A pobreza que redime

A entrada do pecado no mundo, gera a consequente destruição dos laços de amor filial do homem criado à imagem e semelhança de Deus com o seu Criador, e também da ruptura da ligação fraterna existente entre os seres humanos, transformados pelo pecado em indivíduos isolados e com pretensões de independência absoluta. Tudo isso forma o quadro dramático da situação da mais alta pobreza a que o homem pode ser submetido: a miséria decorrente do pecado, que rouba a felicidade autêntica e a substitui por ilusões fugazes e sonhos irrealizáveis de domínio infinito, sobre si e sobre os demais.

A cura para a humanidade fadada à brutal auto aniquilação seguida da condenação eterna em força da sua condição de pecado foi dada por Deus, que nunca desiste da sua criação. Este determinou a salvação do gênero humano através da obra redentora do seu Filho unigênito, que fez-se homem para redimir os homens, abraçando a condição frágil da carne humana, consumindo no seu infinito amor ao Pai e a nós, toda a miséria do pecado, garantindo aos redimidos a bem-aventurança eterna.

Cristo, pelo seu mistério, revela-nos o amor do Pai, e o faz da forma mais sábia possível, redimindo a pobreza humana com uma vida de total desapego daquilo que pertence a este mundo, vivendo e ensinando a viver a autêntica vida dos filhos de Deus, ou seja, uma existência que se realiza na pobreza do que é transitório para a conquista daquilo que é eterno. Assim diz São Paulo: “Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8, 9). A pobreza de Cristo das coisas deste mundo tem como objetivo indicar a sua grande e incomensurável riqueza dos bens realmente valiosos: o amor do Pai e a comunhão de vida com ele e com toda a sua obra. Assim sendo, também a vida dos homens deve se configurar com aquela vivida pelo Filho, uma vez que a nossa pobreza, redimida pela pobreza de Cristo, alcança sua nobreza com o assumir a riqueza do Senhor e, com ela, todos os imensos bens celestes.

Uma tal realidade está longe de poder ser vista como utópica ou esgueirada da concretude do cotidiano. Esta visão remete ao estado original do homem, criado e detentor de bens que não são fruto de uma conquista pessoal, mas apenas dons concedidos por uma vida e comunhão de vida que lhe é anterior. Desta forma, viver na pobreza de Cristo não indica tomar parte da mesquinhez do pecado que impulsiona os homens ao egoísmo e a incapacidade de doar-se em favor de outros. Pelo contrário. A Pobreza de Cristo mostra o real caminho de toda a humanidade, necessitada de redenção e objeto do amor e da bondade de Deus, virtudes estas que todos são chamados, por natureza, a exercitar e fazer frutificar nesta vida.

Ensina o Santo Padre: “Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na beira da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre” (Francisco, Mensagem para a Quaresma, 2014).

A grande e exuberante riqueza a que devemos tender e que devemos buscar com afinco é o próprio Senhor Deus, pois nele todo o bem se concentra e a felicidade não se esvai com a influência do mundo. Somente com uma vida centrada em Cristo, autor e mediador da nossa salvação, somos capazes de conhecer a perfeição da nossa existência sem que as rachaduras do pecado se entreponham entre nós e a plenitude da vida. As riquezas deste mundo não são tão valiosas como parecem, nem tão prazerosas de se possuir, pois não raramente aprisionam o coração e impedem a perfeição da caridade. Portanto, para possui-las, necessário é um coração que já pertença todo a Deus, para que não se dê como escravo a coisas inanimadas ou a pessoas mal intencionadas. Somente o amor pode ser a medida do possuir. E apenas um coração que repousa em Cristo pode saber o que é verdadeiramente a riqueza que o dinheiro não pode comprar.

 

“Ó Senhor, sois minha herança e minha taça,
meu destino está seguro em vossas mãos!
Foi demarcada para mim a melhor terra,
e eu exulto de alegria em minha herança! 

 

Eu bendigo o Senhor, que me aconselha,
e até de noite me adverte o coração.
Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,
pois se o tenho a meu lado não vacilo.

Eis por que meu coração está em festa,
minha alma rejubila de alegria,
e até meu corpo no repouso está tranquilo;
pois não haveis de me deixar entregue à morte,
nem vosso amigo conhecer a corrupção. 

 

Vós me ensinais vosso caminho para a vida;
junto a vós, felicidade sem limites,
delícia eterna e alegria ao vosso lado!”

(Sl 15, 5-11)

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva