Dormindo com o verdadeiro inimigo

 

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“Não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento. Não deis lugar ao demônio” (Ef 4, 26-27). Esta forte e direta exortação do Apóstolo coloca os cristãos diante de um grande e iminente perigo, sempre a espreita ainda que, ao mesmo tempo, por diversas vezes, desconsiderado pela nossa espiritualidade pessoal.

A preocupação de São Paulo quando dirige estas palavras aos efésios é concebida a partir do conhecimento da alma humana, sempre inclinada ao mal, em função da concupiscência nela contida. Em contemporâneo, São Paulo sabe que aqueles que foram resgatados por Cristo no Batismo podem gozar de uma nova liberdade, a liberdade filial conquistada pelo Filho bendito no alto da cruz. Esta nova realidade de vida é o que ele chama de vida dos “santos”, ou seja, um modo de vida que se identifique com a excelência do dom divino recebido, ao mesmo tempo em que expressa, por palavras e obras, este mesmo dom, para que o próprio viver do cristão seja um perene testemunho da maravilhosa obra nele realizada por Deus.

No entanto, o Apóstolo sabe também que não existe vida cristã sem um constante combate espiritual, que tem como objetivo central manter intacta a vida nova recebida no batismo. Este é sempre um grande desafio, mas isso não significa que deve ser demasiado difícil, pois a favor dos que foram regenerados em Cristo está a graça santificante concedida pelo Espírito Santo em seus corações.

Um elemento de extrema importância, todavia, já havia sido confirmado pelo Senhor Jesus no Evangelho, quando exorta aos discípulos acerca da vigilância, necessária para que não se caia em tentação (cfr. Mt 26, 41). A luta contra o pecado está sempre presente na vida dos cristãos, mas o perigo que o segue é ainda pior do que o pecado em si. De fato, ao pecar, ofendemos a Deus de uma forma brutal e sem justificativa, pois é a recompensa que damos ao amor infinito daquele que se fez tudo por nós. Diante da realidade do pecado, a maior certeza que a Escritura nos dá é a misericórdia divina, capaz de todos os esforços para reconciliar a alma manchada pelo pecado com o divino coração, reestabelecendo a paz que o Cristo veio instaurar (cfr. Ef 2, 14).

Devemos dizer, porém, que a consequência que pode seguir-se ao pecado é ainda pior, mesmo diante de Deus, pois essa se identifica com a condenação eterna de uma alma a causa do seu enrijecimento no pecado. Isso acontece quando uma pessoa, determinada a viver em um estado latente de pecado, foge aos esforços divinos direcionados à sua conversão, como se o filho pródigo se recusasse acolher a iluminação recebida quando se encontra no mais baixo nível da existência, preferindo continuar entre porcos, lama e lavagem, à retornar para a casa paterna.

Esta triste possibilidade é bem real. Ela consiste na aceitação da permanência do pecado na vida daquele que é templo do Espírito, de forma habitual e dinâmica, isto é, ainda determinantemente forte na alma do homem. A vigilância, exortada pelo Senhor aos discípulos justamente quando estes estavam dormindo, nos recorda a importância de mantermos nossa alma sempre pronta para a luta em prol de nossa salvação. De fato, não nos é impossível pecar, pelo contrário, é sempre uma triste e angustiante possibilidade que se nos apresenta, à qual devemos dar uma resposta pronta de rejeição. De forma semelhante, quando, por desgraça, ocorre a um filho de Deus cair em pecado grave, este deve ser imediatamente vencido, o que acontece com o profundo arrependimento diante de Deus por causa do mal cometido, o sincero empenho em converter aquele erro, a tenaz decisão de não voltar a cometê-lo, e, assim que possível, buscar a reconciliação sacramental através do sacerdote de Cristo.

A exortação do Senhor acerca da vigilância nos coloca diante dos olhos a necessidade de não nos deixarmos adormecer diante do perigo do mal, sendo que nossa alma deve estar sempre pronta para a luta, unida ao coração de Deus. Isso também é válido para se evitar um risco que pode se tornar crescente em uma alma que se deixa conduzir com facilidade pelas instigações do inimigo, que é a procrastinação da conversão diante de um pecado grave. Uma pergunta: quem de nós conseguiria dormir tranquilamente a noite toda, tendo sobre o peito uma serpente venenosa? Difícil imaginar uma cena semelhante, não? Pois aquele que se deita em estado de pecado grave, sem ter buscado a conversão interior, com uma sincera contrição, assume essa postura inimaginável e, podemos dizer, insana, uma vez que se decide a dormir com o inimigo, acolhido em seu regaço, demasiada e tolamente confiante de que nada lhe acontecerá naquela noite. No entanto, não é o próprio Jesus quem diz: “Insensato! Esta noite mesmo te pedirão a tua alma”? (Lc 12, 20).

A este respeito, reflete sabiamente Santo Afonso: “Assim, pois, cristãos, quando o demônio te provoca a pecar, pretextando que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? […] Diz o demônio que tal desgraça não nos há de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?” (Preparação para a morte, Consideração V).

Não deixemos que os enganos de potência com os quais o mundo e o demônio tentam nos enganar consigam sua vitória. Conquistemos, porém, a doce e sublime vigilância sobre nós mesmos, desejando ardentemente ao Senhor, almejando a alegria do céu sempre e em todas as ocasiões. E, ainda que o dardo inflamado do maligno nos atinja, não hesitemos um só instante em buscar o divino remédio para nossas almas, valendo-nos do hoje que nos foi dado para a nossa conversão, sem nunca rifar a eternidade em prol de uma satisfação passageira e fugaz.

Afirma ainda o santo bispo de Nápolis: “O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, mas não na outra, nem no céu, nem no inferno. É este o grito dos condenados: Oh! se tivéssemos uma hora!”… Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada” (idem, Consideração XI). Assim sendo, não deixando que o sol se ponha sobre nossos erros, não demos, um minuto que seja, do nosso precioso tempo ao inimigo de Deus, que apenas quer nos fazer perder tempo.

 

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva