A cruz do ladrão na Cruz do Pastor

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O grande e terrível mistério da Cruz de Cristo! Grande em virtude da imensa realidade que abarca, colocando na posição de condenado o criador de todas as coisas; e terrível, justamente por causa de sua grandeza, a qual supera toda a realidade que possa fazer parte da vida neste mundo, consolidando a manifestação mais sublime e poderosa de Deus na história.

No evento da Paixão de Cristo, a cruz ocupa o lugar central, pois nela é colocado o juiz do mundo, não erguido no alto de uma solene tribuna, mas sim levantado da terra (cfr. Jo 12, 32). Ali, naquele madeiro, lugar de suplício e de dor, antro de sofrimento e de desolação, encontra-se o Senhor do universo, com seus membros pregados ao lenho com grandes e pesados pregos, sendo limitado na sua liberdade aquele que veio para que todos os que o conhecerem, ele que é a Verdade, se tornassem livres (cfr. Jo 8, 32).

“Mas como explicar isto, que vosso amor tenha chegado a tal ponto, ó Salvador do mundo, que, tendo eu cometido o delito, tenhais vós de pagar a pena?” (Santo Agostinho, Meditações, c. 7). Como aceitar que uma semelhante troca seja feita? Como ter a consciência tranquila se, diante da vileza dos nossos pecados, a máxima resposta formulada pela justiça divina seja a cruz? De fato, apenas um amor infinito seria capaz de conceber tal obra, tão imensamente benévola, e tão incrivelmente pródiga. Apenas o amor divino pode tomar para si o mal humano todo inteiro e cravá-lo na cruz, dispondo no alto do madeiro elevado sobre o Calvário o Filho Unigênito e Predileto, o eterno Verbo encarnado, qual sacerdote e vítima de expiação por todo o mundo.

Se perguntássemos ao Senhor Jesus, o que lhe levou a entregar-se pela nossa redenção, ouviríamos uma vez mais suas palavras: “Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. Ora, esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não deixe perecer nenhum daqueles que me deu” (Jo 6, 38-39). E esta verdade nós a podemos contemplar de forma ainda mais clara no resgate do bom ladrão feito pelo Salvador no último momento, no momento decisivo da cruz.

Era um homem como qualquer outro, com suas qualidades e defeitos, com suas particularidades e história de vida. Mas também era um homem diferente dos demais, pois era ladrão. O Evangelho não nos oferece sequer seu nome, apenas o que dele se sabia e se comunicava: era um ladrão. No entanto, para o Senhor ele era mais do que isso, pois essa expressão taxativa se destina apenas a afirmar o que todos já viam, isto é, que havia cometido erros e crimes ao longo da vida; aos olhos de Cristo é a ovelha que se perdeu. De fato, a ovelha perdida da parábola (cfr. Lc 15, 3-7) se distancia do rebanho de tal forma que se furta ao olhar do pastor, que está sempre atento a todas. A ovelha esconde-se, perde-se e arrisca a própria vida neste distanciamento, podendo até sucumbir. Mas é nessa hora que chega o pastor e a resgata, tirando-a do perigo e assegurando-a o convívio consigo e com o restante do rebanho.

Assim como a ovelha é carregada pelo pastor, Cristo coloca sobre seus ombros o ladrão que a seu lado padece, carregando sobre si não o peso da desobediência à lei por ele praticada, mas sim dos pecados por ele cometidos, os únicos capazes de afastá-lo do redil do Senhor. Na cruz, Cristo levava o ladrão, como levava a toda a humanidade. Na cruz o redimia e salvava, desejando apenas que ele acolhesse esta obra de salvação e se abrisse para ela. Ele confessa seu pecado e manifesta seu arrependimento, o que sozinho já era de imensa valia para ser salvo – diz Santo Tomás que um momento de grande e profunda conversão “vale mais que todo o universo” (STh I-II 113,9, ad 2). Na cruz, o Bom Pastor dava a sua vida pelas ovelhas (cfr. Jo 10, 11), e a dava também por aquela que se havia desencaminhado. E diz: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).

Se analisarmos bem, assim como nada na vida e ministério de Jesus foi por acaso, também seu encontro com o bom ladrão não o foi. De fato, o Senhor o poderia ter encontrado em muitas outras ocasiões antes da fatídica tarde daquela santa sexta-feira. No entanto, em sua divina sabedoria, permitiu que seus caminhos se cruzassem na via dolorosa, e se estreitassem no Calvário. Não nos é consentido saber o porquê disso, mas podemos, com tranquilidade, ver nesse evento um reflexo do que também em nossas vidas acontece, pois nosso divino Redentor, que não recusou a cruz e a paixão para nos redimir, também não se apartará de nós em nenhum momento de nossa vida, seja ele de alegria ou de dor. “‘Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá sua alma por suas
ovelhas’. Onde, porém, ó Senhor, se encontram no mundo pastores semelhantes a vós? Os outros pastores dão a morte às suas ovelhas para a conservação da própria vida divina para obter a vida para as vossas amadas ovelhas. E eu sou uma dessas felizes ovelhas, ó meu amabilíssimo pastor. Que obrigação, pois, a minha, de amar-vos e de dar a minha vida por vós, já que vós por amor de mim em particular vos entregastes à morte. E que confiança não devo pôr no vosso sangue, sabendo que foi derramado para pagar os meus pecados”, diz Santo Afonso (Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, Vol. I, c. I, 12.).

Contemplemos a glória de Jesus Cristo elevado no madeiro. Adoremos ao Senhor glorificado e elevado da terra na sua ressurreição. Acostemo-nos ao santo mistério destes dias santos, com um profundo silêncio adorante, na esperança da alegria transbordante da Páscoa.

Pe. Everton Vicente Barros
Comunidade Católica Palavra Viva