São Padre Pio: doce amigo do Calvário

A celebração anual da memória litúrgica de São Pio de Pietrelcina nos recorda a grandeza de Deus na vida dos seus santos e, de forma especial, as grandes coisas que o Senhor pode realizar na vida daqueles que se permitem serem usados por ele como instrumentos, mesmo que inadequados para as altas missões que sua sabedoria divina reserva. O olhar de Deus sobrea humanidade e sua história não pode ser comparado ao nosso, limitado pelo tempo e pela ausência daquela ciência cheia de caridade, típica de Deus onipotente. Quando nos detemos a olhar para nossa condição humana e nossas limitações, facilmente caímos na tentação de perder de vista o horizonte distante e largo, mantendo-nos presos no agora permeado de incertezas, ainda que seja o presente já conhecido, que procura conformar a si o futuro que está adiante.

Padre Pio – como até hoje o chamamos – nunca se deixou modelar pela mentalidade deste mundo transitório e fugaz, mantendo assim uma esperança indestrutível no ser humano, consciente que este é imagem e semelhança do Criador, filho de Deus pela graça de Cristo Redentor e templo vivo do Espírito Santo para a glória da Trindade. Tal certeza animava a vida e o ministério deste simples frade capuchinho que, de tanto abrir seu coração ao amor de Deus e ao desejo de servir à Igreja com total fidelidade e obediência, atraiu a atenção do mundo e continua, em nossos dias, a renovar a fé dos que sofrem o peso da vida a ser levado e a aumentar a esperança dos que se dedicam à criar uma realidade melhor para os homens e as mulheres do nosso tempo.

A compreensão que a missão que o Senhor confia a cada um dos seus amados nada mais é que aquela de imitar a vida de Cristo, nosso Mestre e modelo de vida, fez com que o santo de Pietrelcina não conservasse em sua alma nenhum medo. O medo, de fato, é o grande instrumento de paralização que os maus possuem para frear a obra de Deus nos corações. É pelo medo que os homens de bem desistem de combater pelos seus ideias e pela verdade, que não é outra coisa senão Cristo Jesus; pelo medo tantos filhos de Deus não conseguem dizer sim ao chamado do Senhor que, mostrando seus sinais como fez com Pedro na pesca milagrosa (cfr. Lc 5, 1-11), busca almas generosas para se colocarem ao serviço do Reino e do Evangelho; pelo medo o diabo incuti no coração dos homens uma ânsia pelo que é terreno, como se o fato de não experimentar todos os prazeres desta vida constituísse motivo para uma tristeza sem limites, sendo que a realidade é que esta atitude faz tantos jovens destruírem suas juventude, sem que lhes sobre nada para doarem aos outros, consumindo a vida em uma morte perpetuada por longos anos até a consumação do mal na condenação eterna.

“Para alcançar a nossa única finalidade é preciso seguir o Chefe divino, o qual, unicamente pelo caminho que ele percorreu deseja conduzir a alma eleita; isto é, pelo caminho da abnegação e da Cruz” (São Pio de Pietrelcina. Epistolário II, 155). Este caminho da cruz foi seguido de perto por Padre Pio, tanto que Jesus não podia não lhe conceder uma união mais íntima que o normal. No recebimento dos estigmas por parte do frade santo de San Giovanni Rotondo – o primeiro sacerdote que se tenha notícia que os tenha recebido – Cristo dava ao mundo um sinal milagroso, não de curas espetaculares ou manifestações fantásticas da presença do divino, mas o sinal da dor suportada pelo Senhor e compartilhada por aqueles que mais o amam. Partilhar a dor do outro é um gesto de amor dos mais autênticos, pois o que sofre nada mais possui para partilhar que as lágrimas e as dores do sofrimento suportado. Eis o que significa ser amigo verdadeiro de Jesus: não escolher quando estar com ele – pois o risco é aquele de apenas desejar sua companhia nas horas alegres –, mas apenas estar come ele, seja como for, custe o que custar.

Sobre a grandeza de Padre Pio e seu amor distinto pelo Cristo padecente, São João Paulo II disse: “Não é porventura precisamente a ‘glorificação da Cruz’ o que mais resplandece em Padre Pio? Como é atual a espiritualidade da Cruz vivida pelo humilde Capuchinho de Pietrelcina! O nosso tempo precisa de redescobrir o valor para abrir o coração à esperança. Em toda a sua existência, ele procurou conformar-se cada vez mais com o Crucificado, tendo clara consciência de ter sido chamado para colaborar de modo peculiar na obra da redenção. Sem esta referência constante à Cruz não se compreende a sua santidade” (Homilia na canonização do Padre Pio de Pietrelcina, 16 de junho de 2002).

Contemplar o modelo que este grande santo constitui para a nossa vida e caminhada espiritual nos alimenta a esperança de viver a santidade. De fato, sempre que vemos os santos nossa maior preocupação deve ser aquela de almejar a santidade que eles viveram com todas as forças do nosso coração. Algumas vezes acontece de vermos os santos sendo tratados como “superstars católicos”, deligando a vida destes homens e mulheres da fonte da sua grandeza, isto é, sua miséria preenchida pela graça e a misericórdia de Deus. Os santos são setas iluminadas que apontam para o centro de toda a vida cristã: Jesus Cristo, nosso Senhor.

Que São Pio de Pietrelcina interceda por nós e acompanhe-nos com sua presença paterna e doce, indicando-nos a estrada que nos conduzirá à visão daquele rosto divino que ele, hoje, tem a alegria de contemplar glorioso depois de tê-lo socorrido na dor.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva