Onde está o teu irmão?

 

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Como é bom sentir-se perdoado, não? A sensação de haver ofendido alguém de quem se gosta muito, ou de o ter decepcionado é, sem dúvida, uma das sensações mais estranhas e incômodas que podemos experimentar. Quando nos acontece de esquecer o aniversário de um grande amigo, ou de deixar de estar presente para ajudar a alguém que precisava da nossa ajuda, ou mesmo de dizer uma frase ofensiva ou maldosa, procurando a uma pessoa amada uma grande dor interior, é difícil conter o arrependimento e a consequente vontade de que aquilo não tivesse acontecido. Diante de tal realidade, só nos resta expor nosso erro à pessoa querida e pedir-lhe seu perdão. Mais ainda: nos sentimos impulsionados a buscar formas de compensá-la pelo ocorrido, imaginamos meios de reparar o mal feito e – como é de se esperar de um coração arrependido – nos comprometemos, ainda que apenas interiormente, a não errar de novo.

E quando somos perdoados, quando nos sentimos perdoados, experimentamos a luminosa sensação de liberdade, de haver tirado um peso das costas. Sentimos um frescor diferente, próprio de um recomeço, onde é possível retomar o amor e a amizade do ponto onde foi interrompido. Essa experiência á incrível! Ela nos proporciona a chance de conhecer mais de nós mesmos, além de nos dar a conhecer mais ainda daquela pessoa que, mesmo não precisando, me perdoou, me mostrando assim, uma vez mais, a força do amor verdadeiro que pode existir entre duas pessoas sob o olhar de Deus.

Tal experiência deve ser vivida de forma ainda mais profunda por aqueles que se deixam reconciliar com Deus (cfr. 2 Cor 5, 20). De fato, quando pecamos, infligimos a Deus uma ofensa que não se pode medir, pois ainda que seres finitos e pequenos, somos capazes de agravar a divina majestade, tornando-nos assim, réus de um delito eterno, vista a nossa incapacidade de redimir-nos deste crime. Então, justamente nessa condição de culpados, somos redimidos por Deus em Jesus Cristo, tornando-nos, pelo seu sangue derramado, amigos e filhos de Deus, reconciliados no amor do Pai.

Esta imensa graça, ainda que imerecida, necessita da adesão pessoal para tornar-se atual na vida de cada indivíduo, e isso implica o retorno ao caminho de Deus, e consequente arrependimento dos pecados cometidos com o firme propósito de ser digno de tão imenso perdão e tão sublime condição recebida. Desta forma, fica claro que nossa experiência com o perdão divino deve ser a mais sublime de todas, pois muito mais digno de ser amado é Deus em relação com todas as pessoas que possamos amar nessa vida; muito mais espaço no nosso afeto deve ocupar Deus em comparação com todos os demais, etc.

Ao mesmo tempo, tal realidade nos serve também como um salutar exemplo para nosso proceder com os irmãos. De fato, se é imensamente satisfatória a experiência de ser perdoado, no mínimo, devemos aceitar e almejar sermos capazes de sempre perdoar aqueles que nos tenham feito o mal, pois diante de uma grande prova de amor é necessário ter um coração demasiado gelado para manter-se inerte e não desejar agir de forma semelhante.

Todos nos recordamos da parábola de Jesus no Evangelho acerca do servo do rei que foi perdoado de sua enorme dívida (cfr. Mt 18, 21-35). Algo que chama a atenção nessa parábola é o seguinte: diante da súplica do servo, o rei, de forma magnânima, ao invés de apenas lhe dar mais tempo, perdoa-lhe a dívida. No entanto, após saber que o mesmo servo agiu de forma tão mesquinha contra seu companheiro logo após ter sido perdoado, lhe lança sobre as costas o peso da dívida que havia sido perdoada, condenando-o a pagar com sua família e posses um pouco do que devia. Ora, uma vez que esta parábola se aplica à Deus que é capaz de perdoar as indizíveis ofensas dos homens, desde que os mesmos sejam capazes de perdoar as culpas uns dos outros, como explicar essa retomada da dívida do servo – aqui figurando o pecado contra Deus – quase como se dissesse que nossos pecados não são totalmente perdoados por Deus, mas podem ser-nos novamente creditados, como confiar num perdão absoluto por parte do Senhor?

Na realidade, a resposta vai numa direção diferente e nos ensina algo muito precioso. Deus nos perdoa e seu perdão é eterno, pois nos perdoa em seu amor. No entanto, quando nos recusamos a perdoar aqueles que nos ofenderam, cometemos um daqueles pecados que “bradam aos céus”, isto é, nos tornarmos réus de uma enorme injustiça, pois nos dispomos a matar o irmão em nossos corações e privá-lo da nossa comunhão, nós que fomos perdoados de crimes incomensuráveis contra a bondade e o amor divinos, sem que tenhamos feito nada para merecer tamanha graça. Como conviver com o amor de Deus e ser insensíveis a Deus que está no meu irmão, ainda que pecador, ainda que culpado? Quando me tornei mais digno do que Deus para poder recusar o perdão a alguém que me ofendeu? Quem selou minha boa-fama, minha autoridade, minha nobreza com um selo que vale mais do que o sangue do Senhor Jesus derramado na cruz para que eu e toda a humanidade tivéssemos a paz divina?

Diante daqueles que se recusam a perdoar, a pergunta do Senhor contida no Evangelho ressoa: “Servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste. Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti” (vv. 32-33). E se isso não bastar, basta recordar-nos que no último dia, quando diante dele estiver, aquele que do alto de sua coluna de marfim rejeitou o seu irmão que contra ele pecou, ouvirá do Senhor uma pergunta já feita há muito tempo: “Onde está teu irmão?”; e acrescentará: “Que fizeste! Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra” (Gn 4, 9-10).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva