Uma singela companhia para o caminho

Somos todos seres humanos normais, todos igualmente repletos de qualidades específicas que nos tornam capazes de realizar coisas surpreendentes e de transformar nossa existência em uma manifestação misteriosa – onde “mistério” quer indicar a possibilidade de manifestar com gestos uma realidade maior que a própria pessoa que os realiza. Ao mesmo tempo, somos também obrigados a perceber que nossa vida neste mundo está longe de ser marcada pela dominação do tudo. Isto significa que não temos em nós mesmos a possibilidade de tudo saber, de tudo realizar, de tudo conhecer, de tudo poder. Essa condição limitada é bem própria do homem, visto ser ele uma criatura, característica que expressa em modo essencial a finitude do ser humano.

Poderíamos, para ilustrar esta convicção, dentro do limite que esta reflexão se propõe abordar, eleger como imagem clara a necessidade de ser guiado por algo ou alguém quando necessitamos nos deslocar de um lugar ao outro. Há alguns anos essa necessidade era resolvida com o gesto simples de pedir informação a alguém sobre o melhor caminho para se chegar a um local. Hoje, ainda que esta prática não tenha caído totalmente em desuso, a mesma é sempre mais frequentemente substituída pelos meios de navegação via satélite ou internet, o que torna o deslocamento mais rápido, direto e, na maioria das vezes, sem surpresas.

A este ponto, podemos fazer uma analogia em negativo no tocante à nossa vida espiritual e nossa caminhada na estrada da santidade. Desde tempos remotos na Igreja – para não entrarmos em paralelos de outras religiões e culturas – as pessoas que anseiam pela santidade e uma mais profunda vivência da vida cristã buscam o auxílio de irmãos e irmãs experimentados na fé e formados pela experiência da própria Igreja para servirem de guias espirituais, os quais se empenham em contribuir com o conselho e a oração na caminhada dos que a eles procuram. Ainda hoje esta prática antiga e sempre nova na Igreja é conhecida como “direção espiritual”.

A necessidade de sermos guiados no seguimento de Cristo fica já claro com a seleção que o Senhor faz dos Doze (cfr. ex. Mt 10,1-7), os quais são formados com maior precisão e correção, justamente para que possam guiar os irmãos – além, é claro, do dever apostólico do governo da Igreja confiado pelo Senhor Jesus. As primeiras comunidades cristãs sempre foram formadas e guiadas por aqueles que eram constituídos ministros da Igreja, mas viam seus fiéis sendo também formados na particularidade de suas vias, por irmãos dotados dos carismas a este fim necessário.

Ser guiado está longe de se manifestar na Igreja como uma dependência essencial de outras pessoas, pois todos somos pecadores e necessitados da graça para alcançarmos a própria salvação. “O fundamento desta prática do ‘acompanhamento’ ou ‘direção espiritual’ está na realidade de ser Igreja de comunhão, Corpo Místico de Cristo, família de irmãos que se ajudam segundo os carismas recebidos” (Congregação para o Clero, O sacerdote, ministro da misericórdia divina, 77). Desta forma, a direção espiritual não pode ser compreendida como uma obrigação ou imposição escrupulosa, mas como um sinal da maturidade eclesial que alguém adquire quando reconhece não ser capaz de guiar-se a si mesmo, sem a necessidade do auxílio fraterno. Em outras palavras: recorrer à direção espiritual é um gesto de humildade e sabedoria.

“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução. Ouve, meu filho, a instrução de teu pai: Não desprezes o ensinamento de tua mãe. Isto será, pois, um diadema de graça para tua cabeça e um colar para teu pescoço” (Pr 1,7-9).

Um grande exemplo sobre esta matéria temos em Santa Teresa de Ávila, uma das maiores místicas da história da Igreja, e que relata com devoção a importância que teve em sua caminhada o direcionamento espiritual. Chamando os diretores espirituais de “amigos de Deus” ela diz: “Que engano tão grande, valha-me Deus! Por querer ser boa me apartava do Bem! Nisto deve-se empenhar muito o demónio no princípio da virtude, porque eu não podia acabar de me resolver. Sabe ele que todo o remédio duma alma está em tratar com amigos de Deus, e assim não havia maneira de eu a isto me determinar. Esperava emendar-me primeiro, como quando deixei a oração, e porventura nunca o faria, porque já estava tão metida em coisitas de mau costume que não acabava de entender que eram maus, que precisava da ajuda de outros e darem-me a mão para me levantar” (Livro da Vida 23, 4).

Em outra passagem, esta grande santa reflete sobre a importância da ciência sagrada dada aos diretores espirituais e que tais bens devem ser sempre procurados: “Espantam-me muitas vezes letrados – religiosos em especial – com o trabalho com que ganharam o que sem nenhum, mais que o de perguntar, me aproveite a mim. E que haja pessoas que se não querem aproveitar disto! Não o queira Deus!” (Livro da Vida 13, 20).

Por fim, Santa Teresa demonstra sua confiança na graça de Deus que frui com largueza da direção espiritual, quando esta é feita de forma confiante por parte do dirigido, e em grande humildade e virtude por parte do diretor: “Tenho para mim que pessoa de oração que trate com letrados, se ela se não quiser enganar, não a enganará o demónio com ilusões, pois creio que os demónios temem de grande modo as letras humildes e virtuosas, sabendo que serão descobertos e sairão com perda” (Livro da Vida 13, 18).

Ainda não foram inventados os aplicativos de direção espiritual, talvez pelo motivo óbvio que esta tarefa não pode ser realizada apenas com as indicações de estradas ou de modalidades de locomoção, mas sim com fraternidade e humildade, virtude e oração, doação e renúncia. Apenas um coração confiante unido a um coração orante são capazes de colher a grandeza do mistério divino que se realiza e se concretiza na caminha espiritual dos filhos de Deus.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva