É a riqueza de Cristo que socorre a nossa pobreza

“[…] és pó, e em pó te hás de tornar” (Gn 3, 19). Logo no início do livro de Gênesis, após a queda da humanidade no pecado original por tentação da serpente inimiga, o homem se confronta com a sua realidade mais dolorosa e angustiante. Diferentemente da mentira na qual havia acreditado, ou seja, na possibilidade de tornar-se um deus com suas próprias forças, apenas utilizando-se de outra criatura, um fruto, a verdade sobre o homem é que ele é um ser criado, não eterno, não indestrutível, nem absolutamente necessário para a manutenção da ordem cósmica de todas as coisas. Ele, na realidade, é pó, isto é, é uma criatura como as demais, débil e necessitada da presença divina para ser capaz de realizar a sua própria existência de forma coerente e total.

O ser humano não é um fruto de si mesmo, nem um mérito da natureza humana. Ele não se autodescobriu, muito menos se inventou. O homem, em si mesmo, é pobre, mas o é em relação à autêntica forma de pobreza, aquela que não se identifica com a miséria da indignidade, nem com a severidade da injustiça. O homem é pobre, porque desde seu primeiro momento como parte da existência ele é marcado pelo sinal indelével da doação.

Nenhum ser humano pode dizer que se criou a si mesmo, nem que é a causa da vida que ele mesmo possui. Na verdade, todos os homens e mulheres nascem no estado original de pobreza, onde tudo o que se possui é fruto de um dom procurado por outro. Assim, as crianças que nascem nos hospitais nada têm de próprio, mas tudo lhes é doado pelos pais, pelos médicos, pelos enfermeiros, etc. Todos os bens materiais do qual a criança pode usufruir são doações feitas pelos que se importam com ela, sem as quais ela estaria à mercê de si mesma, sem possibilidade de auto proteger-se ou cuidar-se.

Mas existe uma pobreza mais enraizada ainda e mais profunda, que é a pobreza em relação à vida conservada. Ninguém que nasce pode dizer que conquistou a si mesmo a vida, pois ela é, na realidade, um dom feito por Deus através da fecundidade dos pais. Cada homem e mulher que vem ao mundo é uma manifestação da bondade e generosidade de Deus para com a sua criação como um todo e, em particular, para com a sua criatura mais excelente, que se perpetua no tempo e no espaço, multiplicando a natureza humana em sempre novos indivíduos formados à imagem e semelhança com Deus. Desta forma, se vê com clareza o estado de pobreza original do homem, onde tudo nele é dom e dádiva para as conquistas futuras e o progresso da própria criatura humana.

Na Encarnação de Jesus Cristo, Verbo eterno de Deus, se contempla até que ponto chega o desejo de Deus de salvar a humanidade partindo do seu interior. Com a vinda do Verbo na nossa carne, Deus se coloca no mesmo estado de pobreza que todos os demais seres humanos, onde ele, a quem pertencem todas as coisas (cfr. Sl 23, 1-2), passa a nada possuir e de nada poder dispor, nem mesmo uma acomodação simples em uma estalagem qualquer em Belém, pois a humanidade, assim como em seus corações, não permitiu que um pequeno espaço lhe fosse reservado. Assim, São Paulo pode afirmar: “Vós conheceis a bondade de nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo rico, se fez pobre por vós, a fim de vos enriquecer por sua pobreza” (2 Cor 8, 9).

Contemplando o mistério de Cristo, vemos com clareza que a sua situação escolhida de pobreza resume e renova a própria realidade do homem. Jesus compendia em si mesmo, desde o primeiro instante de sua encarnação, a pobreza original do homem de forma completa e totalmente assumida. Ele não escolhe uma princesa de algum dos reinos orientais para ser sua mãe, nem mesmo uma mulher de condições nobres e acomodadas dentro da sociedade judaica da época. A escolha de Deus para a mãe do Verbo encarnado recai sobre Maria, simples e humilde serva do Senhor, de uma família simples e discreta. Tal escolha, ao mesmo tempo em que mostra a humildade de Deus e sua pobreza radical, denota também a nova dimensão tomada pela realidade humana. A pobreza autêntica, aquela que não apenas pesa e faz sofrer, mas a que rouba a dignidade e a vida dos homens, é a pobreza de graça. Tal estado se cristaliza no ser humano a partir do pecado original, dando início à situação desesperadora da criatura racional que não pode pretender de vencer o monstro por ela mesma criado. Sendo concebido no seio de Maria e nascendo dela, Cristo assume a mais perfeita das criaturas como sua consorte na vida, até as últimas consequências, acolhendo o dom preciso da sua fé e do seu amor materno, riquezas que superam de longe qualquer outra pretensão de poder humano, como havia sido cobiçado pelos primeiros pais no Éden.

A pobreza de Cristo, neste contexto, abre os horizontes para a esperança da salvação, pois o Filho unigênito do Pai assume toda a debilidade e pequenez humana para elevar a humanidade ao grau mais alto da criação – coisa já prevista e operada de forma inicial desde o princípio, quando Deus fez o homem à sua imagem e semelhança – e assim, renovar a própria pobreza humana, não mais conformada à decadência da condição servil do pecador escravizado pelo demônio, mas do filho livre e co-herdeiro de toda a riqueza da graça de Deus (cfr. Rm 8, 17).

No mistério de Cristo, a pobreza humana ganha um novo significado: participação da pequenez do Salvador e de sua Santa Mãe, permitindo que os dons imensos da graça divina se derramem sobre cada ser humano da maneira como a divina Providência determinar, na confiança que aquele a quem todo o universo pertence, não permitirá que falte o que ocorre à vida, nem muito menos o que promove o bem supremo, que é a comunhão de vida com o Senhor na bem-aventurança eterna.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva