O preciosíssimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é Imagem1.jpg “…um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água” (Jo 19, 34). Esta é a última vez que, no Evangelho, vemos a menção ao sangue de Cristo. Percorrendo o sagrado texto, desde a primeira vez em que o divino sangue do Redentor foi derramado sobre o solo da nossa terra, quando da sua circuncisão (cfr. Lc 2, 21), passando pela menção feita por ele mesmo acerca do seu sangue que seria dado aos homens como verdadeira bebida espiritual (cfr. Jo 6, 53), chegando à grande Ceia, onde o Senhor dá a beber, efetivamente, o seu sangue sob as espécies eucarísticas (cfr. Lc 22, 20), contemplamos, de fato, a consumação de todo esse caminho feito pelo sangue do Cristo. Verdadeiramente, na Cruz, ao doar-se por completo pela nossa redenção, o Senhor consumava tudo, até mesmo a revelação do sacrifício do seu sangue, todo dado e todo derramado pela humanidade.

Esta consumação final realizada pelo Crucificado, leva à plenitude também os sinais prefigurativos deste sangue redentor. De fato, o sangue de Cristo sustenta o martírio de São João Batista, ainda que este não o tenha recebido por haver anunciado o nome de Jesus, mas, ao testemunhar com coragem e determinação a verdade e a justiça, dava testemunho de Cristo, Caminho, Verdade e Vida. É também o sangue de Cristo que dá sentido e significado salvífico ao sangue das vítimas sacrificais oferecidas no tempo da Antiga Aliança, pois apenas em vista do sacrifício do Cordeiro de Deus – anunciado por Abraão em Gn 22, 8 –, aquelas oferendas podiam produzir, ainda que de forma imperfeita, comunhão entre os homens e Deus.

O preciosíssimo sangue do Senhor é ainda o sentido, a plenitude e o remédio ao sangue de Abel, derramado por Caim. Efetivamente, é ele quem dá sentido ao sacrifício do justo Caim, inocentemente assassinado pelo próprio irmão, não por uma disputa, mas simplesmente por inveja, o mesmo sentimento corrosivo que levou os irmãos de Jesus segundo a herança de Abraão, a conduzi-lo à morte (cfr. Mt 27, 26-27); é o sangue de Cristo a conferir ao sangue de Abel sua plenitude, pois este último se derramou desconsentidamente a causa da própria justiça, como consequência de sua fidelidade a Deus, ao passo que o sangue do Divino Redentor foi derramado de forma brutal e violenta, mas em nenhum modo contra a sua vontade, pois ele oferecia-se a si mesmo de forma livre, com o poder que tinha de dar a vida para depois reavê-la (cfr. Jo 10, 18), sendo este sangue inigualável versado sobre a humanidade, não a causa da justiça de Cristo, mas em vista da remissão dos pecados de outrem, pois o único inocente se sacrificou para resgatar a vida de todos os culpados; e este divino sangue é também remédio ao sangue de Abel, pois este, caído sobre a terra, clama aos céus pedindo a Deus vingança contra o assassino impiedoso (cfr. Gn 4, 10), enquanto o sangue de Cristo, qual rio transbordante, cuja nascente é o Sagrado Coração do Divino Filho, derramado sobre o solo, clama ao Pai misericórdia pelos pobres pecadores nascidos do pó da terra.

Por fim, a contemplação do sacrossanto sacrifício do Senhor Jesus, do derramamento do seu precioso sangue a jorrar do lado aberto juntamente com a água, desde muito cedo foi, para os Padres da Igreja, símbolo da consumação da criação, quando, no início, do lado aberto de Adão, nascia sua esposa, agora, do lado aberto de Cristo, nasce a Igreja: “… um soldado aproximou-se, feriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu água e sangue: a água, como símbolo do batismo; o sangue, como símbolo da eucaristia. […] Foi destes sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo, isto é, pelo batismo e pela eucaristia que brotaram do lado de Cristo. […] Pois assim como Deus formou a mulher do lado do homem, também Cristo, de seu lado, nos deu a água e o sangue para que surgisse a Igreja. E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono de sua morte” (S. João Crisóstomo, Catequese 3, 13-19).

De tal forma, fica-nos claro o peso de significado das palavras do Senhor na cruz: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30). Sim, nada há na história que não conheça o seu real e profundo significado no sacrifício de Cristo, pois é o seu sangue, divino e precioso, sagrado e incomparavelmente salutar, a conferir aos homens de todos os tempos a fortaleza para caminharem na justiça, promovendo a paz que advém desta santa oferta do Redentor. De fato, é no sangue de Jesus Cristo, que brota e se derrama das suas chagas, que encontramos os mais valiosos tesouros de Deus, pois é ali, nos sinais sagrados do amor que não conhece limites, que o Senhor quis guardar as suas maiores delícias, ensinando-nos, assim, que o sacrifício vivido por amor não pode frutificar em nada mais que em salvação e caridade autêntica.

Cristão, olha fixamente estas chagas! Contempla amorosamente o brilho do vivo rubor deste preciosíssimo sangue que te redimiu, sem que você tivesse, sequer, a oportunidade de implorar pela salvação. Observa com estupefata admiração tão imenso e incomparável amor que levou o Cristo a derramar seu sangue por você e por mim, sem que nada lhe possamos fazer para contracambiar tamanho dom, deixando o coração se preencher da santa esperança de que, dando-te todo a ele, com generosa entrega e ardente fidelidade, possa a tua vida converter-se numa singela ação de graças, capaz de atravessar o véu celeste e, unida à oferta do santíssimo corpo e sangue de Cristo oferecidos todos os dias sobre o altar, tornar a tua vida “eucaristia” agradável a Deus.   

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva