Um duplo dever: anunciar e suplicar

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 A nossa história mundial conhece diversas circunstâncias em que a humanidade esteve colocada sob o pesado jugo da enfermidade coletiva. Mais de uma vez povos ao redor do mundo foram atacados por seres invisíveis aos olhos, mas mortais à vida biológica, sendo a dizimação de grande parte das populações de todos os continentes a consequência tragicamente lógica de tal cenário.

Muitos conhecemos a história da peste que assolou Roma em 589 e 590. Foram poucos anos de uma mortalidade inacreditável, causando pânico em todos em vista da facilidade com que se disseminava a doença. A sensação que se tinha, na época, era de que aquela epidemia não terminaria. Efetivamente, o assombro ficava por conta do número de mortes causadas pela pestilência, mas também pela rapidez com que, em grande parte dos casos, a enfermidade levava as pessoas à morte.

Outro acontecimento desse tipo, porém menos recordado é a pandemia de cólera que se alastrou pelo Brasil durante a época imperial. Esta chegou ao nosso país no ano de 1855, também possuidora de uma força de mortalidade muito grande, levando à óbito a metade dos que a contraíam, fazendo-os morrer de uma forma dolorosa e degradante. Nestas terras, ainda que vastas como são, como eram, o cólera pôs fim a muitas histórias de vida, jovens e menos jovens, mas todas vidas preciosas para a construção do nosso povo.

Entre essas duas epidemias, algo queremos conciliar, além da mortalidade que trouxeram consigo. Em ambas as circunstâncias os fiéis da Igreja, os cristãos, se colocaram na linha de frente do combate a este mal, seja pelo cuidado dos mais frágeis, como também dos já enfermos, mas principalmente pela luta contra estes terríveis males através da força da oração.

Diante da peste que acometeu Roma, inúmeras foram as celebrações, missas, procissões e diversos outros atos de devoção e penitência promovidos pela Igreja e praticado com fervor por parte dos fiéis. Em particular, devemos recordar as súplicas e procissões promovidas pelo Papa Gregório Magno, sendo a última aquela que foi coroada com a aparição de São Miguel com sua espada, pondo fim à Peste. De fato, se olhamos para o cimo do Castel Sant’Angelo em Roma, veremos a imagem do Príncipe da Milícia celeste, colocada lá pelo Papa no mesmo lugar onde ele apareceu naquele dia, em recordação da cessação da epidemia concedida por Deus através da intercessão do povo fiel.

No caso do cólera no Brasil, o procedimento foi o mesmo, como sempre a Igreja se portou diante das calamidades que acometem o povo. Interessante é notar um testemunho dado pelo vigário de Missão Velha, Ceará. Escrevendo ao seu bispo, relata não apenas os gestos devocionais promovidos pela paróquia ou suas pregações em prol da permanência do povo na oração de súplica, mas também mostra a conversão daqueles que se haviam afastado do caminho de Deus: “Devo dizer mais a V. Exª. que tenho pregado em quase todos os Domingos, como me tem permitido a minha fraqueza e incapacidade intelectual, foi meu primeiro cuidado falar sobre o perdão das injurias, inimizades, e tenho a fortuna de asseverar a V. Exª. que tem havido uma geral reconciliação n’esta Freguesia, de sorte que não me consta haver presentemente alguma mal intenção: muita gente que por indiferença, ou outros motivos não se confessavam havia muito tempo, e pareciam rebeldes, têm procurado a confissão sacramental, alguns amancebados se estão habilitando para se casarem e outros têm sabido d’esse miserável estado; e finalmente, Exmº. Senhor, não me tem parecido sem fruto o chamamento á penitencia, em cuja pratica, muitos se têm convertido a vista da penitencia d’outros” (Carta do Pe. Felix Aurélio Arnaud Formiga a Dom Luís Antônio dos Santos, 21 maio de 1862, Pasta CRA 15, 47, Acervo do Departamento Histórico Diocesano Pe. Antônio Gomes de Araújo [DHDPG]).

Hoje estamos diante de uma situação muito parecida com as que nossos antepassados enfrentaram, com a óbvia diferença de que temos, atualmente, conhecimento científico e recursos médicos muito mais avançados que outrora. Isso deve nos permitir alimentar ainda mais nossa esperança no fim da pandemia. No entanto, apenas a ciência não é suficiente.

Sabemos que a pandemia atual é extremamente nociva, que tem grande potencial de criar um mal permanente no nosso mundo. Sabemos também que todo esse potencial não está condicionado ao vírus que transmite a doença, nem apenas à doença em si, mas que existem muitos atos e interesses obscuros e escusos que rondam a atual situação sanitária mundial, como as espículas que rondam o vírus, dando-lhe a aparência de uma coroa solar.

Apesar disso, nós, cristãos, devemos lembrar o nosso primeiro dever em relação ao mal que nos aflige: a súplica pela cessação da pandemia. Não será um bom cristão aquele que passa o dia lendo notícias sobre o vírus, espalhando medo pelos aplicativos de conversa no celular, e importunando a vida de todos ao seu redor, mas que não faz um jejum ou oração pedindo a Deus que termine com a pandemia. Assim como tampouco será um bom cristão aquele que gasta horas assistindo a vídeos sobre a política em torno do vírus, e mais outras tantas horas discutindo com outros que fazem o mesmo, mas é incapaz de dobrar o joelhos em oração e suplicar a Deus o fim desta peste e a salvação dos que, por ela, vieram a falecer.

A pandemia é real! E por mais que existam muitos interesses ao redor dela, é fato que existem muitos irmãos nossos que estão perdendo a vida, seja pela doença ou pelas nefandas artimanhas humanas, muitos dos quais terminam suas vidas longe do Senhor.

Como cristãos, somos defensores da verdade, que deve ser anunciada, ao mesmo tempo em que a mentira e o pecado são denunciados, mas é nosso dever também nos preocupar com a vida que se esvai e com a salvação dos que partem. Rezemos, supliquemos, imploremos a Deus, nosso Senhor, que dê um fim a este mal. Peçamos que o vírus seja vencido e o mal aniquilado, pois somente do Senhor nos vem nosso verdadeiro auxílio, que nos faz fortes contra os males e as perversidades deste mundo.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva