Ser grato como Maria

“Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos” (Col 3, 15).

A virtude da gratidão é uma das mais importantes características do cristãos autêntico, pois ela qualifica o homem diante dos benefícios recebidos e o fortalece para enfrentar as adversidades que surgem ao longo do caminho na nossa peregrinação neste mundo. Assim sendo, tal virtude não pode que ser uma preciosidade no complexo da espiritualidade de qualquer discípulos de Jesus, visto que mesmo o Apóstolo dos gentios intimava seus irmãos à ela.

Uma existência humana normal sempre conta com a presença de fatos e eventos ao longo da vida, muitas vezes antagônicos entre eles. Não é raro que alguém experimente uma grande e intensa alegria em um dia e no dia seguinte algo ruim acontece, criando até mesmo o risco de provocar o esquecimento da alegria experimentada precedentemente. Muitas vezes acontece que a gratidão passa a ser condicionada ao nosso estado de bem-estar, isto é, temos facilidade em sermos agradecidos pelos benefícios recebidos enquanto dura a satisfação causada pelo mesmo. Quando nos deparamos com uma situação de desprazer ou decepção, facilmente se pode deixar cair no esquecimento aquela alegria vivida diante do bem recebido, tornando-se um “ingrato com motivo”. Este tipo de ingrato nada mais é do que aquele que sempre encontra motivos para murmurar frente a um problema ou fracasso, valendo-se de sua balança adulterada, onde o prato do problema sempre terá um peso muito maior que o prato do benefício.

Deus é o criador de todas as coisas, infinitamente sábio e amoroso. Tudo criou por amor, principalmente do ser humano, feito à sua imagem e semelhança. Ao olhar para a perfeição da criação, dificilmente se consegue não ver a sabedoria de Deus criador, sua paciência, sua atenção. Tudo isso com apenas com o pequeno campo de visão que temos, limitado e reduzido. Poderíamos nos dedicar a pensar nas leis da natureza que regem o universo, obra clara de uma mente inteligente, que a tudo deu ordem e razão; ou podemos pensar no suceder das estações, com suas mudanças de cores e climas, que geram em nós sentimentos e suscitam lembranças; mas poderíamos até mesmo refletir sobre coisas que não conhecemos e que, não obstante isso, existem e foram feitas por Deus, como por exemplo, a grandiosidade das galáxias e seus segredos, ou até mesmo a existência de flores nunca vistas que podem nascer em lugares escondidos do planeta, que nascem e morrem sem que nenhum ser humano as veja e, no entanto, Deus as faz florescer, com o simples intuito de abrilhantar ainda mais a sua criação e ornamentar o mundo que formou para a nossa habitação. De fato, diz São João Crisóstomo: “Deus nos faz muitos presentes e a maior parte os desconhecemos” (Homilia sobre o evangelho de Mateus 25, 4).

São todas pequenas coisas, mas que conseguem gerar em nós o sentimento de gratidão para com nosso Pai dos céus que nos ama e nos acompanha sempre. Muito mais ainda deve suscitar em nós esta virtude a consciência de que fomos salvos pelo amor divino manifestado em Cristo Jesus, o qual não poupou-se a si mesmo, mas tudo entregou ao Pai por nós, para nos salvar e libertar das garras da morte e do pecado. É desta consciência que São Paulo nos fala no texto que abriu estas linhas, pois apenas tendo tomado posse da obra redentora de Cristo se pode viver na verdadeira paz, que apenas o Ressuscitado pode doar. Por todas estar grandes coisas devemos ser muito gratos a Deus e reconhecer que nele está a fonte da nossa alegria e da nossa vida.

Como em toda a vida cristã, o mais nobre exemplo amor a Deus que temos é aquele da Virgem Maria, e ela pode sempre nos ensinar a sermos gratos a Deus como devemos e, consequentemente, aos irmãos.

Em seu cântico, a Virgem Maria enaltece a bondade e a sabedoria de Deus, que a escolheu para ser mãe do Verbo encarnado e realizou nela obras estupendas: “A minha alma engrandece ao Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador. Porque olhou para a humildade de sua serva. Desde agora as gerações hão de proclamar-me Bem-aventurada, porque realizou em mim maravilhas aquele que é Poderoso. Santo é seu nome” (Lc 1, 46-49). Maria, a Imaculada Mãe de Deus, reconhece no Senhor o seu Salvador, pois ela, em virtude dos méritos da Cruz de Jesus, foi preservada de toda e qualquer mancha de pecado original, tornando-se assim, a primeira entre os redimidos; ela reconhece que o Poderoso realizou nela maravilhas, pois a olhou e a elegeu, a amou e a consagrou com seu amor infinito, preenchendo a sua pequenez com a abundância da graça, fazendo dela a Bem-aventurada por todas as gerações; ao reconhecer tamanha misericórdia e amor da parte de Deus, Maria não pode que proclamar que o nome de Deus é santo, isto é, glorificar o Senhor com o coração que ama, com a alma que engrandece e com a voz que declara a soberania de Deus sobre a sua vida e sobre toda a realidade.

Reconhecer o infinito amor de Deus em cada ocasião da vida, e proclamar seus louvores com o coração, com a alma e com a voz, eis um valioso ensinamento que a nossa Mãe do céu nos deixa com o seu cântico, para que também nós louvemos sempre o Deus de amor e de bondade.

“Que coisa melhor podemos trazer no coração, pronunciar com a boca, escrever, que estas palavras: graças a Deus! Não há nada que se possa dizer com maior brevidade, nem ouvir com mais alegria, nem sentir-se com maior elevação, nem fazer com maior utilidade” (Santo Agostinho, Epist. 72).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva