Castidade: a luta pelo amor

 

 

A virtude é um hábito bom, assim como o vício é o hábito mal. Ambos, portanto, têm algo em comum, isto é, a contumácia; mas ao mesmo tempo possuem também algo no seu ser constantes que os difere drasticamente: o vício implica uma necessidade quase irracional delineada no interior da vontade humana, tornando-se uma exigência e, desta forma, também uma obsessão; por sua vez a virtude é também decorrente da constância, porém ainda mais informada pela obstinação, pois a virtude implica luta, enquanto o vício obriga ao rendimento e à derrota. Destarte, apenas com um princípio de virtude e a colaboração da graça divina uma pessoa pode vencer o vício que em si estiver enraizado.

Uma das tantas virtudes que podemos viver e fazer crescer em nós é a castidade, elemento essencial para o amor verdadeiro, pois o amor precisa da liberdade para acontecer e somente onde há liberdade há amor sincero. Desta forma apenas com a vida de castidade, ou seja, uma vida de pureza e de luta pela liberdade para amar, é que se pode viver realmente o amor. Não podemos esquecer que o amor tem uma fonte (“Deus é amor” [cfr. 1Jo 4, 8]) e um modelo de excelência (“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” [Jo 13, 14]). São João Paulo II, ensina-nos: “A castidade só pode ser pensada em associação com a virtude do amor. Sua função é libertar o amor da atitude utilitarista. […]a castidade é uma conquista difícil, de longo prazo; deve-se esperar pacientemente para que dê seu fruto, pela ternura amorosa que deve trazer. Mas, ao mesmo tempo, a castidade é o caminho certo para a felicidade” (Karol Wojtyla, Amor e responsabilidade, 169.172).

A castidade é sinônimo de liberdade e de perfeição. É sinônimo de liberdade porque gera naquele que a cultiva a capacidade de autocontrolar-se e de autogerir-se, sem que suas emoções ou impulsos naturais tenham o domínio de suas decisões, e também porque conduz o indivíduo à doação de si no amor, numa descentralização da própria atenção e do próprio afeto em benefício dos outros, sem prejulgamentos ou ânsia de recompensa. E é sinônimo de perfeição por dar ao que vive castamente a disponibilidade necessária para desligar-se deste mundo passageiro e abraçar aquilo que é o eterno que nos aguarda no céu, quais homens e mulheres renovados segundo a imagem do Cristo Ressuscitado (cfr. Col 3, 1-5).

Para combater pela castidade, São Josemaria Escrivá oferece um conselho que contém sete elementos essenciais para vencer a batalha:

Vigilância. Tal conselho também foi dado pelo Senhor nos momentos da mais árdua luta que deveria ser travada (cfr. Mt 26, 41). Ser vigilante indica aquela determinação em não deixar-se atrair pelo mal exposto em suas tentações, seja qual for o momento em que estas aparecerem.

Fuga. Esta é a força dos fracos, ou seja, de todos. É aquela certeza da própria limitação diante de uma grande tentação, que nos conduz à fugir ao pecado para não sucumbir às insinuações do maligno.

Continência do olhar. Atenção de não dispersar o olhar sobre tudo e todos, que pode até mesmo vir com a máscara da prontidão, mas que pode ocultar a presunção que gera a impureza das janelas da alma. “Não digais que tendes almas puras se tendes olhos impuros, porque os olhos impuros são mensageiros dum coração impuro” (Santo Agostinho, Epístola 211, 10).

Mortificação. Sabemos que dentro de nós existe um homem velho ou uma mulher velha que luta contra o novo que, em Cristo, nasce para a vida eterna. Mortificar a carne é diminuir a força deste inimigo interior para dar mais espaço ao novo de Deus em nós.

Disciplina. Esta é uma das principais características daquele que deseja ser discípulo, pois conduz a viver em ordem e bom senso as etapas da vida cristã, desagregando as inércias que criamos com nossa falta de entusiasmo pelas coisas espirituais. É um excelente antídoto para a tibieza.

Jejum. Mesmo sendo uma forma de mortificação, pode-se falar do jejum em separado justamente por causa da sua característica principal: ele nasce do amor a Deus e se reversa no amor ao próximo. Sabemos que o jejum verdadeiro é aquele onde deixamos de aproveitar do prazer sensível dado pelo alimento para socorrer os que mais precisam, fazendo assim com que o ato de submeter a nossa vontade ao amor de Deus em nós nos ensine a amar ainda melhor também os irmãos.

Por último, ainda que não exatamente um elemento citado em positivo como os anteriores, São Josemaria recorda a importância do amor a Deus, forte e destemido, consolidado e sedimentado em uma vida de oração sincera e profunda, sem o qual nenhum destes atos de piedade e ascese adquirem seu fundamento verdadeiro.

Assim se expressa o santo fundador do Opus Dei: “A santa pureza: humildade da carne! Senhor – pedias-Lhe -, sete chaves para o meu coração. E aconselhei-te que Lhe pedisses sete chaves para o teu coração e, também, oitenta anos de gravidade para a tua juventude… Além disso, vigia…, porque mais depressa se apaga uma fagulha do que um incêndio; foge…, porque aqui é uma vil covardia ser “valente”; não andes com os olhos esparramados…, porque isso não indica ânimo desperto, mas insídia de satanás. Mas toda essa diligência humana, junto com a mortificação, o cilício, a disciplina e o jejum, que pouco valem sem Ti, meu Deus!” (São Josemaria Escrivá, Sulco, 834).

A luta pela castidade precisa ser vista como um verdadeiro combate, onde apenas os que estiverem sob a bandeira da Cruz do Salvador colhem forças suficientes para lutar até o fim, sendo fiéis, custe o que custar.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva