O Alfa e o Ômega. O tempo e a eternidade

Na revelação feita a São João ocorrida na ilha de Patmos, que foi compilada no livro sagrado que conhecemos como Apocalipse, manifesta-se de forma poética e com grande firmeza a bondade e a justiça de Deus, sua obra de transformação do mundo e a conclusão da história da salvação nos últimos dias. Mas uma particularidade chama a atenção do leitor deste livro. Uma afirmação divina que comparece no primeiro e no último capítulo da obra: “Eu sou o Alfa e o Ômega” (Ap 1, 8; 22, 13).

Na exegese bíblica, se diz que uma realidade ou uma afirmação que seja presente no início e no fim de um texto sacra, principalmente do Novo Testamento, indica que aquela realidade em particular ou o sentido da afirmação que é feita, percorre todo o texto, mesmo sem que esteja explicitamente nomeado. Assim, quando vemos a presença de Maria Santíssima no início do Evangelho de João, em sua participação ativa de intercessão nas bodas de Caná, e seu retorno aos pés da Cruz de Jesus, podemos entender que a presença mariana não faltou ao longo da vida pública do Senhor Jesus, ainda que de forma discreta, para não dizer escondida.

“Eu sou o Alfa e o Ômega”. O Senhor usa a imagem de duas letras do alfabeto grego, a primeira e a última, para indicar algo da sua própria essência, para revelar uma característica do seu próprio ser. Ao usar estas letras, o Senhor indica que ele é o princípio e o fim, o primeiro e o último. É princípio porque “No princípio era o Verbo. […] Tudo foi feito por ele, e sem ele não se fez” (Jo 1, 1.3); é o fim porque “Dele, por ele e para ele são todas as coisas” (Rm 11, 36); é o primeiro foi em Cristo que o Pai criou a humanidade, olhando o seu Filho amado no seio da Trindade: “Na glória e esplendor da santidade, antes da aurora, eu te gerei” (Sl 109, 2); e é o último, porque “Como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o segundo Adão é espírito vivificante. […] O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do céu” (1Cor 15, 45.47). Cristo é o Senhor da existência, o fundamento de tudo o que ganha o ser, distribuindo entre toda a criação a sua presença, desde os primórdios do ser. Assim sendo, Cristo é o Senhor do tempo e da história.

A própria concepção da existência de um tempo que se alienada à ideia de Deus é, em si mesma, contraditória, pois seria a afirmação da não existência de um tempo para o tempo. Isso porque a existência do tempo carrega em si mesma a necessidade de um início do tempo, visto ser o próprio tempo uma sucessão de eventos concatenados. Ora, uma sucessão não pode não ter início, pois implicaria a ausência do evento presente, dado o fato de não ter acontecido um evento iniciante de todos os demais eventos que compõem o tempo, o que seria absurdo, visto que neste momento estou escrevendo estas linhas e você, caro leitor e leitora, em um evento sucessivo, as está lendo. O tempo, portanto depende de Deus, e está em suas mãos, juntamente com a eternidade.

Ao nos aproximarmos da conclusão de mais um ano litúrgico e o início de outro, somos convidados pela liturgia destes dias a abrir os corações para acolher o Senhor da História em nossas vidas, permitindo-lhe um espaço privilegiado na nossa meditação e contemplação da obra criadora de Deus.

Vivemos em uma realidade cada dia mais preocupada em “ganhar tempo”. Com esse intuito se criam novas tecnologias, capazes de acelerar o envio de mensagens de uma ponta à outra do planeta; buscam-se meios convenientes de melhorar o desempenho dos funcionários nas empresas, diminuindo o tempo gasto com funções secundárias, privilegiando a essência do trabalho e o conseguimento das metas que geram os resultados satisfatórios. Tudo isso é bom e um sinal da inteligência e sagacidade que Deus concedeu aos homens, criados à sua imagem e semelhança. O detalhe que falta – se podemos chamar de detalhe – é aprendermos a, não simplesmente ganharmos tempo, mas também ganharmos a eternidade.

O que me ajuda a ganhar tempo no trabalho ou nos estudos não pode servir apenas para que eu tenha ainda mais tempo para trabalhar mais ou estudar mais, ou fazer mais, ou me desgastar mais, ou receber mais, ou gastar mais, etc. O tempo que ganho nesta vida, me serve para me preparar para a eternidade, e isto se faz da forma mais simples e tranquila possível: dedicando-se à oração, principalmente à adoração eucarística; gastando tempo em ouvir uma pessoa que precise de companhia, como um idoso ou um irmão doente; trabalhando pelo bem social, ajudando os pobres a tornar a pobreza menos dura e a vida mais alegre; servindo ao Reino de Deus neste mundo, dedicando-se à Igreja e ao apostolado, evangelizando em nome de Jesus e promovendo a paz; amando as pessoas, próximas e distantes, num amor sincero e perene, capaz de perdoar as faltas alheias e de se consumir pela felicidade dos outros; divertindo-se com a leitura de um bom livro ou com a visão de um filme ou espetáculo capazes de gerar boas emoções na alma.

Quando entendemos que a vida é passageira e que ela terá um fim, o qual gerará o novo começo sem término, então aprendemos a autêntica sabedoria de vida: amar viver, e viver para amar.

 

No tempo certo,

A esperança se eleva de todos os lugares sujeitos a morte

A esperança é o contrapeso

Nela o mundo que morre, revela a vida de novo

Nas ruas as pessoas com casacos curtos e com cabelos caídos no pescoço

Cortam com a lâmina do passo o espaço do grande mistério

Que em cada um deles se estende entre morte e esperança

Um espaço que flui para o alto, como a pedra de luz solar

Revirada ao ingresso do sepulcro

Neste espaço, a mais perfeita medida do mundo

Tu és

(Karol Wojtyla, A esperança que vai além do fim)

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva