A pobreza mais cruel

A realidade do homem enquanto criatura determina sua existência como um ser essencialmente receptivo, visto que desde o primeiro instante desta existência ele recebe o que precisa para tal. Assim, cada ser humano é por natureza pobre, isto é, recebe como dom os elementos mais essenciais para a vida e a sua manutenção e desenvolvimento. Esta é a realidade mais intensa do homem: ele recebe a vida como dom.

Se deve dizer também que existe, no entanto, uma condição de pobreza que não se harmoniza com esta que acabamos de enunciar. A pobreza mais cruel e degradante a que um ser humano pode ser submetido é aquela decorrente do pecado, pois tal condição não apenas rouba do homem sua vida espiritual, mas também determina sua relação com Deus em primeira pessoa, o que traz sérias e devastadoras consequências para a criação na qual o homem vive.

“E disse em seguida ao homem: ‘Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar’. […] O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra donde tinha sido tirado” (Gn 3, 17-19.23).

Neste texto de Gênesis vemos o que acontece ao homem em seguida à sua desobediência ao comando divino, como ele se oculta aos olhos de Deus e passa a provar medo diante da possibilidade de encontra-lo (cfr. Gn 3, 1-13). Tal é a principal e mais desastrosa consequência do pecado: a subtração da vida beata junto a Deus e a inimizade criada em relação do divino e sua ação na criação. A expulsão do paraíso não deve ser vista como um ato de ira da parte de Deus, quase como se o Eterno pudesse cultivar sentimentos humanos que são típicos de uma alma perturbada pelo pecado. A saída do casal primitivo do paraíso indica a realidade concreta do pecado em suas consequências. Este elimina o laço de amizade entre Deus e a criatura racional, enfraquece o desejo da alma pelo Criador e ofusca por completo a capacidade do ser humano de ver e contemplar a beleza da criação com a pureza de um coração permeado pela graça santificante.

Uma condição como aquela do homem imerso no pecado é a da mais baixa dignidade e da mais extrema pobreza. Pelo pecado, o ser humano perde  Deus, a suma e inestimável grandeza; perde a riqueza da criação, feita boa pelo Deus bom, assumindo o papel de simples cultivador quando antes era o senhor da criação divina; o homem se torna privado de si mesmo e da comunhão de vida íntima com os demais seres humanos, considerando a si mesmo como instrumento de mera busca de satisfação e os demais, simples meios de auto realização pessoal.

Desta forma, a situação catastrófica a que o homem se submete pelo pecado, comporta sérias consequências sobre todo o criado. A maldição lançada sobre a terra não deve ser entendida como fruto de uma deliberação divina, quase confinante com a loucura, onde o mesmo Deus que cria tudo bom e que elogia sua criação se divirta em seguida derramando sobre ela uma praga de destruição e inanição. Escutando São Paulo, entendemos que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23); e também que “a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8, 20-21). Assim sendo, se torna claro perceber que o pecado fere toda a obra que Deus fez, e fez com bondade para que fosse boa, e o é, de fato (cfr. Gn 1, 31).

A triste realidade subsequente a esta que acabamos de ver é que, além de destruir a relação do homem com Deus, o pecado arruína também as relações fraternas entre os homens, deixando com que o egoísmo e a sede de domínio tomem o primeiro lugar na mente e nas ações concretas da humanidade pecadora. Eis o principal motivo de vermos tanta dor e sofrimento injusto espalhado pelo mundo. Eis a razão obscura e sínica pela qual tantos homens abastados de bens deterioráveis e corruptíveis se arvoram o direito de se considerarem mais importantes que outros, impondo suas ideias e vontades, danificando as próprias convicções humanas sobre a verdade, instigando mentiras e promovendo a degradação da dignidade humana em todos os setores possíveis da existência.

Neste exato momento, enquanto refletimos sobre essas linhas, muitas pessoas pelo mundo afora sofrem a triste dor da fome insaciada e da sede dessedentada, sem que nada seja feito para reverter esse quadro melancólico. Mas é igualmente triste saber que um dos maiores motivos para esta realidade não mudar é o fato simples que alguns poucos poderosos permanecem confortáveis em suas poltronas reclináveis, muito ocupados em determinar a extinção de tantas vidas, desde que isso seja proveitoso para seus interesses escusos de dominação mundial. Aqui vemos o grande e avassalador poder mortífero do pecado, que nunca se contenta em destruir apenas uma vida, mas que deseja sempre a destruição de todas quantas puder.

Em uma situação como esta, em que parece que nada podemos fazer para vencer, o Senhor se coloca ao nosso lado, como valente vencedor, pronto a manifestar na vida de todos os homens a sua vitória sobre o pecado e a morte, realizando assim o desígnio salvador de Deus (cfr. Ap 6, 2). Ele é a nossa esperança e a nossa certeza de vitória contra o mal e toda a morte espalhada pelo mundo pela pior de todas as pobrezas: a pobreza de Deus, que é gerada pelo pecado e pela morte da alma. Cristo é o vencedor do pecado. Ele é a nossa vitória!

“Não chores! Venceu o Leão da tribo de Judá, o descendente de Davi” (Ap 5, 5).

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva