Guardar a Palavra num coração sincero 

“Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. Ele não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras. Todo o Israel, desde Dã até Bersabéia, reconheceu que Samuel era um profeta do Senhor. E o Senhor continuou a se manifestar em Silo. É ali que o Senhor aparecia a Samuel, descobrindo-lhe sua palavra” (1 Sm 3, 19-21).

 

Elemento essencial para a vida e a existência do cristão é o contato com a Palavra de Deus. Esta constitui a manifestação amorosa do Criador para com a sua criatura racional, realizando o momento específico onde a divindade transcendente se faz conhecer pelo homem criado no tempo e espaço, capaz de compreender o que lhe é revelado e nutrir-se do amor indizível que desta revelação transborda.

Neste sentido, o contato com a Palavra de Deus não pode nunca ser visto como um item opcional na espiritualidade do cristão, mas sim como uma necessidade objetiva e subjetiva, o que significa que o autêntico cristão nutre a própria alma e, com ela, toda a sua vida da Palavra de Deus, consciente que sem ela não possui as condições mínimas para um real seguimento de Cristo e, ao mesmo tempo, sente o gosto da Palavra, seu sabor e sua doçura, almejando recebê-la sempre e degustar com sempre maior intensidade os tesouros da Palavra divina.

No trecho do livro de Samuel acima reportado, encontramos dois elementos de espiritualidade muito significativos. Diz-se que o Senhor “descobria” para Samuel a sua Palavra, e que este não permitia que nenhuma das suas palavras “caíssem por terra”. Ambos estes elementos se encontram nas extremidades do texto lido, como uma espécie de moldura para o versículo colocado ao centro: “Todo o Israel, desde Dã até Bersabéia, reconheceu que Samuel era um profeta do Senhor”. É como se pudéssemos ver que a autoridade profética de Samuel se tornasse acreditada junto ao povo através destes dois fatos: a revelação divina a ele feita; e a sua fidelidade em conservar integralmente a palavra divina revelada.

Em Cristo Jesus, Palavra Viva do Pai feita carne, esta revelação divina alcança a sua plenitude, realizando o desígnio supremo de Deus, a saber, a comunhão plena do ser humano com seu corpo, alma e consciência. Tal comunhão se dá pela aproximação do coração humano ao coração divino de Jesus, o qual infunde a graça do Espírito Santo que do Pai descende, inflamando a alma racional com a chama do amor divino. Tal feito se concretiza em forma radical e definitiva no Batismo, através do qual somos imersos no mistério pascal de Cristo. Tal definitividade batismal da graça não significa inércia, mas sim dinamicidade da graça, a qual conforma o batizado a Cristo, promovendo seu crescimento espiritual e sua abertura às mais diversas e profundas manifestações de Deus.

Esta força divina capaz de transformar o homem por completo se comunica, em particular, por meio da Palavra quando lida, meditada e vivida com sinceridade e pureza de coração.

A Palavra de Deus, assim como para Samuel, também hoje se deixa “descobrir”, tanto em sentido simbólico quando real. Ela é descoberta sempre quando celebramos a Eucaristia, pois no banquete do Senhor, em primeiro lugar somos alimentados com o “pão da Palavra”, motivo pelo qual o livro sagrado é aberto para nós, descoberto aos nossos olhos, e a Palavra divina é proclamada aos nossos ouvidos, entrando em nossos corações. Tal Palavra é também descoberta por nós de forma palpável, quando a meditamos com verdade e amor, deixando que seu significado nos alcance e sua força nos desperte à realidade da fé, da mesma fé que forma e constrói a Igreja em todos os tempos e lugares. Tal epifania não se limita somente à celebração comunitária, mas se realiza também na meditação pessoal e íntima da Palavra de Deus, ainda que este segundo momento não consiga e não deva substituir o primeiro, antes, dele descende e nele encontra sua plenitude de efeito.

“Que Cristo vos ajude, queridos e amados irmãos, a acolher sempre a proclamação da Palavra de Deus com um coração ávido e sedento. Assim, sua obediência fiel vos encherá de alegria espiritual. Mas, se desejais saborear a doçura das Sagradas Escrituras e aproveitar adequadamente os preceitos divinos, deveis subtrair-vos por algumas horas de suas preocupações materiais. Voltai a ler as palavras divinas em seus lares, dedicai-vos inteiramente à sua misericórdia. Deste modo, conseguireis aquilo que está escrito do homem feliz: “Ele medita dia e noite na lei do Senhor” (Sl 1, 2) e também: “Bem-aventurados os que escrutinam os seus mandamentos, aqueles que o procuram com um coração sincero” (Sl 118, 2)” (São Cesário de Arles, Sermão 7, 1).

Partindo do encontro com o Senhor na sua Palavra, os fiéis são chamados a recebê-la com a mesma disposição interior de Samuel, não permitindo que nada dela se perca, nem que seu conteúdo seja erroneamente compreendido ou maliciosamente aproveitado, o que nada mais seria do que uma nova velação do texto com um véu mundano privado da direção transcendental a que o Espírito conduz os autênticos leitores da Palavra.

Desta forma, cada cristão, nutrido pela Palavra divina contemplada e meditada, e pela recepção do Verbo eterno feito carne presente no pão consagrado, se torna presença real da Igreja de Cristo no mundo, arauto da Cruz salvadora e propagador da alegria da redenção operada por Deus. Em tal modo, a Palavra semeada no mundo e colocada no coração dos discípulos de Jesus, pode produzir os abundantes frutos de graça e misericórdia desejados por Deus e anunciados nas Escrituras.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva