A persistência da misericórdia divina

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A separação, ou o estado de distanciamento entre duas pessoas antes conjuntas através de um vínculo, constitui uma realidade de falta, de vazio não superado. Obviamente aqui falamos da separação onde existe o vínculo do amor, mesmo que genérico, pois uma separação ocasionada pela falta do amor nada mais é que uma questão de ação e reação: diante do desamor, diante da ameaça ou da certeza do risco, a separação se torna um ato de prudência.

No que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus, a separação identifica-se com o pecado, única condição capaz de distanciar a criatura feita à imagem e semelhança de Deus daquele que é sua origem e destino. Pecar significa, ainda que por breve momento, deixar de amar a Deus, buscando completar-se e preencher-se com algo que ele mesmo criou, mas que o homem assume como fim último, como fonte de satisfação e alegria para si, deixando de lado a comunhão com o divino e desajustando em si mesmo a semelhança com o Deus criador. Assim sendo, pecar é separar-se de Deus.

O pecado é sempre uma escolha concebida e assumida no tempo, tendo, porém, consequências eternas, pois a alma que cai em pecado pode perder-se eternamente, isto é, pode solidificar de forma perpétua seu estado de separação de Deus, produzindo sua eterna condenação. Isso se dá em função da gravidade do pecado – pois é uma ofensa desmedida contra a caridade e benevolência divinas – e da impossibilidade de o homem reverter essa situação, visto ser ele mesmo finito diante de um ato com consequências infinitas. Em outras palavras, o homem quando peca, assume para si uma condição de condenação que ele mesmo nunca seria capaz de redimir. E aqui devemos ter a atenção de não considerar essa verdade como relativa apenas ao estado do ser humano diante do pecado original, mas também diante do pecado atual e pessoal, o qual configura, de forma análoga, essa mesma condição de condenação frente à divina justiça.

Diante deste estado das coisas, apenas Deus, infinito e eterno, poderia dar ao homem pecador a possibilidade da salvação de seus pecados, através do desmantelamento da lógica separacionista do pecado, ou seja, reconstruindo o caminho entre o divino e o humano. E isso ele o fez em Cristo, o homem-Deus capaz de destruir o muro de separação (cfr. Ef 2, 14) e unir novamente a humanidade ao seu criador e redentor, rico em misericórdia, mediante o mistério excelso do sacrifício da Cruz. Desta forma, Deus mostra uma característica muito significativa da sua misericórdia: a persistência.

O Senhor não mede esforços para salvar o homem, e nem se deixa abater pelas dificuldades que a própria humanidade, obcecada pelo mal, insiste, muitas vezes, em criar. Prova disso é a persistência de Deus em salvar o povo de Nínive com o envio do profeta Jonas. É difícil acreditar que a intenção primeira de Deus fosse aquela de destruir a cidade a causa de sua grande maldade. Se assim fosse, qual o motivo de enviar o profeta para que a população fosse avisada, com quarenta dias de antecedência, do desferir da ira divina. De fato, mesmo a desobediência do profeta – o qual foge para longe de Nínive (cfr. Jn 1, 3) – foi vencida pela persistência da divina misericórdia (cfr. Jn 2 – 3), pois Deus desejava dar a Nínive a oportunidade da salvação.

Outro exemplo interessante nos é oferecido pela parábola do Pai misericordioso (cfr. Lc 15, 11-32), onde a libertinagem do filho mais jovem é contrastada com a liberdade do pai que permite a dolorosa separação, fruto do pecado e da desordem. No entanto, mesmo diante do mal praticado pelo filho, do seu desrespeito e desamor, o pai o aguarda, incansável e persistentemente, até seu retorno. De fato, vemos que o pai avista de longe o filho voltar, o que nos leva a crer que ele mantinha os olhos fixos no caminho que conduziu seu filho para uma terra distante, na esperança de que aquela mesma estrada o traria de volta. Esta estrada que leva e que traz o filho é uma figura do caminho do Calvário, estrada percorrida pelo Senhor Jesus para a salvação da humanidade, pois assim se realiza a recapitulação de que nos fala Santo Irineu, isto é, Cristo toma os elementos que serviram ao pecado para destruir o homem e os converte em instrumentos de salvação, ele assume o madeiro de onde antes pendera o fruto da tentação e o caminho doloroso de Adão e Eva expulsos do paraíso terrestre (cfr. Gn 3, 6. 23-24). “A Cruz é o modo mais profundo de a divindade se debruçar sobre a humanidade e sobre tudo aquilo que o homem – especialmente nos momentos difíceis e dolorosos – considera seu infeliz destino. A cruz é como que um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas da existência terrena do homem” (S. João Paulo II, Dives in misericordia, 8).

Neste tempo em que somo convidados a olhar dentro da profundidade do nosso ser e confrontar-nos com a triste realidade da nossa imperfeição e pecabilidade, não podemos esquecer de concentrar nosso olhar ainda mais profundamente no oceano da misericórdia divina, pois apenas a certeza de que o Senhor nunca desiste de nos salvar, indo até o extremo para nos reconduzir à comunhão com ele, pode dar forças aos pecadores para que se convertam de todo coração e abracem o amor infinito de Deus, o qual persistentemente está a nossa porta e bate (cfr. Ap 3, 20).

 

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva