O tesouro da amizade

A amizade é um milagre! Isso mesmo, um milagre dos mais significativos que Deus consegue operar nos corações humanos. Isso porque esta união íntima e realizadora é um desafio constante, além de uma clara fonte de alegria e felicidade, que consegue reagir a todas as tempestades da vida, procurando a salvação dos amigos e a comunhão de todos com o Senhor através da sua infinita misericórdia. Tal dom necessita de cuidado e atenção, pois, qual joia rara e preciosa, não pode ser deixada diante da maldade alheia; e qual chama ardente acesa na fornalha de amor do Espírito Santo, não deve ser exposta aos ventos contrários que buscam o apagamento das cintilas de calor humano ainda restantes no mundo.

A fonte de toda a amizade verdadeira está em Deus, o grande amigo do homem, que não deixa de estar próximo do ser humano em nenhum momento de sua existência. Mas a fonte da compreensão deste grande mistério que é a amizade, encontramos nas palavras de Jesus aos seus discípulos na ocasião da última ceia relatada no Evangelho de São João: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15). O caminho espiritual daqueles doze homens escolhidos pessoalmente pelo Senhor culmina em uma união assaz profunda com o Mestre, não mais sob o título de servo, mas de amigo. E Jesus explica a razão deste salto relacional, que vai muito além da intimidade e sinceridade criada entre o Senhor e seus amigos – fundamental para uma amizade verdadeira. O fundamento da amizade é a comunhão na estrada que leva a Deus.

Se a amizade é uma forma de amor, profunda e preciosa, então significa que é também um bem. Todo bem se refaz a um bem superior, que deve ter um sumo bem ao qual se refere em última instância. Assim sendo a amizade, qual bem precioso, provem de Deus, qual sumo bem. Mesmo que tal raciocínio pareça demasiado teórico, se mostra na realidade essencial, pois nos permite compreender que nenhuma amizade pode ser autêntica se não busca em Deus sua fonte e seu cume. “Revela-se, assim, como possível o amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus, na Bíblia. […] Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O seu amigo é meu amigo” (Bento XVI, Deus caritas est, 18).

Se quiséssemos extrair do exemplo de amizade entre o Senhor Jesus e seus discípulos tantos elementos poderiam ser colhidos com facilidade. Fixemo-nos sobre três destes elementos essenciais da amizade de Jesus para iluminar a nossa amizade:

Paciência. Uma faceta do amor caracterizada pela beleza e pela fragilidade, pois com facilidade se perde a paciência com alguém que erra ou que não acompanha o ritmo exigido, mas, se não se presta a devida atenção, com muito mais facilidade se perde a paciência com uma pessoa próxima, acreditando que nada do que se diga ou se faça pode machuca-la. E às vezes sim. “A tua caridade deve adequar-se, ajustar-se, às necessidades dos outros…; não às tuas” (São Josemaria Escrivá, Sulco, 749).

Sinceridade. Este elemento vem exposto no centro não por acaso, mas propositadamente, exatamente porque está na centralidade da amizade. Não se pode ser amigo sem ser sincero. Mas tal sinceridade se mostra real principalmente nos momentos descontraídos, de alegrias e de risadas altas – que, em geral, são produzidas pelos amigos como sua especialidade. Esta sinceridade é a garantia que entre os amigos ninguém é juiz, porque não existe réu, nem advogado, nem promotor. Apenas o amigo. O mesmo de sempre.

Cruz. O Senhor veio para fazer de todos os homens seus amigos, e a forma mais excelente para isso foi o sacrifício pleno de si para redimir-nos dos nossos pecados e fazer-nos passar de inimigos de Deus a amigos seus (cfr. Rm 5, 10). É ele mesmo quem explica esse ponto: “Ninguém tem amor maior que aquele que dá a sua vida pelos amigos” (Jo 15, 13). A amizade autêntica é marcada com o sigilo da cruz, isto é, do sacrifício, do sofrimento pelo outro, da entrega de si. Amigo não é aquele que gosta de mim, mas aquele que me ama e aceita até mesmo a morte por mim, e às vezes esse sacrifício não se dá em uma ocasião definitiva, mas na partilha dos sofrimentos e das angústias de vida, como um martírio branco para testemunhar que nada pode vencer o que é selado com o amor que vem de Deus através do sinete da Cruz do Salvador.

Agostinho disse: “Ama et fac quod vis – Ama e faz o que quiseres” (Confissões, XII, 9). E assim, nesta naturalidade do amor aconteceu a amizade de Jesus com seus discípulos e com cada um de nós. Assim também nós somos convidados a assumir em nossas vidas as amizades que o Senhor quiser semear ao longo da nossa estrada, quais luzeiros que nos estimulam e guiam no justo caminho rumo ao céu, com aquela alegria e vitalidade que apenas uma boa amizade consegue nos dar.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva