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       Ser puro para amar

 

 

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“Por que ser puro?”, ou melhor dizendo – visto que vivemos em uma era profundamente marcada pelo consumismo (que reduz as pessoas e as relações a objetos de compra e venda), pelo hedonismo (onde o prazer se torna um deus que distribui sensações a aparentes baixos custos) e pelo egoísmo (que induz à firme crença de ser o autêntico centro da própria existência): “O que ganho sendo puro?”. Um tal questionamento é muito corriqueiro no nosso cotidiano, ao qual a resposta soa tão simples quanto a pergunta: “Nada”. Isto mesmo, nada. Porque aquele que vive a pureza, mais do que guardá-la por causa de si mesmo, o faz pelo outro. Como um pai de família que guarda a pureza no seu comportamento por causa da boa educação dos filhos e do amor pela esposa; ou como uma consagrada que vive a pureza no meio do mundo, através do desapego do mundo, para mostrar a este mesmo mundo a realidade da eternidade escondida na sua vida entregue a Deus; ou como o sacerdote, que sendo pai de todos os filhos de Deus, se dedica para ser cada dia mais igual ao Cristo, casto e doado, para que os homens reencontrem o caminho da santidade e da salvação; ou ainda como um jovem, imerso na vida e no cotidiano da própria família e amigos, faz resplandecer na própria vida a beleza do puro amor de Deus pela humanidade. Assim sendo, aquele que vive a pureza se torna alguém em estado de contínua doação à Deus e aos homens.

 

Diante de uma tal realidade muitos poderiam objetar que a castidade – a grande guardiã da pureza – não seria que um bloqueio opcional feito por alguns com o fim de evitar traumas decorrentes de relacionamentos interpessoais. Tais afirmações nada acrescentam na reflexão filosófica e nem psicológica, visto ser algo de extrema redução e incapacidade de observação do ser humano em um campo de visão que ultrapasse os meros instintos e necessidades biológicas. O homem é também alma, não devemos esquecer. E é justamente na alma que atua a castidade, que não é apenas um compromisso racional, nem somente um tipo de comportamento assumido. A castidade é uma virtude, dada por Deus aos que desejam e ensinada pelo Espírito Santo, doce hóspede das nossas almas.

 

Ser casto não significa deixar de amar ou amar com menor intensidade, mas sim um amar autêntico e verdadeiro, que não depende de condições para acontecer, nem físicas, nem afetivas. Sim, o amor não é necessariamente ligado ao afeto, isso porque o amor não acontece apenas quando é precedido ou garantido pelo “gostar”, que é uma manifestação afetuosa em relação a alguém que dá alegria e satisfação com a própria presença. Nosso Senhor Jesus nos pediu o amor pelos inimigos, sendo assim, somos chamados a amar a todos, mesmo que não gostemos de todos, por motivos que, muitas vezes, só a vida pode explicar.

 

A castidade é a virtude que eleva o coração àquilo que os olhos não conseguem ver, seja já neste mundo, seja na vida eterna que virá. Quem é casto possui a pureza do olhar, que consegue ver as outras pessoas pelo que são, com suas qualidades e eventuais defeitos, e vê beleza em tudo isso. Os olhos castos não se prendem à imaginação e à fantasia, produzindo a ânsia de dominar o outro, mas se dedica a olhar e ver no outro um igual, de igual dignidade e alvo de igual amor, aquele de Deus. Desta forma, não se é difícil amar, pois o bem do outro sempre estará em primeiro lugar no coração casto.

 

Com certeza se é esperado algo diferente destas linhas, quase um elenco dos métodos para se fugir dos pecados da luxúria ou um engrandecimento daqueles que se dedicam a não cometer tais pecados. Fugir do pecado é, de fato, a grande chave para não pecar; e viver em estado de graça, sem cometer estes pecados contra a castidade é um dever de todo cristão, além de um caminho reto para a santidade. Mas devemos dizer que não se pode pretender a castidade apenas como uma fuga do pecado, mas como um aperfeiçoamento do amor. Aquele que busca viver castamente deve viver de forma a manifestar que a castidade é uma garantia de liberdade, um selo de autenticidade da alegria experimentada e transmitida. Tudo isso apenas se torna realidade quando o doce perfume de Cristo é exalado pelos atos de amor que realizamos e pela santidade de vida que vivemos. Esta santidade tem então força para mudar até mesmo a realidade que está ao nosso redor, mudando os paradigmas e derrubando as falsas compreensões, além de conduzir os homens à maior Glória de Deus.

 

No infinito amor de Jesus, recebido do seu coração e ancorado na sua salvadora Paixão, aprendemos que o verdadeiro sentido da vida é saber amar, amando com liberdade a Deus e aos irmãos. “É teu amor Jesus que eu peço. É teu amor que há de me transformar. Põe no meu coração tua chama que consome, e poderei te bendizer e amar” (Santa Teresinha do Menino Jesus, Como quero amar, Poesia 41, 1).

 

 

 

 

Pe. Everton Vicente Barros

Comunidade Católica Palavra Viva

 

Tão sublime sacramento!

 

 

 

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Lauda Sion Salvatorem, lauda ducem et pastorem in hymnis et canticis (Louva, Sião, o Salvador, o teu guia, o teu pastor com hinos e cânticos)”. Assim começava a sequência formulada pelo dominicano Frei Tomás que, juntamente com o frade franciscano Frei Boaventura, se apresentava ao Papa Urbano IV com os textos litúrgicos a serem usados na comemoração da festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo (Corpus Christi) que seria instituída oficialmente pelo Pontífice. Conta-se que o primeiro a declamar os textos preparados foi São Tomás e que, após a sua leitura, diante da admiração de todos os presentes, São Boaventura, sem hesitar, rasgou o que havia preparado para aquela ocasião afirmando que o havia escrito não podia ser comparado ao que o dominicano acabava de declamar.

 

A grandeza do mistério sagrado da Eucaristia nos comunica a maravilha do amor insondável de Deus, que nunca permite que o homem fique abandonado às próprias forças, mas o nutre no seu caminho cheio de aflições, mas também permeado pela graça divina e pelo bem natural dado na criação. Esta obra salvadora e santificadora de Deus permiti-nos ver o plano de amor que existe dentro de seu coração amoroso e cheio de misericórdia para conosco. O Senhor conhece mais do que qualquer um o que trazemos dentro de nós, nossos pecados, nossas fraquezas, nossos medos e angústias; mas conhece também a beleza que carregamos conosco, fruto da imagem e semelhança com as quais fomos criados e do destino divino a que somos chamados em Cristo. Desta forma, o Senhor pode sempre vir a nosso encontro com aquilo que mais necessitamos e o que realmente desejamos, ciente que mesmo o pecado que em nós consegue habitar, não corresponde à nossa dignidade nem à nossa autêntica vontade.

 

No seu discurso na sinagoga de Cafarnaum, Jesus indicou aos seus ouvintes e aos discípulos que deveriam levar adiante sua obra, que ele mesmo foi enviado pelo Pai para ser o alimento que dá a verdadeira vida aos que dele comem. Diz: “Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo” (Jo 6, 48-51). O maná do deserto era o alimento que Deus havia provido ao povo de Israel enquanto caminhava em direção à terra prometida sob a guia de Moisés e de Aarão. Este alimento se assemelha e difere do Corpo de Cristo em alguns aspectos fundamentais. Assemelha-se pelo fato de ser o alimento dado por Deus para o povo que caminha na direção da “terra onde corre leite e mel” (Ex 33, 3), símbolo do Paraíso celeste ao qual o novo povo de Deus tende em virtude da salvação em Cristo. Difere em dois pontos fundamentais: em primeiro lugar, porque o maná era o alimento que os israelitas não sabiam o que era, apenas que era dado pelo Senhor (cfr. Ex 16, 15), já o verdadeiro pão do céu sabemos que é o Corpo do Senhor Jesus (“Eu sou o pão da vida”); em segundo lugar, o maná alimentou o povo na caminhada no deserto, terminando de cair no dia em que os israelitas atravessaram o Jordão e entraram na terra de Canaã (cfr. Js 5, 12), tendo sido um alimento provido para a vida biológica das pessoas que dele comiam, enquanto que a Eucaristia, o Corpo do Senhor dado aos fiéis, gera neles a vida divina na comunhão com o Cristo destinada a posse da eternidade bem-aventurada no céu, onde “Deus será tudo em todos” (1Cor 15, 28).

 

A oração da coleta da Missa de Corpus Christi nos impele a pedir ao Senhor Jesus que nos dê a graça de venerarmos com grande amor o mistério do seu Corpo e do seu Sangue. Eis aqui a autêntica reação diante deste milagre oculto aos olhos. Reconhecer a grandeza da presença do Senhor Jesus nas espécies eucarísticas é indispensável para os que desejam alcançar a felicidade eterna no céu, assim como o maná no deserto foi vital para que o povo de Israel chegasse à terra prometida. “O alimento da alma é o corpo e o sangue de Deus! … Oh! formoso alimento! A alma não se pode alimentar senão de Deus. Só Deus pode bastar-lhe. Só Deus pode saciá-la. Fora de Deus não há nada que possa saciar-lhe a fome” (São João Maria Vianney, Sermão sobre a Eucaristia).

 

O hino que ouvimos na benção eucarística ao final da celebração de Corpus Christi, em uma das suas partes, recita: “Verbum caro, panem verum, Verbo carnem éfficit: fitque sanguis Christi merum, et si sensus déficit, ad firmándum cor sincérum sola fides súfficit (O verbo encarnado, o pão real com sua palavra muda em carne: o vinho torna-se o sangue de Cristo, e como os sentidos falham, para firmar um coração sincero, apenas a fé é eficaz)”. Somente pela fé podemos contemplar em seu esplendor o mistério eucarístico que se renova todos os dias em nossos altares. Celebrar com solenidade o Corpo e o Sangue de Cristo nada mais é que dedicar um dia para festejar este glorioso milagre, com toda a honra e alegria que não podemos dedicar-lhe todos os dias de forma externa, mas que deve ser a realidade do nosso coração sempre que celebramos a Santa Missa.

 

“Regozija-te, minha alma, e agradece a Deus tão excelente dádiva e singular consolação, que ele te deixou neste vale de lágrimas. Porque todas as vezes que celebrares este mistério e receberes o corpo de Cristo, renovas a obra de tua redenção e te tornas participante de todos os merecimentos de Cristo. Pois a caridade de Cristo nunca se diminui, nem se esgota jamais a grandeza de sua propiciação. Por isso te deves preparar sempre para esse ato pela renovação do espírito, e considerar com atenção este grande mistério de salvação. Tão grande, novo e delicioso se te deve afigurar, quando celebras ou ouves missa, como se Cristo no mesmo dia descesse pela primeira vez ao seio da Virgem e se fizesse homem, ou como se, pendente da cruz, padecesse e morresse pela salvação dos homens” (Imitação de Cristo, Lib. IV, cap. 2, 6).

 

       

 

Pe. Everton Vicente Barros

Comunidade Católica Palavra Viva

 

A imitação da Trindade

 

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A Solenidade da Santíssima Trindade é uma das mais preciosas oportunidades que a Igreja tem ao longo do ano litúrgico para imergir os fiéis no imenso mistério da essência de Deus, que é uno e trino. Tal mistério se conecta diretamente com a vida de cada cristão e de cada homem e mulher neste mundo, pois a certeza da trina-unicidade de Deus abre ao ser humano as portas da compreensão de si mesmo à luz do mistério divino.

 

A fé da Igreja na Trindade possui seus fundamentos na Sagrada Escritura e na Tradição transmitida pelos Apóstolos e através de seus sucessores ao longo dos séculos da História. Uma fé que não pode ser resumido apenas à um artigo da fórmula do Creio, mas que é vida e sentido de viver de todos os que creem no Deus revelado por Jesus Cristo, qual cume de toda a revelação divina começada em Abraão. Olhar para dentro da Trindade exige que se usem os olhos da fé, pois é um mistério insondável; mas que também se use a razão humana, dom de Deus, para que, a um semelhante olhar profundo, corresponda uma certeza que não se deixa abalar.

 

Este é nosso intento, contemplar a Trindade. Obviamente, não como uma realidade circunscrita dentro de nossos esquemas linguísticos, mas na intensidade da experiência de Deus que todos podemos fazer. Contemplar a Trindade, para nós nesse momento, será voltar nosso olhar limitado para dentro do infinito, permitindo que os olhos que não enxergam mais do que a luz pode tocar, seja alvo da mais branda e intensa luminosidade, aquela que antes de criar a luz, qual a conhecemos, já resplandecia como glória eterna e infindável. Tal experiência pode muito ser comparada àquela de quem entra em uma bela igreja, ornada com cores e linhas, formas e estilo. Diante de tal visão, ainda que o desejo seja o de ver tudo ao mesmo tempo, para deixar-se tomar pela grandeza, o olhar se fixa em um particular de cada vez, para saborear ao máximo o fantástico espetáculo silencioso que se tem diante. Assim também nossa contemplação da Trindade Santa não pode se deter sobre toda ela, mas podemos eleger um particular deste Trino-Deus de amor e permitir-nos imergir neste mar de beleza divina: a unidade.

 

“Inseparáveis em sua única substância, as divinas pessoas são também inseparáveis em seu agir: a Trindade tem uma só e mesma operação. Mas, no único agir divino, cada pessoa se faz presente segundo o modo que lhe é próprio na Trindade” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 49). Está a grandeza da unidade da Trindade: uma única substância, um único agir, tudo na diversidade das pessoas ligadas na unidade da essência. Este mistério inescrutável da Trindade coloca-nos diante da sua presença na vida concreta de cada ser humano, criado à imagem e semelhança de deste Deus uno e trino. São João Paulo II, ensinando sobre a grandeza do vínculo matrimonial, afirma: “O 'Nós' divino constitui o modelo eterno do 'nós' humano” (Carta às famílias, 6). Assim sendo, a existência da Trindade e seu agir se tornam o modelo e a referência máxima do ser e dor agir humano que, criado para partilhar a vida divina, deve se emprenhar por tomar parte do agir divino em sua vida, mesmo depois da ruptura gerada pelo pecado original.

 

Em concreto, na vida de cada um e de todos nós, devemos esforçar-nos por viver segundo o modelo da Trindade, em unidade perfeita, mesmo que isso nos custe mais a causa das nossas imperfeições e misérias. O Compêndio nos deu a chave para saber como nortear-nos neste caminho, imitando a Trindade “inseparável na substância” e “inseparável no agir”.

 

Podemos confirmar, infelizmente, que em muitas de nossas comunidades paroquiais, grupos eclesiais, institutos, e mesmo dentro de nossas próprias casas, não nos sentimos parte do corpo ou, simplesmente, não nos engajamos o suficiente e com os mesmos interesses que os demais, buscando nossas satisfações – mais ou menos morais – ou esquecendo-nos do objetivo central de toda obra da Igreja, que é a maior glória de Deus. Ou então, não agimos de modo coerente, gerando discórdia nos ambientes onde estamos, além de tornar difícil a conversão, esse comportamento resulta em um péssimo testemunho para os que nos veem. Imitar a Trindade, com aquela receita do Apóstolo Paulo quando exorta: “Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que atua acima de todos, por todos e em todos. A cada um de nós foi dada a graça, segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4, 3-6).

 

A unidade nos conduz a Deus, não como indivíduos separados e isolados de tudo e de todos, mas nos faz tomar parte no grande povo do Senhor, caminhando rumo à pátria bem-aventurada, para degustar as delícias espirituais daquela festa das núpcias do Cordeiro Vencedor na eternidade.

 

       

 

 

Pe. Everton Vicente Barros

Comunidade Católica Palavra Viva

 

    O tesouro da amizade

  

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A amizade é um milagre! Isso mesmo, um milagre dos mais significativos que Deus consegue operar nos corações humanos. Isso porque esta união íntima e realizadora é um desafio constante, além de uma clara fonte de alegria e felicidade, que consegue reagir a todas as tempestades da vida, procurando a salvação dos amigos e a comunhão de todos com o Senhor através da sua infinita misericórdia. Tal dom necessita de cuidado e atenção, pois, qual joia rara e preciosa, não pode ser deixada diante da maldade alheia; e qual chama ardente acesa na fornalha de amor do Espírito Santo, não deve ser exposta aos ventos contrários que buscam o apagamento das cintilas de calor humano ainda restantes no mundo.

 

A fonte de toda a amizade verdadeira está em Deus, o grande amigo do homem, que não deixa de estar próximo do ser humano em nenhum momento de sua existência. Mas a fonte da compreensão deste grande mistério que é a amizade, encontramos nas palavras de Jesus aos seus discípulos na ocasião da última ceia relatada no Evangelho de São João: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15). O caminho espiritual daqueles doze homens escolhidos pessoalmente pelo Senhor culmina em uma união assaz profunda com o Mestre, não mais sob o título de servo, mas de amigo. E Jesus explica a razão deste salto relacional, que vai muito além da intimidade e sinceridade criada entre o Senhor e seus amigos – fundamental para uma amizade verdadeira. O fundamento da amizade é a comunhão na estrada que leva a Deus.

 

Se a amizade é uma forma de amor, profunda e preciosa, então significa que é também um bem. Todo bem se refaz a um bem superior, que deve ter um sumo bem ao qual se refere em última instância. Assim sendo a amizade, qual bem precioso, provem de Deus, qual sumo bem. Mesmo que tal raciocínio pareça demasiado teórico, se mostra na realidade essencial, pois nos permite compreender que nenhuma amizade pode ser autêntica se não busca em Deus sua fonte e seu cume. “Revela-se, assim, como possível o amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus, na Bíblia. [...] Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O seu amigo é meu amigo” (Bento XVI, Deus caritas est, 18).

 

Se quiséssemos extrair do exemplo de amizade entre o Senhor Jesus e seus discípulos tantos elementos poderiam ser colhidos com facilidade. Fixemo-nos sobre três destes elementos essenciais da amizade de Jesus para iluminar a nossa amizade:

 

        Paciência. Uma faceta do amor caracterizada pela beleza e pela fragilidade, pois com facilidade se perde a paciência com alguém que erra ou que não acompanha o ritmo exigido, mas, se não se presta a devida atenção, com muito mais facilidade se perde a paciência com uma pessoa próxima, acreditando que nada do que se diga ou se faça pode machuca-la. E às vezes sim. “A tua caridade deve adequar-se, ajustar-se, às necessidades dos outros...; não às tuas” (São Josemaria Escrivá, Sulco, 749).

 

        Sinceridade. Este elemento vem exposto no centro não por acaso, mas propositadamente, exatamente porque está na centralidade da amizade. Não se pode ser amigo sem ser sincero. Mas tal sinceridade se mostra real principalmente nos momentos descontraídos, de alegrias e de risadas altas – que, em geral, são produzidas pelos amigos como sua especialidade. Esta sinceridade é a garantia que entre os amigos ninguém é juiz, porque não existe réu, nem advogado, nem promotor. Apenas o amigo. O mesmo de sempre.

 

        Cruz. O Senhor veio para fazer de todos os homens seus amigos, e a forma mais excelente para isso foi o sacrifício pleno de si para redimir-nos dos nossos pecados e fazer-nos passar de inimigos de Deus a amigos seus (cfr. Rm 5, 10). É ele mesmo quem explica esse ponto: “Ninguém tem amor maior que aquele que dá a sua vida pelos amigos” (Jo 15, 13). A amizade autêntica é marcada com o sigilo da cruz, isto é, do sacrifício, do sofrimento pelo outro, da entrega de si. Amigo não é aquele que gosta de mim, mas aquele que me ama e aceita até mesmo a morte por mim, e às vezes esse sacrifício não se dá em uma ocasião definitiva, mas na partilha dos sofrimentos e das angústias de vida, como um martírio branco para testemunhar que nada pode vencer o que é selado com o amor que vem de Deus através do sinete da Cruz do Salvador.

 

Agostinho disse: “Ama et fac quod vis – Ama e faz o que quiseres” (Confissões, XII, 9). E assim, nesta naturalidade do amor aconteceu a amizade de Jesus com seus discípulos e com cada um de nós. Assim também nós somos convidados a assumir em nossas vidas as amizades que o Senhor quiser semear ao longo da nossa estrada, quais luzeiros que nos estimulam e guiam no justo caminho rumo ao céu, com aquela alegria e vitalidade que apenas uma boa amizade consegue nos dar.

       

 

 

Pe. Everton Vicente Barros

Comunidade Católica Palavra Viva

 

“O meu lugar é o céu”

 

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As aparições de Nossa Senhora em Fátima constituem um dos eventos proféticos mais significativos dos últimos séculos, em primeiro lugar pela grandiosidade da mensagem deixada pela Mãe de Jesus que envolve toda a humanidade dentro da dinâmica do amor a Deus que gera conversão e reparação; em segundo lugar pela simplicidade dos videntes, três pequenas crianças, analfabetas e totalmente privadas de qualquer pré-julgamento em matéria. Tal evento traz consigo um particular apelo divino, ou seja, o pedido da conversão dos pecadores e da reparação dos Corações de Jesus e Maria, constantemente atacados pelos homens. Estas intenções foram acolhidas pelos pastorzinhos, ensinadas por eles e vividas até hoje por muitos fiéis ao redor do mundo, que abraçam as súplicas da Virgem Maria que, qual mãe zelosa, nos alerta sobre aquilo que devemos fazer evitar o longo do caminho para o lugar de onde ela mesmo veio e deseja levara a todos os amados filhos de Deus.

 

Na primeira aparição em Fátima, em 13 de maio de 1917, à pergunta de Lúcia sobre o lugar ao qual pertencia a senhora vestida de branco e fulgurante de luz e beleza, a mesma responde: “O meu lugar é o céu”. Tal resposta gera em Lúcia a mais inocente e coerente questão que coloca à Mãe de Deus – naquele momento ainda sem ter certeza de sua identidade –, isto é, se ela e seus primos, Francisco e Jacinta, iriam para o céu, obtendo confirmação da senhora acerca de sua salvação (cfr. Documentação Crítica das Aparições de Fátima, Doc. 1, 30).

 

Este episódio é particularmente interessante, pois as crianças ainda não tinham consciência que aquela senhora fosse a Virgem Maria, apenas algum tempo depois se colocaram tal questão, e não obstante isso, ao saberem se tratar de alguém que vinha do céu, imediatamente perguntam sobre a sua própria salvação, se também iriam poder tomar posse daquele Reino Bem-aventurado na eternidade. O que gera impressão é o fato de serem apenas crianças e, como tal, poderiam ter se concentrado em outras curiosidades à perguntar aquela senhora celeste, saber da vida de outras pessoas, do destino eterno de conhecidos – o que de fato ocorrerá apenas nas aparições seguintes -, mas não, apenas questionam se também iriam para o céu. Quanta pureza de intenção, obviamente consequência de um coração que estava já voltado para o céu, desejoso de estar com o Senhor para sempre.

 

Além de tantas outras pérolas de espiritualidade e vida interior que o evento de Fátima e aquelas três crianças têm a nos ensinar, poderemos nos concentrar de forma especial neste aspecto, vale dizer, do desejo constante e pronto de ir para o céu. Vivemos um momento da história muito peculiar, marcado pela busca autônoma do próprio bem-estar, muitas vezes a custos elevadíssimos, os quais podem ser muito mais caros que o próprio gasto financeiro, como por exemplo o custo de vidas inocentes para uma ou outra pessoa não precise se sentir perturbada com a geração não planejada de um filho ou com o incômodo de ter de dedicar tempo ao cuidado de um idoso, que pode já terminar sua vida neste mundo que não tem mais condições de esperar pelo tempo mais lento dos que não se adaptam às novas realidades e exigências da modernidade. Como cristãos, não podemos permitir que nossos olhos se fechem à eternidade, ao céu, pois é lá que devemos colocar toda a nossa fé e esperança. Somos apenas peregrinos neste mundo dominado pelas trevas em caminho para aquela cidade eterna onde a escuridão não existe, já que sua lâmpada, que brilha e ilumina, é o Cordeiro (cfr. Ap 21, 23). Ensina o Papa Bento XVI: “Muitos dos nossos irmãos vivem como se não houvesse um Além, sem se importar com a própria salvação eterna. Os homens são chamados a aderir ao conhecimento e ao amor de Deus, e a Igreja tem a missão de os ajudar nesta vocação. Bem sabemos que Deus é senhor dos seus dons; e a conversão dos homens é graça. Mas somos responsáveis pelo anúncio da fé, da totalidade da fé, e das suas exigências” (Discurso na celebração das Vésperas, Fátima 13.05.2010).

 

Nossa busca constante deve ser pelo céu, onde o Senhor e sua Mãe Santíssima nos aguardam, rodeados por uma multidão inumerável de santos e santas que se deixaram conduzir pela sagrada luz da graça divina. Este nosso objetivo não nos priva de viver neste mundo como verdadeiros habitantes, com os pés bem apoiados à nossa realidade e aos anseios e sofrimentos dos homens e mulheres, nossos irmãos. O que não pode acontecer é que esta preocupação nos distraia do nosso maior empenho, ou seja, a busca daquilo que não passará jamais, pois “não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas” (2Cor 4, 17). Deixemos, portanto que a luz santíssima com a qual a Virgem Maria está revestida nos envolva e nos guarde sempre no amor de Deus para a eternidade. “E, no dizer de Lúcia, os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora. Envolvia-os no manto de Luz que Deus Lhe dera. No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, ‘mostrai-nos Jesus’” (Papa Francisco, Homilia na canonização de Francisco e Jacinta Marto, Fátima 13.05.2017).

 

 

       

 

 

Pe. Everton Vicente Barros

Comunidade Católica Palavra Viva

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