Uma armadilha do Diabo nos nossos tempos

Sabemos que falar no diabo sempre atrai a atenção das pessoas. Nas últimas décadas grande foi o número de produções literárias, filmes e histórias que trazem o príncipe deste mundo como protagonista. Em algumas destas circunstâncias, até mesmo revestido de uma roupagem agradável, como um galã de novela global, simpático e amante da humanidade. Todas enganações pretenciosas e articuladas, endereçadas a fazer acreditar em uma ilusória bondade do diabo em relação aos homens, ou até mesmo em fazer cair em descrédito a sua existência, o que tem sido uma grande vitória para o Maligno.

Mas não é apenas em filmes que tratam de exorcismos e possessões demoníacas, com objetos voando e pessoas que reviram a cabeça que vemos a presença da influência do mal. Um gênero cinematográfico cada dia mais em voga é o “terror”, onde o objetivo central é aquele de sentir medo diante das cenas exibidas e da história narrada. O que muitas vezes não se reflete é acerca do mal que esse tipo de exibição pode gerar, justamente em função da intenção de quem assiste.

Em um filme de terror, aquilo que atrai o público é uma mistura de fantasia e realidade, banhados com dor e sofrimento. Os espectadores se divertem e se entusiasmam ao ver uma história desenrolar-se, sabendo se tratar de uma ficção, mas que, não por isso, se torna menos convincente. Neste espetáculo, uma força maligna sobrenatural e sem origem satisfatoriamente reconhecível, domina a situação, gera sofrimentos atrozes, mortes e – o mais importante – sustos. Neste contexto, quem assiste ao filme sente prazer em ser assustado pelo personagem maligno, que não pode fazer nada contra ele, visto estar preso dentro da tela, naquele mundo fantasioso mas que parece tão real.

Ao final do filme, onde geralmente o personagem maligno é vencido, cria-se um ar de satisfação, pois os protagonistas sobreviveram. Obviamente esta satisfação tem um preço, que neste caso será a morte violenta e cruel de vários outros personagens menos importantes, os quais são colocados na trama com o simples intuito de gerar mais simpatia do espectador em relação aos protagonistas principais e gerarem a oportunidade de assistir ao trágico desfecho de suas vidas nas mãos do personagem maligno, produzindo assim os calafrios e os arrepios que aqueles que assistem ao filme foram buscar. De fato, ninguém que assista a um filme de terror o faz para se alegrar com o final feliz, mas apenas com o desejo sórdido de ver o mal em ação, causando destruição e sofrimento.

Obviamente se trata apenas de ficção, de obras de interpretação, onde se deixa claro que não passa de uma história inventada e produzida dentro de um set de filmagens com a ajuda de computação gráfica e efeitos especiais. Mas esta reflexão não se destina, necessariamente, aos que produzem este tipo de conteúdo, mas primeiramente aos que o assistem, pois aí está a fonte de motivação para toda a produção cinematográfica gerada sobre esse assunto. Além do mais, é muito importante refletir sobre os males espirituais que um tal hábito pode procurar aos espectadores deste tipo de filmes.

Quando alguém se coloca diante de uma história como essa, sabendo do seu conteúdo, mesmo que sem conhecer o desenrolar da trama ou as especificidades dos personagens, já está aberta a passar as próximas duas horas em grande tensão e emoção, sentindo prazer nos sustos produzidos e admirando a astúcia e o poder do mal em ação. Tal veneração à maldade e à malignidade são portas abertas para a influência demoníaca, que encontra um convite simpático de um admirador do mal. O diabo, então, tem caminho aberto ao coração e à alma de tantas pessoas que começam, através de tais filmes, a vê-lo com olhos menos hesitantes, ainda que amedrontados, mas nunca totalmente avessos, pois ver o mal agindo agrada. E mais uma vez o príncipe deste mundo consegue iludir os homens com seus discursos agradáveis e sedutores, como fez com o primitivo casal no paraíso.

São Cassiano, sobre as portas que se abrem à ação demoníaca e seus riscos escreve: “Somo convencidos que os espíritos imundos não podem penetrar naqueles que desejam possuir sem antes dominar seu espírito e seus pensamentos. Eis a fase da conquista. Antes de mais nada, roubam da vítima designada o temor de Deus, a sua lembrança, a sua meditação espiritual, e depois, quando notam que a alma está espoliada do socorro e da proteção divina, se lançam audazmente sobre a presa, facilmente dominável; por fim, fixam na alma a sua habitação, como se fosse uma propriedade deixada aos seus gostos” (Cassiano, Conferências espirituais I, 7, 24).

Como fica claro à partir destas palavras deste santo abade dos primeiros séculos da Igreja, a ação do espírito do mal não muda em relação aos seus objetivos e metas, ainda que transforme suas estratégias de acordo com o tempo presente. Assim também nós, filhos de Deus, chamados à santidade e à comunhão perfeita de amor com Ele, devemos estar atentos e vigiar para não sofrermos em nossas vidas reais o que muito se difunde na ficção.

“Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé” (1Pd 5, 8-9).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva