Sentinela, tu que estás no alto, conta-nos o que vês!

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É justo, pois, que seja bem protegido e guardado aquilo que muito vale e pelo qual se nutre afeto e zelo. Assim acontece com as realidades que compõem nossa vida e que são revestidas de importância. Não é diferente quando se trata de guardar pessoas. De fato, algo que tem muito a nos falar a esse respeito são as cidades antigas, as quais eram protegidas por muralhar gigantescas, tornando-se verdadeiras fortalezas diante de ataques inimigos. No entanto, um elemento sempre presente junto à muralha é capital: a sentinela, que é um soldado colocado no alto da muralha para ver o que se passa fora dela, ver à distância a chegada de perigos e anunciar o que enxerga.

Todos conhecemos a história da conquista de Troia por parte do exército grego através – possivelmente – da introdução do grande cavalo de madeira. O que sabe-se menos é que a estratégia dos gregos para dominar a cidade circundada pela intransponível muralha, não foi de fazer com que os soldados colocados no interior do cavalo eliminassem os guerreiros troianos, pois isso seria absurdo. A missão dos soldados introduzidos na cidade era aguardar a chegada da madrugada para, então, sair do cavalo, dominar as sentinelas e abrir os portões da cidade, o que culminou com o conhecido sucesso desta batalha. Para a nossa reflexão, esse relato deixa claro a importância revestida pelo sentinela para a segurança de uma cidade, isto é, daqueles que a habitavam.

No reino de Deus, na Igreja, não é diferente. O Senhor quis que, para salvaguardar a segurança e a vida dos seus, houvessem na Igreja sentinelas. De fato, diz o Senhor ao profeto: “Filho do homem, estabeleço-te como sentinela na casa de Israel. Logo que escutares um oráculo saindo de minha boca, tu lho transmitirás de minha parte” (Ez 3, 16). Eis aí a missão profética, à qual Deus coloca em paralelo à missão do sentinela, isto é, ver e anunciar. Os versículos seguintes desta palavra dirigida à Ezequiel são o aviso dado pelo Senhor acerca da responsabilidade do profeta, qual sentinela da casa de Israel, em não omitir-se diante de nenhuma profecia enviada por Deus ao seu povo, pois da sua palavra depende a subsistência da nação. Assim como o sentinela.

Refletindo sobre esse texto de Ezequiel, escreve o Papa São Gregório Magno: “É de se notar que o Senhor chama de sentinela aquele a quem envia a pregar. A sentinela, de fato, está sempre no alto para enxergar de longe quem vem. E quem quer que seja sentinela do povo deve manter-se no alto por sua vida, para ser útil por sua providência” (Das Homilias sobre Ezequiel, Lib. 1,11,4-6). No entender do santo doutor, portanto, aqueles que o Senhor escolheu para colocar à frente do seu povo como anunciadores da verdade, devem estar colocados no alto, para bem cumprir sua missão. Entretanto, é de se notar que este “estar no alto” não diz respeito à uma posição de privilégio ou de regalia, ou seja, a sentinela não está sobre os demais, quase que numa atitude de domínio, mas sim mais alto, num lugar de serviço, de dedicada atenção em favor dos demais. Este lugar mais alto, no entendimento de São Gregório, é de se identificar com a conduta de vida santa e reta, na qual o anunciador pode ver o caminho de Deus com maior precisão e discernimento, tornando-se capaz de antever as ameaças inimigas ou mesmo reconhece-las, dando ao povo de Deus a chance de se defender e combater para a vitória.

Em toda a sua história, a Igreja sempre pôde contar com a presteza de suas sentinelas, verdadeiros pastores e mulheres santas que, impulsionados pela graça divina, nunca se calaram diante do mal que se avizinhava à Santa Cidade de Deus para tentar perde-la. Também hoje não é diferente. Temos em todo o mundo cristãos convocados pela voz do Senhor para ver os perigos presentes e denuncia-lo, trazendo segurança ao rebanho de Cristo diante das investidas dos lobos, numa postura semelhante à do profeta: “Vou ficar de sentinela, e postar-me sobre a trincheira; vou espreitar o que vai me dizer o Senhor, e o que ele vai responder ao meu pedido” (Hab 2, 1).

Com pesar, porém, temos que reconhecer que, apesar de serem sempre presentes, é generalizada a sensação de que faltam sentinelas ativas, que conseguem ver a realidade e são capazes de testemunhar aos filhos de Deus a verdade. Obviamente esta realidade não é ausente de raízes, pois nosso tempo é vítima de muitos males profundos que se abateram sobre a humanidade e sobre a Igreja nas últimas décadas: a relativização da verdade emudeceu os profetas chamados a testemunhar o sentido da vida; a doutrinação marxista destrói, mundo afora, as bases da liberdade e da vivência da fé; a teologia da libertação alimenta mentes desconstruídas culturalmente para formar sacerdotes reacionários sindicalmente, mas incapazes de acompanhar uma alma até as portas da eternidade; o politicamente correto inibe a capacidade reflexiva dos que são chamados à refletir sobre a realidade e à comunicar a essência do que existe e do que se faz, sem meias palavras; a serpente da ganância morde todos os dias homens sobre os quais foi derramado o crisma de Deus para cumular as almas com os bens do céu, e não para facilitar o acúmulo de bens na terra.

É certo que o Senhor escolheu suas sentinelas e as colocou sobre o muro. É certo também que nem todas vigiam a cidade de Deus. Mas é também certo que cada cristão tem um chamado a tomar parte deste dever das sentinelas, contribuindo com a própria retidão de vida, com a firmeza de seus passos e a solidez de seu testemunho. Com certeza serão unguentos derramados sobre as feridas de um mundo sofrido como o nosso.

A todos nós, diante de um tempo com estas tribulações, é confiada pelo Espírito o dever da fidelidade e da intercessão. Fidelidade para seguir adiante o caminho da fé autêntica e enraíza na Igreja de Cristo; e intercessão, para que o sacrifício da oração, qual incenso que sobe ao céu, seja oferta junto à Deus e sinal de esperança junto à humanidade.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva