Ser alegre para ser feliz!

 

 

Qual é a fonte da alegria? Questão enigmática esta. De fato, todos temos o desejo em comum de fazer uma constante experiência de satisfação pessoal, o que implica uma prolongada ausência de dor e sofrimento. Tal experiência é capaz de nos dar forte sensação de quietude psicológica, promovendo em nós a percepção de uma auto realização do nosso ser, viso que todos consideramos a nossa realização pessoal como sinônimo de felicidade. E aqui chegamos ao ponto: a felicidade é de fato uma experiência constante de alegria?

Procurando evitar que alguém tenha sua satisfação pessoal disturbada com a expectativa da resposta, digamos de uma vez que esta é “sim”. A alegria se identifica com a felicidade. Porém, ocorre esclarecer o que se entende com alegria para, em seguida, dizer o que, de fato, é a felicidade.

Se consideramos o ser humano como um puro animal racional, composto de matéria orgânica e formado por uma certa quantidade de células vivas destinadas a um agrupamento inteligente, então a alegria deve ser entendida como a consequência da secreção de endorfina e de outros opiáceos naturais que mitigam as dores físicas, gerando a sensação de prazer e contentamento.

Se consideramos o ser humano uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus, composto de matéria orgânica e formado por células vivas, mas também de uma alma racional, portadora de vida espiritual – e esta é a nossa fé –, então devemos dizer que a alegria precisa ser mais do que apenas uma secreção de opiáceos naturais.

Apesar de sabermos o interesse acerca da existência da alma por parte da filosofia e da ciência – basta ver alguns pensadores como Leibniz que hipnotizou provar a existência da alma através do conceito de mônada, que seria a partícula elementar da natureza; ou mesmo estudos recentes como os do Dr. Hameroff, da Universidade do Arizona, que vê a existência e imortalidade da alma no acúmulo e indestrutibilidade das informações retidas nos microtúbulos presentes nos neurônios – interessa-nos conhecer a verdade da fé que nos garante a certeza para nossas consciências sobre a realidade da alegria e da felicidade.

O Senhor Jesus, preparando-se para experimentar a dor e o sofrimento mais atroz que poderia um justo viver, disse: “… que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria esteja completa” (Jo 15, 11). Isto afirmou, não porque deseja aos seus discípulos o bem-estar de uma vida conduzida sem preocupações ou responsabilidades – dois elementos que podem trazer sofrimentos consigo – mas sim para que estes assumissem o caminho com ele começado, e o seguissem até o fim.

Em seguida, o Senhor disse aos apóstolos: “Em verdade, em verdade vos digo: haveis de lamentar e chorar, mas o mundo se há de alegrar. E haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza se há de transformar em alegria” (Jo 16,20). Não uma tristeza decorrente da falta do bem-estar físico ou de ausência de bens de consumo entristece o coração dos discípulos, mas sim a ausência do Senhor. Está falta é a única capaz de entristecer, de fato, o coração do homem.

A alegria, portanto, nada mais é do que comunhão de vida com o Deus através do coração, centro da existência humana, onde a alma se encontra com o seu criador e nele experimenta a satisfação espiritual que, mesmo diante da dor e do sofrimento existentes no nível físico ou psicológico, não se deixa disturbar, pois “a alegria do Senhor é a nossa força” (cfr. Ne 8, 10).

Assim sendo, é nosso dever dizer que a alegria autêntica gera a felicidade real e duradoura. Esta pode ser perdida, mas apenas com um gesto pessoal e uma escolha do homem por aquilo que é capaz de arruinar sua comunhão cm Deus, consigo mesmo e, por consequência, com os demais seres humanos e toda a criação. Diz São Felipe Neri: “A alegria interior é um dom de Deus, derivado da boa consciência, dependente do desprezo das coisas terrenas unida à contemplação das coisas celestes. Se opõe à nossa alegria o pecado; antes, quem é servo do pecado não é capaz de saboreá-la verdadeiramente” (S. Filippo Neri, Gli scritti e le massime).

Se desejamos ser felizes, devemos prezar pela alegria verdadeira que brota da união do coração com Deus. Devemos desejar, em primeiro lugar, que nossa alma seja grande para acolher os dons divinos e que seja capaz de fazê-los transbordar na vida de tantos outros que o Senhor nos permitirá. Desta forma, a vida que traz sempre consigo seus desafios e suas angústias, será tempo e lugar de amor e felicidade.

É difícil imaginar Jesus abatido ou derrubado pela tristeza ou pelas preocupações da vida. Se o Cristo foi alegre e feliz, por que deveria ser diferente o cristão? Deste modo, observando o nosso mundo cada dia mais tenebroso a causa da cultura de morte que se instaura, da dominação de ideologias devastadoras como o Marxismo e o Relativismo, é um grave dever dos cristãos serem felizes, viverem e difundir a alegria, sorrindo para o mundo como também seu Criador sorri quando olha o coração do homem e vê a bondade que nele depositou.

“… a alegria ampla e profunda, que partindo da nossa realidade concreta, se difunde nos corações dos fiéis, não pode que ‘difundir-se por si mesma’, exatamente como a vida e amor, dos quais esta é um feliz sintoma. Ela é consequência de uma comunhão humano-divina e anela a uma comunhão sempre mais universal. De nenhuma forma a alegria poderia conduzir aquele que a experimenta a uma atitude de fechamento em si mesmo, sendo que ela, na realidade, dá ao coração uma abertura católica ao mundo dos homens, enquanto faz sentir, como uma ferida, a nostalgia dos bens eternos” (Paulo VI, Gaudete in Domino).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva