O seio fecundo da vida consagrada

“Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos e multiplicai-vos” (Gn 1, 28). As palavras de Deus dirigidas ao primitivo casal após a sua criação demonstra a grandiosidade do amor divino e seu projeto incomparável para o mundo por ele criado. Deus cria todas as coisas, que trazem em si mesmas o sinal da vida e da sabedoria de quem as criou, e coroa sua criação com o ser humano, homem e mulher, uma única manifestação da beleza divina composta por dois seres ligados entre si.

Na bênção dada por Deus ao homem e à mulher, a fecundidade divina, com a qual o Criador faz as coisas serem e lhes confere existência, é comunicada ao casal, que assume a missão de colaborar na obra criadora de Deus, gerando os filhos que enchem a terra, realizando o desígnio divino da manifestação da sua glória na multiplicidade do ser humano, tão distinto em suas raças, formas e modos de ser, mas sempre unidos à fonte da vida, que é o próprio Deus. Quão estupenda é a obra da criação!

Como visto, porém, tal fecundidade não pode ser considerada fruto de aquisição por parte do ser humano, nem decorrência de mérito, mas sim bênção divina, isto é, derramamento da vida Deus sobre a criatura. Uma bênção de tamanha grandeza não poderia deixar de ser concedida aos eleitos de Deus na instauração do seu Reino sobre a terra, aqueles que o Senhor chama para estarem com ele e partilharem da sua sorte.

A vida consagrada é uma existência singular na criação, onde a natureza predisposta à procriação biológica não se realiza. Essa realidade, diferentemente do que se pode pensar, não é sinônimo de infecundidade, muito pelo contrário, é sinal de graça para uma fecundidade espiritual, sem a qual a própria fecundidade biológica correria o risco de falhar na busca da plenitude da procriação, que é a amizade de todos os homens com o Deus criador.

Ainda que ausente do campo procriativo da existência humana, a vida consagrada é extremamente presente na dimensão generativa dos filhos de Deus. Isso acontece por causa da doação da própria vida por causa do Reino, em atenção à Palavra de Deus e na vivência de uma amor por Cristo que não conhece nenhum limite. Uma existência assim não pode que produzir frutos espirituais abundantes, gerando salvação nas almas e o louvor à bondade de Deus.

Como podemos chamar de infecunda a vida de uma consagrada que gasta a própria juventude evangelizando o próprio povo, e até mesmo povos distantes, fazendo nascer em tantas nações amigos de Deus e irmãos de Cristo? Como chamar de estéril um consagrado que se dedica a acolher os pobres e marginalizados, dando aos seus corações o seu único bem e riqueza, que é o próprio Cristo, iluminando vidas que se perderiam sem esperança de um amanhã? Como considerar estéril uma religiosa que nunca abriu seu ventre para acolher uma criança, mas que nunca cruzou seus braços diante de centenas ou milhares de crianças necessitadas de amor e de pão, como fez Madre Teresa? Com que razão se pode descartar como peso morto social um monge que passa os dias dedicado ao trabalho e à oração, lutando as lutas dos sofredores e implorando de Deus sua misericórdia por nós, pobres pecadores, simplesmente por ter preferido a nobre Filha de Sião no céu à uma filha de Deus sobre a terra?

“Deste amor virginal, provém uma particular fecundidade que contribui para o nascimento e crescimento da vida divina nos corações. A pessoa consagrada, seguindo o exemplo de Maria, nova Eva, exprime a sua fecundidade espiritual, tornando-se acolhedora da Palavra, para colaborar na construção da nova humanidade com a sua dedicação incondicional e o seu testemunho vivo. Desta forma, a Igreja manifesta plenamente a sua maternidade” (João Paulo II, Vita Consecrata, 34).

A fecundidade da vida consagrada se identifica com a abundância do amor esponsal nutrido nos corações dos que são chamados pelo Senhor, que os abençoa também a estes em sua bondade, para que a vida que se oferece diante do trono de Deus seja preenchida do amor fecundo que gera vida. Um amor assim tão forte, tão estreito, produz, no solo fértil da Igreja, o nascer da vida espiritual nos corações humanos, a caridade para com os que sofrem, a amizade com todos os homens, a santidade que conduz ao Paraíso. “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto.[…] Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor. […] Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 5.10.13).

Celebrar a vida consagrada significa rejubilar em Deus, que tudo dispôs em sua sabedoria, concedendo que seus dons se espargissem de forma tal, que sua beleza se manifestasse a todos os olhos e fosse reconhecida presente em cada vida que nasce, sendo fecundada para se tornar fecunda.

“Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça” (Jo 15, 15-16).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva