O Rosário: escola dos filhos de Maria

 A legenda pia sobre a origem da oração do Rosário conta que no século XII um monge cisterciense, novato no mosteiro, tinha o piedoso costume de ornamentar uma imagem de Nossa Senhora venerada na igreja monacal. Em uma dessas vezes, a Virgem Maria lhe teria agradecido o gesto, mas teria também lhe dito que ficaria ainda mais contente se, ao invés da oferta de uma coroa de flores, lhe fosse oferecida uma coroa de 50 Ave-Marias. Mesmo não podendo afirmar a veracidade desta narração, não podemos tão pouco afirmar sua inveracidade. Fato é que desde tempos remotos os fiéis conservam o costume de chamar de Rosário a piedosa prática devocional de recitar diversas Ave-Marias em honra da Mãe de Deus.

Vale a pena também considerar as constantes críticas feitas à essa devoção, tais como a de que é uma oração que distrai o fiel da centralidade de Cristo, colocando Maria Santíssima como foco da oração; ou aquela que desqualifica a oração do Rosário em função da repetição das orações de forma demasiada, podendo levar o fiel ao devaneio e perda do sentido comunional do ato de rezar.

Sabendo não ser este o lugar adequado para uma completa análise apologética destas questões, podemos nos limitar a apenas algumas considerações. Em primeiro lugar, o Rosário é uma oração essencialmente cristológica e cristocêntrica, pois carrega consigo a contemplação dos mistérios da vida de Cristo, colocando no centro da meditação do fiel o infinito amor de Deus por nós, até o ponto máximo da entrega completa e sem reservas pela nossa redenção. Neste sentido, ainda que não se contemplassem os mistérios durante as dezenas, como hoje fazemos, o Rosário não perderia sua essência, pois a contemplação autêntica e católica da Virgem Santíssima não pode não conduzir ao Deus todo-poderoso que nela fez grandes coisas, que nela se fez carne e, com sua associação especial à Cruz, realizou a salvação da humanidade.

Em segundo lugar, a oração do Rosário não é destinada à distração da mente, mas sim, ao contrário, à concentração meditativa, focada naquilo que é o mais importante, Jesus Cristo. Assim sendo, o Rosário assume uma função primordial na vida ascética dos fiéis, promovendo a prática da meditação interior, da interiorização do mistério cristão e da resposta sincera da alma animada pelo Espírito que se deixa unir a Deus na simples tranquilidade do ser e do estar. Obviamente se pode constatar uma hodierna facilidade na distração pessoal durante a recitação do Rosário, porém devemos ter em consideração também a constatação de que este fenômeno se deve às dificuldades pessoais para a interiorização e concentração com raízes psicossomáticas, ou à repulsa do silêncio como forma de vida, levando à desfragmentação do ser que não consegue reunir-se para pôr-se em oração.

Rezar o Rosário, mais do que um dever de ordem salutar, isto é, destinada à promoção do bem pessoal, constitui um dever filial, onde o coração daquele que ama a Mãe do Céu se deixa conduzir pela graça do mesmo Espírito que a preencheu e a conduziu, para assim formarem uma unidade amorosa e adorante, tendo como destino final da alegre viagem pela eternidade do mistério o próprio Cristo, onde a alma amante, totalmente confiada ao Coração amoroso de Maria, é conduzida até ao seio daquele que é o Amor. E ali, com toda a simplicidade, adora.

“Toda a nossa perfeição consiste em sermos configurados, unidos e consagrados a Jesus Cristo. Portanto, a mais perfeita de todas as devoções é incontestavelmente aquela que nos configura, une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo. Ora, sendo Maria entre todas as criaturas a mais configurada a Jesus Cristo, daí se conclui que de todas as devoções, a que melhor consagra e configura uma alma a Nosso Senhor é a devoção a Maria, sua santa Mãe; e quanto mais uma alma for consagrada a Maria, tanto mais será a Jesus Cristo” (S. Luís Maria Grignon de Monfort, Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, 120).

São João Paulo II afirmou que o Rosário é a escola onde podemos aprender Cristo através da Virgem Maria (cfr. Rosarium Virginis Mariae, 14), o que nos indica o caminho seguro para conseguir satisfazer os anseios mais profundos do nosso coração, isto é, amar o Senhor com tudo o que temos, assim como o fez sua santa Mãe, sendo fiéis até o fim, sem nunca voltar atrás e tendo, a cada dia, mais coragem e força para testemunhar o amor infinito que nos conquistou e nos conquista ainda hoje.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva