descartável e as pessoas em produtos de consumo; mas se não podemos nos deter mais ainda a tentar explicar que este modo pessimista de ver a vida é o grande pivô da sociedade perdida na falta de sentido, podemos nos limitar a repetir com o poeta da fé brasileira: “Chama isto de utopia; eu a isto chamo paz” (Pe. Zezinho, Utopia).

 

 

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva