Consagrados na verdade

“Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade”
(Jo 17, 17).

Esta famosa oração foi proferida pelo Senhor Jesus no Horto das Oliveiras pouco antes que chegassem os soldados do sumo-sacerdote, guiados por Judas Iscariotes, para leva-lo preso e dar início, assim, à Paixão de Cristo. As palavras de Jesus ao Pai, como último desejo antes da morte, se identificam na realidade com a oração oferente do sacerdote que deposita diante de Deus suas intenções ao realizar o sacrifício. Neste caso, a oferta que se fazia consiste na maior de todas, onde o próprio Filho Unigênito de Deus se entrega ao Pai pela redenção do mundo, qual cordeiro sem mancha que assume o lugar do homem pecador, assim como o pequeno cabrito assumiu o lugar de Isaac no sacrifício de Abraão em Moriá. Neste contexto vemos que a oração de Jesus assume uma solenidade particular, sendo até mesmo reportada por São João, coisa que não acontece com frequência na narração dos evangelistas. Este pedido de Jesus ao Pai resume – grosso modo – toda a oração sacerdotal de Cristo no horto, pois a mesma culmina com a afirmação “Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados de verdade” (Jo 17, 19). Sendo assim, Cristo se consagra ao Pai, isto é, se entrega, se oferece, em atitude sacrifical, a fim de que os homens sejam consagrados na verdade, que não podemos entender como uma alusão simples à capacidade de dizer coisas autênticas, e sim a oportunidade de ser imersos dentro do mistério profundo da vida e da existência de Cristo como Verbo eterno encarnado, ele que é a Verdade (cfr. Jo 14, 6). “E não é porventura Ele a Palavra viva de Deus, à qual todas e cada uma das outras palavras fazem referência? Assim, consagra-os na verdade quer dizer, fundamentalmente: torna-os um só comigo, Cristo. Une-os a Mim. Atrai-os para dentro de Mim. […]nir-se a Cristo supõe a renúncia. Comporta não querermos impor a nossa estrada e a nossa vontade; não desejarmos tornar-nos isto ou aquilo, mas abandonarmo-nos a Ele em todo o lado e modo como Ele quiser servir-Se de nós” (Bento XVI, Homilia na Missa Crismal, 09 de abril de 2009).

Desta forma, aqueles são unidos a Cristo pelo Batismo – que é a conformação ao mistério pascal de Jesus que nos redime dos pecados – se torna um consagrado nesta verdade que é ele mesmo. Consequentemente, um cristão deve ter toda a sua vida conformada à verdade, qual testemunha autêntica da mais perfeita e clara palavra do Pai, que é Cristo, o Verbo encarnado, “Caminho, Verdade e Vida” (Jo 14, 6).

Diante desta certeza fica evidente que um cristão não consegue viver esta consagração sublime na Verdade e, contemporaneamente, dar-se ao seu contrário, ou seja, viver a mentira, pois a mentira além de ser produzida pela maldade e pelo desejo escuso de enganar, conhece ela mesma uma raiz maligna, que é o Diabo. Sobre os que se dão à mentira e à enganação Jesus denuncia: “Se Deus fosse vosso pai, vós me amaríeis, porque eu saí de Deus. É dele que eu provenho, porque não vim de mim mesmo, mas foi ele quem me enviou. Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Mas eu, porque vos digo a verdade, não me credes” (Jo 8, 42-45).

Um cristão – nova criatura recriada através do amor insondável de Deus manifestado no sacrifício de Cristo – deve fugir ao mal da mentira, visto que esta é uma obra eminentemente demoníaca, pois foi pela mentira que o Tentador enganou nossos primeiros pais no Paraíso (cfr. Gn 3, 1-6). Um filho ou uma filha de Deus não pode permitir-se consagrar pela mentira tendo sido uma vez consagrado pela verdade.

Tendo dito isso, resta afirmar que a mentira possui também a capacidade de tornar-se facilmente um vício no qual se entra e se perde sem aperceber-se. Isso por que a mentira pode ser vista como uma solução fácil para um problema difícil, onde, diante de uma situação em que se corre o risco de perder um bem moral (boa fama, prestígio) ou material (um produto com preço baixo ou algo semelhante), conta-se uma mentira que dá a sensação que tudo esteja resolvido e assegurado. Tal façanha gera a ilusão que tudo pode ser solucionado com a mentira, mas muito cedo ela se mostra fraca – pois tem “perna curta”, como dizem os mais velhos – e o mentiroso precisa contar uma segunda mentira para poder sustentar ainda a primeira, o que gerará uma terceira para sustentar a segunda e assim por diante, escravizando o mentiroso e mantendo-o nas mãos do pai da mentira.

Os discípulos de Jesus, no entanto, são chamados à liberdade completa e autêntica, como afirma São Paulo: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1), e esta liberdade se dá através da consagração à Verdade, que é Jesus, aquele que redime o homem e o coloca em comunhão de amor com Deus de forma estável e permanente; aquele que verdadeiramente nos salva e liberta do mal: “Conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres” (Jo 8, 32).

“O esplendor da verdade brilha em todas as obras do Criador, particularmente no homem criado à imagem e semelhança de Deus [cfr. Gn 1, 26]: a verdade ilumina a inteligência e modela a liberdade do homem, que, deste modo, é levado a conhecer e a amar o Senhor. Por isso, reza o salmista: ‘Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz da vossa face’ [Sal 4, 7]” (São João Paulo II, Veritatis splendor, 1). Assim sendo, somos chamados a viver apenas a verdade para sermos, de fato, livres.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva