Na humilde condição do sacerdote

 

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São Paulo, dirigindo-se aos coríntios (cfr. 2Cor 4, 7), afirmava que os que são de Cristo trazem consigo o tesouro inestimável da graça divina, guardado dentro da pequenez de sua condição. De forma ainda mais impressionante, os que foram eleitos pelo Senhor para propagar a sua Palavra, administrar os seus mistérios e confirmar os demais irmãos na fé, não são nada mais do que vasos de barro que abrigam riquezas inestimáveis.

De fato, a vocação sacerdotal, que continua a missão apostólica no tempo da Igreja, constitui este insondável mistério da liberalidade divina, assim como da sua infinita misericórdia, pois é movido pelo seu imenso amor feito misericórdia para com os homens, que o Senhor dispôs que homens pecadores recebessem a sublime dignidade de serem configurados a Cristo de uma maneira única, que não foi concedida nem sequer aos mais fieis e dispostos anjos da corte celestial, e que também não foi concedido à Santíssima Virgem Maria, a mais digna e santa de todas as criaturas de Deus. Este dom inestimável da graça divina é o sacerdócio, pertencente ao único Sumo Sacerdote da nossa fé, Jesus Cristo, e participado por aqueles que ele escolheu e escolhe, todavia no seio da Igreja de todos os tempos.

É realmente impressionante, se pensamos seriamente sobre, que o Senhor tenha preferido escolher o que de menos nobre havia para constituir seus ministros. Destarte, é comum desejar depositar os bens mais valiosos em recipientes que sejam condignos, capazes de fazer transparecer, antes mesmo da visão do tesouro, a preciosidade do que ali esta depositado. Isso vale desde um presente dado a alguém importante, até uma joia raríssima, custodiada em um caixa aveludada. Obviamente, aqui falamos de bens materiais, com suas conotações e necessidades de conservação. No entanto, é interessante ver que os dons divinos, ainda que colocados no que de mais nobre o ser humano possui, isto é, sua alma, sempre corre o risco de ver-se disputando lugar com o que mais indigno o homem pode acolher no seu interior: o pecado.

O Senhor sabe disso e mesmo assim desejou que seus mistérios estivessem guardados nas almas dos seus servos, pobres pecadores. É claro, o Senhor não é condescendente com o pecado, pelo contrário, é por amor e misericórdia que ele deseja habitar no íntimo dos seus fiéis, para lhes comunicar sua graça santificante. De forma semelhante e ainda mais premente, habita o Senhor, juntamente com os seus divinos dons, na alma dos seus sacerdotes, os quais são meros vasos de argila, pobres em si mesmos de qualquer coisa que se possa oferecer a Deus, indigentes de extraordinariedade, pois apenas irmãos dos seus irmãos.

A alma dos eleitos, no entanto, torna-se habitação divina, em virtude do próprio agir de Deus, o qual a purifica constantemente, a renova incansavelmente e a santifica poderosamente, de modo a configura-la ao Cristo, pobre para enriquecer a todos, casto para amar a todos e obediente para salvar a todos. Essa sublime escolha encontra como meta a pequenez da criatura, imperfeita e necessitada de transformação. Ao mesmo tempo, é pela escolha divina que aquela alma eleita adquire a força espiritual para conduzir a própria existência em total abandono à bondade e providência divinas. Somente o Senhor, que é a porção abundante da herança do sacerdote (cfr. Sl 15, 5), pode lhe conferir o sentido pleno a que se alma anela.

No acolhimento da vontade de Deus, que deseja que o sacerdote seja todo dele, este homem “divinizado” torna-se, em virtude da sua vocação – e não de suas atividades acumuladas – todo para todos. Esta é a mais alta configuração a que a criatura humana é capaz de chegar, pois este processo dinâmico, profundamente marcado pelo agir divino, através do Verbo encarnado e pela ação poderosa do Espírito Santo, realiza a “criação” do servo, modelado pelo divino artesão como uma peça de barro necessitada de forma e de água.

São vasos de barro, sem beleza que possa atrair (cfr. Is 53, 3-5), mas carrega uma imensidão de tesouros, os quais não lhe pertencem, mas que não chegariam às almas dos filhos de Deus se não através destes simples vasos de barro seco. Eis o insondável mistério do amor e da providência de Deus: na sua humildade, escolhe o que de menor há, para que a grandeza do dom feito seja ainda mais grandemente acolhida, pois apenas a riqueza do Deus que tudo pode dar não se importa em exaltar seus dons com belos envoltos, mas contenta-se com os mais simples invólucros, mesmo que feitos do pó da terra.

“Irmãos, temos um tesouro: o tesouro de Jesus Cristo Salvador. A Cruz de Jesus Cristo, este tesouro do qual nos vangloriamos. Mas o temos num vaso de barro. Vangloriamo-nos inclusive… dos nossos pecados… Jesus Cristo não nos salvou com uma idéia, com um programa intelectual, não. Salvou-nos com a carne, com a concretude da carne. Abaixou-se, fez-se homem, fez-se carne até o fim. Mas somente se pode entender, somente se pode receber em vasos de barro” (Papa Francisco, Homilia na “Chiesa del Gesù”, Roma, 31 de julho de 2013).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva