Um selo de qualidade para as férias

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O domingo não é um dia como os demais dias! Na verdade, o domingo possui em si mesmo uma mística toda particular em virtude do grande acontecimento nele contemplado e que se renova em cada semana para os que creem no Cristo Ressuscitado. De fato, como nos ensina a Igreja, a celebração do dia do Senhor vai além da participação da Santa Missa festiva celebrada nas igrejas do mundo inteiro. Obviamente, a celebração eucarística é o centro gravitacional da importância do domingo, mas é também a fonte de onde jorra todo o sentido e significado deste dia singular e único.

Dentro da vivência dominical, desde os primeiros séculos do cristianismo, após a sua aceitação por parte do Império Romano e seguinte adesão, o primeiro dia da semana, o dia do Sol, passou a ser também o dia semanal do descanso para toda a população, principalmente para os cristãos, que podiam então reservar-se para as comemorações realizadas neste dia solene em honra da ressurreição do Senhor Jesus. Explica o Papa Francisco: “Foi o sentido cristão de viver como filhos e não como escravos, animado pela Eucaristia, a fazer do domingo, quase universalmente, o dia de descanso” (Audiência geral, 13.12.2017). E é neste sentido filial que todo o descanso cristão deve ser vivido.

O descanso, qual elemento necessário para as atividades realizadas pelo ser humano – e não somente – ganha um sentido maior, um significado mais sublime pela luz que é irradiada pelo domingo. É dia de uma profunda alegria, aquela que transborda dos corações e renova as forças. Por isso o descanso torna-se mais que um mero momento de ócio infecundo ou frenesia de diversões. “O domingo é tradicionalmente consagrado, pela piedade cristã, às boas obras e aos serviços humildes dos doentes, enfermos e pessoas de idade. Os cristãos também santificarão o domingo prestando à sua família e vizinhos tempo e cuidados difíceis de prestar nos outros dias da semana. O domingo é um tempo de reflexão, de silêncio, de cultura e de meditação, que favorecem o crescimento da vida interior e cristã” (Catecismo da Igreja Católica, § 2186). Vemos, portanto, que o descanso dominical cristão não se identifica em nada com o baixo costume da escravidão midiática – pela televisão ou pela internet –, nem com a necessidade de encontrar inúmeras atividades para preencher o dia, quase que para fazer esquecer que este dia é consagrado a Deus e não a nós.

Neste sentido, as férias, qual tempo propício de delongado descanso, deveriam ser para os cristãos uma prolongação do descanso dominical, promovendo a prática do bem da caridade, feita aos que mais necessidade têm, a reserva de tempo adequado para o descanso físico e mental, através de momentos de silêncio e introspecção, ou mesmo de uma justa e bem medida convivência fraterna, e também a restauração espiritual, pois nossa alma se cansa ao longo do suceder dos dias de luta espiritual na busca pela santidade.

O período de férias, além de promover tudo isso, nos dá também a oportunidade de uma maior dedicação àqueles que estão ao nosso redor, que amamos e que nos amam, e mesmo àqueles que não nos querem tanto bem, mas a quem temos o dever de querer bem. Quantas vezes os pais e mães se culpam pela falta de tempo útil e descontraído junto à seus filhos? Sem dúvida uma relação de pai e filho que se limita à avaliação do dia transcorrido com suas consequentes correções não pode ser vista como promissora. E o que dizer de um casal de namorados que passa o ano todo planejando um matrimônio futuro, mas o faz todo por um aplicativo de celular, pois “os horários não batem para encontrarem-se”? As férias poderiam – e deveriam – ser o tempo oportuno para o maior conhecimento, uma maior experiência de amor e unidade, pois sobre esses alicerces a futura casa deverá ser construída.

Acerca do descanso das férias, uma coisa é essencial que seja dita. Como a própria palavra procura expressar, descansar significa tirar o cansaço. Portanto, para que alguém descanse é necessário que tenha feito algo anterior que a tenha deixado cansada. Sabemos, existem várias formas de cansaço, mesmo aquelas psicológicas que não exigem uma atividade anterior para esgotar uma pessoa. No entanto, aqui nos referimos, realmente, à necessidade de que alguém se tenha desgastado no trabalho honesto e generoso para que seja merecedor do descanso. Claro, viver nesta época em que nos encontramos, onde a busca de direitos por parte dos indivíduos beira a mania, falar em merecimento das férias pode soar um apelo contra a “justiça do trabalho”. Porém, a autêntica justiça não está na divisão total dos direitos dados a todos por igual – isso é marxismo! – mas sim na colaboração de todos pelo bem comum, promovendo o crescimento do conjunto e gerando o bem-estar geral. Neste segundo sentido, todos se cansam por ter ajudado e, assim, é justo que todos tenham o digno descanso merecido e salvaguardado. “Quem não quiser trabalhar não tem o direito de comer. Entretanto, soubemos que entre vós há alguns desordeiros, vadios, que só se preocupam em intrometer-se em assuntos alheios. A esses indivíduos ordenamos e exortamos a que se dediquem tranquilamente ao trabalho para merecerem ga­nhar o que comer. Vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” (2 Ts 3,10-13). Querer descansar sem ter dado a contribuição do próprio cansaço não é esperteza, é hipocrisia.

Por fim, as férias devem trazer consigo um selo de autenticidade quando se retorna delas: o melhoramento. Quem tira férias deve voltar delas revigorado no seu empenho pelo bem comum, pois descansou e restabeleceu suas forças; deve voltar com um novo sentido do amor fraterno a ser dado a todos com os quais convive, para ser uma testemunha ainda mais fiel de Cristo; deve voltar com uma maior e mais consistente paz interior, capaz de transmitir tranquilidade e paciência, pois desligou-se das amarras de agitação que o consumiam; deve voltar mais sábio, com a mente aberta e refrescada pela contemplação da criação, pelo silencio do coração e pela renovação da leitura; deve voltar cheio do Espírito Santo, restaurado na sua vida espiritual, pois não tirou férias, mas se fez ainda mais próximo dele, tendo ainda mais tempo para com ele estar e dele receber o sentido para toda a sua existência.

Que nossas férias sejam marcadas por essa catolicidade, para que sejam também seladas pelo Espírito Santo e nos façam crescer no amor. Amém.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva