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Eleições e anticristianismo na França

 

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Nesta despretensiosa análise política e histórica, saiba como a hostilidade à religião, e à fé católica em particular, está influenciando as eleições presidenciais na França.

 

No dia seguinte à vitória de François Fillon nas primárias republicanas da França, em novembro do ano passado, o título do jornal de esquerda Libération era: "Socorro, Jesus está voltando!" A razão para essa chamada de aflição? Fillon era conhecido como um católico praticante, marido fiel (aspecto nada comum entre os políticos contemporâneos) e visitante regular da Abadia de Solesmes, símbolo da restauração religiosa supostamente neomedieval e "reacionária" do século XIX. Pior, ele era apoiado por muitos dos militantes que organizaram, em 2013, as espetaculares e massivas (ainda que sem sucesso) manifestações contra a legalização do "casamento" gay — la Manif pour tous.

 

Olhando retrospectivamente, o "pedido de socorro" do jornal Libération, longe de causar pânico entre os secularistas, o que fez foi anunciar a determinação deles de acabar com a candidatura de Fillon. Dentro de semanas, ele foi acusado pela imprensa de fazer o que a maioria dos políticos, em todos os partidos, fazem: colocar a mulher e os filhos, que trabalhavam duro para ele, em cargos assalariados — o que é ilegal apenas se, de fato, nenhum trabalho é realizado. Um promotor público foi rapidamente apontado pelo governo socialista, e de maneira previsível, para acusar o líder da oposição conservadora. As acusações permanecem abertas, para dizer o mínimo. Não houve relatório algum nem de instituições públicas nem de instituições privadas que tivessem pago salários a membros da família Fillon. Detalhes da investigação preliminar foram vazadas para a mídia, que depois acrescentou novas acusações.

 

Fillon reconheceu que contratar membros de sua família tinha sido imprudente, e desculpou-se por isso. Mas ele foi incapaz de se desvincular das suspeitas de desonestidade. Antes do escândalo, ele estava em primeiro lugar nas pesquisas para a presidência da França; depois de tudo, ele caiu para o terceiro lugar, ficando atrás de Le Pen e do centrista Emmanuel Macron — e fora do segundo turno.

 

A acusação de corrupção contra Fillon não foi apenas um golpe político sujo. Foi também um ato motivado por ideologia, e reflete a hostilidade ao Cristianismo presente em vários círculos onde a religião em geral, e a fé católica em particular, é vista como uma doença infantil. Essa não é a ideia só de marxistas meio arrependidos, ainda ansiosos para protestar contra "o ópio das massas", ou de outros adeptos da esquerda materialista. A aversão ao Cristianismo também pode ser encontrada na extrema direita política, com o seu misticismo avesso ao amor e à misericórdia, e entre centristas cuja moderação assimila a fé ao fanatismo religioso.

 

Marine Le Pen, a candidata populista da Frente Nacional, também é acusada de incluir membros do seu partido na folha de pagamento do Parlamento Europeu, no qual ela detém um mandato eletivo. Apesar disso, ela não foi ferozmente perseguida como Fillon. Uma das razões é que ela aparentava ser, de acordo com as previsões da grande mídia, uma ameaça menor que o candidato republicano. Mas a razão principal por que a mídia caçou Le Pen com menos ferocidade que Fillon é que ela não é considerada uma inimiga do "progresso" na área de maior importância para as pessoas "iluminadas": a assim chamada liberação sexual. Le Pen já se divorciou por duas vezes e é simpatizante da causa gay. Ela não se comporta nem se define como uma boa católica.

 

A hostilidade à Igreja não é algo novo na França. Alguns historiadores chegam a dizer que o país nunca foi evangelizado por completo. Missões nas províncias foram necessárias até o século XIX, quando o secularismo crescente forçou o clero a se retirar para posições defensivas. Depois do batismo de Clóvis, rei dos francos, pelo bispo São Remígio de Reims, em 496 (considerado o ano de nascimento da nação), a Igreja tendia a confiar no poder real, proporcionando à monarquia, em retorno, uma aura de sacralidade (algumas vezes contrária ao Papa, em tempos de "galicanismo") e súditos obedientes. A aliança fundante entre o trono e o altar foi desafiada, primeiro durante a Reforma (quando aristocratas protestantes ameaçaram a união nacional, conquistada com suor pelos reis durante a Idade Média), e depois mais seriamente nos séculos XVII e XVIII, com a ascensão da burguesia, a nova classe de mercadores abastados.

 

A Revolução Francesa não faz sentido sem o preexistente peso dos novos ricos na sociedade e o seu ódio tanto ao regime quanto à Igreja. Porque eles não eram autorizados a frequentar a classe alta (como foi o caso da Inglaterra, por exemplo), os novos ricos financiavam intelectuais do livre pensamento. Esses escritores produziram histórias, peças e panfletos que espalharam entre as classes mais baixas a noção de que a pobreza e a fome eram devido à ordem social injusta mantida pela religião oficial. Em setembro de 1792, uma gangue invadiu o convento de Paris, quando centenas de padres e monges foram detidos como "inimigos da nação" e assassinados. Essa gangue, evidentemente, não tinha vindo do nada. Tampouco a multidão que aplaudia enquanto freiras inofensivas eram guilhotinadas sem motivo, a não ser os seus votos religiosos.

 

Napoleão, que inesperadamente emergiu do caos revolucionário, comprou a paz ao reconhecer o Catolicismo como "a religião da maioria dos franceses". Mas ele também concedeu reconhecimento oficial a judeus e protestantes, a fim de melhor mantê-los sob o seu controle. Isso fez com que fosse fácil, para os secularistas que tomaram o poder um século depois, denunciar e revogar a Concordata que ele havia assinado com a Santa Sé. É claro que, desde a Revolução, o clero e o seu rebanho tinham sido notavelmente persistentes em apostar nos cavalos políticos errados. Eles apoiaram todos os sucessivos regimes do século XIX, antes de se voltarem contra os mesmos, ora por serem muito autoritários, ora por serem muito liberais: sucessivamente, o império napoleônico, uma monarquia restaurada e então menos absolutista, uma segunda república, um segundo império…

 

Depois que um enfraquecido Napoleão III perdeu, em 1870, a guerra que os prussianos lhe tinham armado, os católicos prefeririam uma segunda restauração, mas uma terceira república, baseada nos ideais da Revolução de 1789, finalmente prevaleceu no voto popular. Eles se recusaram a aceitar isso (ainda que o Papa Leão XIII lhes aconselhasse o contrário), e a separação do Estado e da Igreja, em 1905, foi facilitada por duas crises simultâneas: os católicos estavam mais uma vez do lado errado no caso Dreyfus, que rachou o país no meio, e a repressão da exegese e da teologia "modernistas" passava a ideia de que a fé era incompatível com a razão e a ciência.

 

Como eram patriotas, os católicos franceses lutaram na Primeira Guerra Mundial, ignorando o Papa Bento XV; mas eles continuaram perdendo terreno político e cultural, até que os alemães voltassem em 1940 e implantassem o regime antissemita de Vichy, que muitos do clero e do laicato acolheram, mais uma vez erroneamente. Eles não gostavam muito de De Gaulle (ainda que ele fosse um deles) e foram lentamente marginalizados após a Segunda Guerra Mundial, conforme o crescimento econômico e a urbanização minavam as estruturas rurais da Igreja, e Marx, Nietzsche e Freud se tornavam os novas referências intelectuais, confirmando que o Cristianismo estava condenado.

 

Em décadas recentes, a crença de que o Catolicismo não só está fora de moda, como também é nocivo, vai baseada em questões mais sexuais que políticas. A modernidade considera que suas lutas pelo divórcio, pela contracepção e pelo aborto definitivamente ganharam, e agora busca impor a aceitação de todos os tipos de atividade sexual em nome dos direitos das minorias. Nestas circunstâncias, a Igreja é mais do que nunca a inimiga.

 

A maioria dos cidadãos franceses não são ativamente hostis ao Cristianismo. Eles são simplesmente indiferentes a uma religião que conhecem pouco e cada vez menos. Mas existem uns quantos lobbies efetivos ansiosos para desacreditar a Igreja. Essa pressa para eliminar a religião agora vai de encontro ao imprevisto da expansão islâmica, que nega formalmente a irreversibilidade da secularização. Mas isto não é razão para poupar a fé católica, já que ela não consegue controlar o fanatismo islâmico e continua sendo um alvo mais fácil.

 

A França não é uma exceção entre nações que já foram cristãs. O ódio anticlerical fez milhares de homicídios no México e durante a Guerra Civil Espanhola. E a recusa da União Europeia em reconhecer quaisquer raízes espirituais para o continente mostra que o anticristianismo não está limitado ao militantes dogmáticos, mas vai espalhado também entre as elites "iluminadas" do Velho Mundo.

 

Circunstâncias como essas não justificam o pessimismo. Artistas cristãos de renome mundial podem até sentir falta do apoio de uma civilização onde a fé era onipresente e provia um ambiente favorável e uma fonte de inspiração. Mas Igrejas nacionais em apuros, não menos que as triunfantes, também produzem missionários, santos e teólogos. Na França, a ascensão do secularismo durante o ano 1900 coincidiu com Santa Teresinha de Lisieux e as conversões de Péguy, Claudel e Maritain. O totalitarismo do século XX coexistiu com Bernanos, de Lubac, Daniélou, Congar e Bouyer. Alguns dos filósofos franceses mundialmente conhecidos de hoje (Jean-Luc Marion, Rémi Brague) também são católicos. Ou seja, a Igreja gera frutos também quando é incompreendida e desprezada. Ela não será aprovada por unanimidade até o final dos tempos. É essa uma das lições da Cruz de Cristo.

 

 

 

 

 

 

Disponível em padrepauloricardo <https://padrepauloricardo.org/blog/eleicoes-e-anticristianismo-na-franca> acessado em 03 de maio de 2017.

 

 

 

 

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