O que dá sentido à vida

Cristo Crucificado, Imagem De Jesus, Imagem De Cristo

“O que dá sentido à vida, é a morte!”. Afirmação emblemática, forte e, à primeira vista, repleta de razão. De fato, se olharmos com atenção, o sentido da existência, o que justifica a necessidade de concebermos o tempo como realidade em si mesmo, o que nos garante o valor das boas ações feitas em uma parcela do tempo e espaço destinadas à pessoas concretas e limitadas, tudo isso pode ser considerado obra da consciência que temos da finitude da nossa existência. A certeza da morte, como término da vida, torna-se a chave de leitura de tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, dando uma conotação mais ou menos nobre ao produto da nossa passagem por este mundo.

No entanto, é importante dizer também que este modo de pensar, completamente lógico dentro da sua própria lógica, contém uma significativa parcela de fatalismo na sua estrutura essencial. Isso deve-se ao fato de que considera a vida biológica e psicológica como a linha mestra da existência de tudo o que constitui o universo. Deste modo, procura-se afirmar que o valor das coisas, gestos, atitudes e pessoas, não pode ser encontrado nelas mesmas, mas apenas no fato transcendente da finitude da consciência psicológica armazenada em uma vida biofísica. Em outras palavras, assevera que uma vida sem fim traria consigo o caos da existência, a desmoralização do humano e a desnaturalização de qualquer comportamento não instintivo.

Ilumina-nos o ensinamento da Igreja: “Intérprete autêntico das afirmações da Sagrada Escritura e da tradição, o magistério da Igreja ensina que a morte entrou no mundo por causa do pecado do homem. Embora o homem tivesse uma natureza mortal, Deus o destinava a não morrer. A morte foi, portanto, contrária aos desígnios de Deus criador e entrou no mundo como conseqüência do pecado” (Catecismo da Igreja Católica, §1008). Continua o Catecismo: “A novidade essencial da morte cristã está nisto: pelo Batismo, o cristão já está sacramentalmente ‘morto com Cristo’, para Viver de uma vida nova; e, se morrermos na graça de Cristo, a morte física consuma este ‘morrer com Cristo’ e completa, assim, nossa incorporação a ele em seu ato redentor” (ibidem, §1010).

Mesmo correndo o risco de parecer apressado em tirar conclusões, temos que afirmar com coragem o ensinamento da Igreja, que nos mostra o que dá real sentido à vida: Cristo. E se quisermos ser mais profundos nas conclusões, devemos também afirmar outra grande verdade, a saber, o que dá sentido também à morte: Cristo! É o Senhor Jesus, pelo mistério da sua encarnação na nossa natureza mortal, pela sua vida em tudo semelhante à nossa – exceto no pecado – e pela sua redentora morte na cruz e gloriosa ressurreição, que confere o sentido final à vida humana, dando, ao mesmo tempo, sentido e razão à toda a história.

Conta-nos São Josemaría Escrivá: “Doutor em Direito e em Filosofia, preparava um concurso para professor catedrático na Universidade de Madrid. Duas carreiras brilhantes, feitas com brilhantismo. Mandou-me avisar: estava doente, e desejava que eu fosse visitá-lo. Cheguei à pensão onde estava hospedado. – ‘Padre, estou morrendo’, foi a saudação. Animei-o, com carinho. Quis fazer uma confissão geral. Naquela noite, faleceu. Um arquiteto e um médico me ajudaram a amortalhá-lo. – E, à vista daquele corpo jovem, que rapidamente começou a decompor-se…, estivemos de acordo os três em que as duas carreiras universitárias não valiam nada, comparadas com a carreira definitiva que, como bom cristão, acabava de coroar” (Sulco, n. 877).

Neste sentido, somos chamados, como discípulos de Jesus, a viver o mistério da morte com o olhar novo daqueles que tomaram posse da nova vida, não sendo abalados pela iminência constante do fim da existência física neste mundo, mas animados pela esperança na posse da eternidade. De fato, se refletirmos bem, a morte é apenas uma passagem, um momento de transição. “[As pessoas] temem muito a morte porque amam muito a vida deste mundo e pouco a do outro. Mas a alma que ama a Deus vive mais na outra vida do que nesta, porque a alma vive mais onde ama do que onde anima” (São João da Cruz, Cântico espiritual, 11, 10).

Obviamente, a lembrança de um fim definitivo e eminente, ao qual não podemos opor nossa objeção, e nem atrasar de alguma forma, gera em nosso pensamento a estranha e talvez sombria sensação do medo. Isso não é um problema. Se observarmos bem, até mesmo o Senhor Jesus temeu o momento da morte, chegando a pedir ao Pai que lhe poupasse de beber do cálice. Bem compreensível este diálogo do Senhor com o Pai Celeste. Sente-se nele toda a força destruidora da morte, a vertigem avassaladora da dor, a densa escuridão do sepulcro frio. No entanto, a obediência de Cristo vence tudo isso, o leva ao Pai com aquele amor filial que, hoje, somos chamados a viver e, com ele, morrer, para que nosso caminho rumo à felicidade sem fim não seja longo, ou pior, obstruído.

“Quando vier a morte, que virá inexoravelmente, espera-la-emos com júbilo, como tenho visto que o souberam fazer tantas pessoas santas no meio da sua existência diária. Com alegria, porque, se imitarmos Cristo em fazer o bem – em obedecer e levar a Cruz, apesar das nossas misérias –, ressuscitaremos como Cristo: Surrexit Dominus vere! (Lc 24, 34), que ressuscitou realmente” (São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 21). E dessa forma, coroando a nossa jornada sob o olhar divino, à imitação de tantos santos e santas que passaram por este mundo e conquistaram aquele vindouro, seremos plenos e vivos, para sempre. Amém.

Pe. Everton Vicente Barros

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