Como está a sua amigoteca?

Antes de ingressar na temática que te interessou neste texto e te fez ingressar nesta página, é muito conveniente detalhar um pouco o sentido e o objetivo do uso desta comparação alegórica entre os amigos que temos e uma coleção ordenada, neste caso preciso, identificada com uma biblioteca.

Um amante de livros se sente revigorado e animado com grande ardor ao simples e discreto contato com estes pequenos seres inanimados e mudos, que comunicam o pensamento humano desde os primórdios da civilização, tendo vivido diversas evoluções, mantendo sempre seu charme e sendo apreciados por gerações sem número. Para um leitor inteligente, o contato com os livros não determina apenas o seu relacionamento com o mundo e a cultura ao seu redor, mas é capaz de produzir um fruto excelente de introspecção e evolução pessoal, gerando assim um crescimento da vida individual a serviço da coletividade e uma maior compreensão do ser humano e do cosmo. Uma tal riqueza não poderia que ser considerada incalculável.

A importância e o valor dos livros podem muito bem ser compreendidos se olharmos para os exuberantes exemplos históricos, tais como a grandiosidade da Biblioteca de Alexandria – uma das sete maravilhas do mundo antigo – ou a imensa coleção de textos antigos e documentos preciosos guardados nos Arquivos do Vaticano; ao mesmo tempo, este imenso valor dos livros pode bem ser visto e apreciado em situações muito mais modestas, como em uma biblioteca de uma casa de formação sacerdotal, ou em uma estante de livros disponíveis aos alunos de uma escola pública, ou mesmo nos livros infantis que uma mãe guarda em casa, e que um dia foram lidos para os filhos que, hoje formados como profissionais na sociedade, aprenderam a sonhar e a crescer com histórias simples e cheias de ensinamentos.

Os livros são uma riqueza. Uma biblioteca, uma sala do tesouro. O leitor, um feliz soberano de bens preciosos e incalculáveis. Por toda esta grandeza, quem possui uma biblioteca cuida de cada livro com estima. Existem aqueles livros que são mais queridos, pois trazem consigo uma história além daquela impressa com tinta entre as páginas; existem aqueles importantes pelo conteúdo, pois sempre têm uma resposta certa para a pergunta que surge; estão lá também aqueles que já foram lidos e com os quais o contato já não é frequente, o que não significa que a lembrança não seja viva e o carinho autêntico; e existem aqueles mais parados, menos lidos, sobre os quais a poeira dos dias de quietude se debruça com presença maior, mas não porque pouco vistos são menos apreciados, pois ainda que sua presença seja a mais discreta, a sua ausência seria um grande vazio.

“Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”, frase típica de cartões de amizade e status em mídias sociais para o dia do amigo, mas é mais salutar ouvirmos o que nos diz o texto bíblico por inteiro: “Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé. Um amigo fiel é um remédio de vida e imortalidade; quem teme ao Senhor, achará esse amigo. Quem teme ao Senhor terá também uma excelente amizade, pois seu amigo lhe será semelhante” (Eclo 6, 14-17).

Mais preciosos que uma infinidade de livros são os amigos que a Divina Providência coloca no caminho de cada um, pois estes nos mostram o valor supremo do amor que se difunde e se conserva. Se difunde, porque nenhuma amizade verdadeira pretende a exclusividade ou o monopólio afetivo, mas se alegra que muitos outros amem o amigo que se ama; se conserva, pois a amizade gera em ambos um amor que não estraga e não se corrompe, que não deixa de brilhar, ainda que escondido pelo tempo ou ocultado pela dor da decepção.

Neste sentido, cada um deve possuir e curar com afeto e dedicação sua própria amigoteca, cultivando com alegria e estima os amigos mais próximos, aqueles que sempre trazem algo para partilhar e oferecer, recebendo com apreço sua presença e retribuindo com amor o amor que se aufere; devemos acolher com estima os amigos que nos corrigem e ensinam, sem medo de nos dizer o que pensam, pois estes são os que com maior boa vontade nos escutam em nossas crises e nos aconselham em nossas dúvidas; atenção semelhante se deve ter com aqueles amigos que a vida aproximou e o tempo distanciou, os quais imprimiram um sinal de afeto em nossos corações que nem o tempo, nem a distância são capazes de fazer desaparecer; e por fim, mas não menos importante, devemos apreciar e cuidar com devoção dos amigos que somem, isto é, aqueles que não estão sempre presentes, que não são os mais comunicativos ou que até mesmo se esquecem de se mostrarem vivos em datas importantes, pois estes são capazes de realizar algo que os demais talvez façam menos: eles nos surpreendem.

Cuidar dos amigos, além de prazeroso, é um dever, visto que a verdadeira amizade carrega sempre uma marca especial daquele que é o Grande Amigo da Humanidade, o qual dispôs que estes fossem os companheiros para o caminho, uns para nos ajudar a caminhar e sermos perseverantes, outros para nos acolher nas moradas eternas quando esta peregrinação terrena terminar.

“São dignos da nossa amizade aqueles que trazem consigo os meios de se fazer amar. Homens raros! De resto, tudo que é bom é raro e nada é mais difícil do que achar alguma coisa que seja em seu género perfeita em tudo. […] Cada um ama-se a si mesmo, não para exigir prêmio da sua própria ternura, mas porque naturalmente a sua própria pessoa lhe é cara. Se não existe alguma coisa de semelhante na amizade, não se achará nunca um verdadeiro amigo; porque um amigo, é um outro nós mesmos” (Marcus Cícero, Diálogo sobre a Amizade).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva