O grande mistério do Natal

No Antigo Testamento nos deparamos com uma realidade muito interessante e profunda, a tenda, que se tornou um símbolo e mais que um símbolo, uma imagem e um instrumento de salvação.

As tendas eram como que cabanas simples usadas pelo povo de Israel na sua primitiva fase de existência, onde este povo constituído por clãs habitava nas regiões desérticas e levavam vida nômade. Após a saída do povo eleito do Egito, com a construção da Arca da Aliança que guardava no seu interior as tábuas da lei, o bastão de Moisés e o maná, foi erguida uma tenda grande para abrigar a Arca e ser o lugar físico da presença de Deus em meio a Israel. Esta chamou-se Tenda do Encontro (cfr. Ex 33), pois ali o Senhor falava a Moisés e respondia às orações do povo.

Tal imagem retorna diversas vezes ao longo da história bíblica. Em particular, podemos individuar o comparecimento desta no Salmo 18, 5-7, que canta a beleza da criação divina, e onde o sol aparece como imagem da realeza e grandeza de Deus: “Armou no alto uma tenda para o sol; ele desponta no céu e se levanta como um esposo do quarto nupcial, como um herói exultante em seu caminho”. Não é difícil ver nesta imagem uma forte alusão à Cristo, o qual é o grande Sol da humanidade, que vem para iluminar todo homem. Já São Francisco havia interpretado, em chave cristológica, a imagem do Sol no seu Cântico das criaturas: “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o Senhor Irmão Sol, que clareia o dia e com sua luz nos alumia. E ele é belo e radiante com grande esplendor: de ti, Altíssimo é a imagem”.

Em seguida, vemos no livro do Eclesiástico mais uma imagem desta tenda onde o Senhor habita. A Sabedoria, qual imagem do Filho eterno de Deus, diz de si mesma: “Saí da boca do Altíssimo; nasci antes de toda a criatura”; e prossegue revelando o plano de Deus para o seu povo e a comunhão que se deveria criar com a sublimidade do Senhor: “Então o criador do universo me deu uma ordem, o meu criador me fez fixar minha tenda e me disse: fixa a tenda em Jacó e toma posse da herança de Israel” (Eclo 24, 3.12). Neste passo vemos com clareza a Sabedoria, quer receberá o nome de Lógos, e que provém de Deus e com Deus se identifica. Este Lógos manifesta a grandeza de Deus em meio aos homens e fixa a sua tenda, isto é, sua morada permanente, sua casa, em meio ao seu povo, tomando, assim, posse da herança de Deus, como Filho.

Por fim, chegando ao Novo Testamento, somos convidados a contemplar o cume de toda esta revelação divina que se concretizou ao longo dos anos da história do povo eleito.

O evangelista João, trazendo à tona a grandeza da realidade de Cristo, coloca em evidência seu ser divino e, ao mesmo tempo, sua humanidade em tudo semelhante à nossa, por ter tomado sobre si nossa carne mortal e assumido nossa iniquidade, ele, o único sem pecado. João declara solenemente a fé na encarnação do Filho unigênito, do Verbo eterno de Deus, da Sabedoria do Altíssimo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. […] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 1.14). O mais interessante de notar neste texto, além da profundidade da revelação que nele acontece, é um particular literário. No texto original, escrito em grego, para dizer que o Verbo habitou entre nós, se usa o termo eskénosein, que possui a mesma raiz fonética do termo hebraico shekináh, usado para indicar a presença de Deus quando ele descia sobre a Tenda do Encontro para falar com Moisés. Eskénosein significa propriamente “plantou a sua tenda” em meio a nós.

Na celebração da manhã do dia de Natal, a Igreja ouve e medita este Evangelho de João, onde somos chamados a ir ao encontro do Verbo de Deus feito carne, que assume nossa miséria e pequenez; ele que tem seu trono junto de Deus, não recusa dividir com os homens seus pobres espaços, sendo deitado em uma manjedoura e rejeitado pela mais simplória hospedagem de Belém.

A tenda de Deus, neste sagrado dia, assume a forma do presépio, onde se encontra o Deus feito homem e os homens que são assumidos pela luz divina a brilhar sobre o mundo inteiro. Não se pode permanecer indiferente diante de tamanha humildade e amor, que nos é manifestada no Menino-Deus. Apenas a contemplação, singela e silenciosa, como a de Maria e José, podem nos desvendar o mistério excelso que os olhos agora podem ver: Deus no meio de nós.

“Ó troca maravilhosa! O criador do gênero humano encarnando-se, concede-nos a sua divindade. Por causa desta obra maravilhosa o Redentor veio ao mundo. Deus se tornou Filho do homem, para que os homens se tornassem filhos de Deus. Um de nós rompeu o laço da filiação divina, e um de nós devia reatar o laço, pagando pelo pecado. Nenhum da antiga e enferma raça podia fazê-lo. Devia ser um rebento novo, sadio e nobre. Tornou-se um de nós e, mais do que isto: unido conosco” (Santa Teresa Bendita da Cruz [Edith Stein], O Mistério do Natal, III).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva